Mostrando postagens com marcador Raul Macedo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Raul Macedo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de abril de 2013

INQUEBRÁVEL

Helena Almeida

O amor é um tiro no espelho,
intangível ao corpo estilhaçado.

Harmônico silêncio de ruínas,
tão puro de beijar e se ferir
de inocência.

Raul Macedo, in: Disjecta Membra / Toda Poesia. Org. Nina Rizzi.

sexta-feira, 22 de março de 2013

quarta-feira, 20 de março de 2013

In Memoriam

Mariya Kozhanova
Sugiro que Wislawa
tenha fumado no hospital
e dito – daria tudo
por um  café, e alguém
com uma almofada apoiaria
sua cabeça,  e ela
 pensaria  em dizer
que não perdeu ainda a cabeça,
mas não  diria, não era
preciso, e ela, sorrindo,
 sabia  desde  o começo,
o algodão do estofo da cama
o soro, os aparelhos,
 ao rés da música abrindo
lá fora alguns pássaros
na alva da janela,
olharia a relva sem olhar
para trás, para os civis
(apenas pra moça de xale
que alimentava as pombas)
sentava num banco, elegante,
esperava, esperava
e tomava seu café
como quem abraça um amigo.

Raul Macedo

BUSCA DE UMA DEFINIÇÃO

Bradley Walker Tomlin
Sempre o menor ato

possível
neste tempo de atos

maiores que a vida, um gesto
com o que passa

apenas sem ser visto. Um vento parco

perturbando uma fogueira, por exemplo,
que encontrei outro dia
acidentalmente

na parede de um museu. Apenas
nada: alguns retalhos
de branco

lançados ao acaso contra o negro rotundo
do fundo, somente
um gesto parco
tentando não ser

mais do que é. E mesmo assim,
não está aqui
e a meus olhos jamais será questão
de tentar

simplificar o mundo
mas uma maneira de buscar um lugar
pelo qual entrar no mundo, uma forma de estar
presente
entre as coisas
que não nos querem - mas que necessitamos
na medida em que nós necessitamos
de nós mesmos. Faz apenas um instante
que a bela
mulher
que estava junto a mim
me havia confessado o quanto desejava
um filho
e como o tempo
começava a lhe faltar. Resolvemos
escrever cada qual um poema
usando as palavras "um vento
parco

perturbando uma fogueira". Desde então
nada

tem significado tanto como o pequeno
ato
presente nestas palavras, o ato
de tentar dizer

palavras

que apenas dizem nada. Até o final
quero igualar-me

a quanto o olhar

me traga, como se
no fim pudesse me ver

liberto
nas coisas
quase invisíveis

que nos conduzem junto a nós e todos
os filhos não nascidos

no mundo.

Paul Auster
(Ao olhar um quadro de Bradley Walker Tomlin) / Tradução de Raul Macedo

Talvez um poema...

A Dupla Vida de Véronique
"Trouxeste a chave?"
Carlos Drummond de Andrade



Talvez um poema seja isto
uma porta escancarada para tudo
onde o nada nos aguarda sem ser visto

Talvez como uma pétala caída
de uma flor regada à ausência

Talvez como um amor sem violência
e a morte sem ser morte desejada

Talvez seja o que não é palavra
mas é palavra na espera de ser vida

Talvez a desvelada anarquia
de teus olhos segredando rupturas
da linguagem no olhar da fechadura.

Raul Macedo

Camafeu

A Liberdade é Azul
"But Silence is Infinity.
Himself has not a face."
 
Emily Dickinson

O tempo é lento; são as horas
como um rio derramado
pela foz alheia do espaço,
de alguma seca convenção.

Tange os contornos da ausência,
quando o silêncio nos desata
sua epiderme, seu semblante
que nos percorre, arde e deixa

um rosto aceso - interminável.

Raul Macedo

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Mudo convite

Stefan Culev

Há palavras que vestem o seu corpo
tecem fugas:

Sangue.
Carne.
Mundo.

E há palavras que de tão silenciosas
deitam nuas:

Raul Macedo

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

WITTGENSTEINIANA - II

Francesca Woodman
A linguagem não pode ser dita 
a não ser quando se mostra 
interdita 

entre o arco da ponte que não tomba 
e as manadas de silêncio que atravessam 

perfuram 
doem 

no poema na desordem inicial 
na loucura sem a lógica que grita - 

(des)dita 
temporal 

desmorona.

Raul Macedo