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sábado, 10 de março de 2012

Mãos

Vânia Medeiros
O mundo tem gosto duvidoso, Maria,
impossível, em uma vida, aprender a ser-se bom.
O mundo tem solo variado, Maria,
quando enfim sejamos grandes- oh desejo pueril-
qual chão nos suportaria:
é a grandeza que primeiro atola
num passo em falso, em terra acre...
Certo é amiudar as mãos com labor e paciência
até alcançar sua dureza nuclear, sua delicadeza fina.
Certo é amiudar-nos com labor e paciência
para em silêncio acolher - sem ferir-
o milagre, Maria, o milagre.

Raiça Bomfim

terça-feira, 7 de junho de 2011

PEITO-PARELHA 2. Na pré-valsa, um tango cambaio.

Serenade for the Doll
minha querida solidão,
não fomente a vingança,
em tua andrógena ciumeira,
por, em noite tão formosa,
eu vestir-me tão faceira
pra entregar-me, carne e alma,
pro primeiro que passasse.

não se valia desse orgulho,
pra punir minha pungência
nessa hora em que meu pulso
impotente em seu fremido,
já bambeia em teus redores,
colossais, desertos, tíbios
aumentando meus abismos.

me compreenda no silêncio,
me guarneça em tua paisagem,
liquefaça-se em meu ventre,

eu, que tanto já fui água,
e conservo hoje, no peito,
uma dor, assim, tão

solidinha.

Raiça Bomfim

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Conversa sobre uma guerra antiga - trecho 3

O coração tem um barulho grande e não saber o que fazer com ele é a guerra. Eu acho isso. A gente fazia assim, a gente botava um nome e um motivo pra poder instruir nosso barulho, pra não se afogar no escuro mistério dele.

Raiça Bomfim

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Conversa sobre uma guerra antiga - trecho 9

Uma coisa eu acho que há:
tem gente que gosta de vida,
tem gente que não.
Mas uma pessoa que não gosta
uma hora pode pegar de gostar,
e o contrário também.
O mais comum é que o gostar
ou não gostar predomine ao largo
e se contrarie em pequenas horas.
Eu sou uma que gosta.
Que gasta mais tempo gostando.
Essa é que é minha sorte.

Raiça Bomfim

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano novo

Amanda Cass
Nesse fim de ano, Carlos, não vou lhe dedicar desejo algum, porque
tudo que te posso desejar é aquilo que me escapa à palavra.
Mas queria lhe dizer coisas à toa, pois de todo modo,
dizer é mais concreto.

Você já reparou, Carlos, que é a mesma noite que guarda os dois anos?
Pois se no meio dessa mesma noite não houver
sinos, fogos de artifício nem ninguém pra me avisar,
talvez eu não perceba que tudo mudou.

Fim de ano, Carlos, é igual a fim de hora, de dia, de mês...
E esse fim é só mais um dos muitos
que esse ano teve. Mas dessa vez, eu estarei de branco,
você de verde e estaremos prontos pra mais
esperança.

E quando o ano estiver por acabar, Carlos, vou achar que ele
passou tão rápido e vou lembrar do tanto que foi vivido...
(Parece até que faz mais ano que te conheci).
E depois, estarei mais velha, como estive ontem e anteontem.
(E esta ruga me surgiu desde abril).

Mas livre de qualquer coisa, meu amigo, lhe peço
que feche os olhos e sinta essa calma que lhe envio.
Eu também fecharei os meus e enquanto meu passo e meu pulso
estiverem marcando o compasso do tempo,
a ternura que me escorrer pelos cílios vai pingar uma estrela
nova em meio as muitas desse céu
sem fim...

Raiça Bomfim

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Ensolarada

Deviantart
Às vezes acho que meu coração me ocupa
tanto que faz meu olho brilhar. Mas quando
minhas pequenices vêm me tomar, passo
achar que é purpurina: brilho bonito, mas
forjado; serve só pra disfarçar.
Na dúvida, tô construindo um mega-foguete...
Vou pedir ao Sol que me deixe ser seu rastro.
Mas como minha engenharia é pouca e meu opaco
é persistente, não sei onde isso vai dar.

Por enquanto, vou me rasgando pra deixar meu
coração se bronzear...

Raiça Bomfim

domingo, 19 de dezembro de 2010

Miragem

o amor me veio um dia
como a estrela que caía
no meu céu de solidão

riscou-me de luz o peito
e depois perdeu-se
na infinita distância

só eu vi sua passagem
e conservo em silêncio
um pedido e a miragem.

Raiça Bomfim

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Travessia

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças
Vejo aquele tempo com as faces contrárias:
uma hora parece que é agora
e noutra está tudo muito longe.
O que sei é que eu havia aos borbotões.
Aquele tempo é a minha barra.
Passado aquilo, a lugar nenhum
se podia voltar ou chegar.
É uma agonia acalmada atravessar com isso.
O Amor... Nunca me ensinaram. Mas eu soube:
o Amor faz o oposto que Deus no princípio:
ele desfaz os céus e a terra, mistura tudo, confunde.
Até a Deus ele mistura: com O que queima.
Crava tudo em nosso corpo.
O Amor inventa o eterno. E põe na gente as margens.

Raiça Bomfim

quarta-feira, 10 de novembro de 2010



o meu amor sequer parece com o amor
é qual o vento, o tempo, o silêncio
cor de nada, cor de alma
como tudo que tenho.

Raiça Bomfim

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Over

Eu andava com os íntimos
expostos, o tanque transbordando
de água limpa e de água suja.
Eu nunca era de um tamanho
comportado.
Muita alegre ou muito triste,
a vida sempre me excedia.

Raiça Bomfim

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O homem dos sonhos

Lilya Corneli

Pra encontrar o homem dos seus sonhos
Ela se enfeita, se maquia, se penteia
E vai dormir.

Raiça Bomfim

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Vermelha

Vânia Medeiros
Tem uma de mim que é duríssima...
Sangra feito uma condenada,
mas não larga a mão da faca.
Tem uma de mim que toda noite se mata.
Essa é a pior. É a mais poderosa de todas.
Mas só sabe se mostrar pra um certo olhar que não tem mais...
Aí fica berrando, trancada, aqui dentro.
Berrando, berrando...
E sangrando...

Raiça Bomfim

domingo, 23 de maio de 2010

Nós

Alone Gut
Mal sabe ele que ela é sempre só,
Mas já não sabe mais ser só sem ele.

Raiça Bomfim

sábado, 22 de maio de 2010

Escuro


Não me peça pra largar dessa ilusão.
Não carregue essa canção.
Não me prove que isso tudo é uma mentira.
Ou terei que confessar-te num cansaço de outras vidas
Que meu pranto é de verdade,
Mas meu riso, não.

Raiça Bomfim

quinta-feira, 11 de março de 2010

Vela

um dia eu sei que vi
o farol do infinito em seu corpo

quando o tempo apagou as luzes
e perdeu o infinito no mar
restou um barco sem pouso

e esse jeito de sonhar aos poucos.

Raiça Bomfim

sábado, 9 de janeiro de 2010

Lunário

O que nasce da terra
sou Eu.
O que a terra seca,
aterra e desterra.

Pelo vinco sagrado,
desenterro-me
sob o palácio estrelado,
aterrorizado.

Sou teu filho, Estrondo.
Sou teu filho, Espanto.
Sou teu filho, Luz.

Nasci do mistério
e estranho tudo.
Mas floresço
e sei.

Raiça Bomfim

sábado, 5 de dezembro de 2009

Flecha

aspirar e ocupar
este espaço lato
e vago,
entre princípio e fim;

elo difuso, eco,
de nós a nós,
de mim a mim;

decurso que descrevo
com seta certa
e quase às cegas.

a verdade, meu amigo,
é esta viagem rumo
a qualquer coisa bela,
que nos espera
e somos nós.

Raiça Bomfim

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Gruta

Alaya Gadeh
ninguém
em meu peito há.

corpo sem rosto,
chama sem nome.

por ti, ninguém,
eu chamo.

só tu, ninguém,
respondes.

ninguém que bem
me ama.

ninguém em minha
cama.

se ao menos
na hora do gozo,
ulisses,
me desses teu gosto...

Raiça Bomfim

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Fresh Water Tank
abismo, amor, poço fundo é risco
não é sina, é sangue, coisa viva à vista
derrame o que seja, veja o que veja
me alcance a vertigem, o medo, e inflame
que o nosso destino, amor, é ponte
e estamos no meio, no veio, ao meio.

abismo, amor, diante do abismo
todo medo é o mesmo, a morte, a queda
no entanto o destino, amor, é ponte
infinita ponte de pau e ferro,
não é sina, é sangue, coisa viva à vista
me alcance a vertigem e inflame

seja pleno o passo, presente, pungente
estados em tempo, derrame o que seja,
veja o que veja, não é romantismo,
é método, emenda, é sobrevivência;
liturgia mister, não é sina, é sangue,
coisa viva à vista

abismo e sigo, angústia e alegria
que o que em mim não é amor, é covardia.

Raiça Bomfim

sábado, 18 de julho de 2009

Coração lodo

é maré tonta
e o mar é tanto
que por bem
que eu chore
e sal e seque
e vá e volte
meu naufrágio
é sempre mais
distante e fundo.

Raiça Bomfim