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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

nós

O apartamento que montei para os nossos encontros era assim: nas paredes, cópias de bom gosto, um Branque, um Rouault, dois Picasso, um Miró e um Modigliani. O chão todo forrado, em grafite, aparelhos de som, discos (eruditos modernos, popular francês, folclórico espanhol, cantochão). Uma estante com livros (poemas, Sade, alguns eróticos, livros de arte). Uma geladeira. Todas as bebidas existentes. Um gravador, tão sensível que podia até captar a batida dos nossos corações apaixonados e onde, enquanto um esperava a chegada do outro, gravávamos a saudade que sentíamos, a angústia da espera, o desejo que nos consumia; e onde ainda registrávamos o som que fazíamos e as palavras que dizíamos enquanto amávamos na cama e no chão e na banheira, com água quente, sendo continuamente renovada, estimulando e acalmando ao mesmo tempo. Ficávamos horas, na banheira, beijando um o corpo molhado do outro, o gosto da água nas bocas, inventando posições de retempero e deleite.

Rubem Fonseca, in: A Coleira do Cão / 64 Contos de Rubem Fonseca. Ed. Companhia das Letras

sábado, 25 de dezembro de 2010


[...] Ouvir dizer que certas pessoas vivem de acordo com um plano, sabem tudo o que vai acontecer com elas durante os dias, os meses, os anos. [...]

Rubem Fonseca, in: Os Prisioneiros/ 64 Contos de Rubem Fonseca. Ed. Companhia das Letras

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O pensamento da gente é a coisa mais rápida que existe. Tenho a impressão de que não tenho mais nenhuma missão a cumprir, de que minha vida está sem projeto a realizar. Sinto, agora, uma enorme preguiça e deixo-me ficar ouvindo os sons da noite. Alguns vêm da rua, mas a esses eu não dou importância. Os sons realmente graves vêm de dentro de casa. A maioria não é identificável. Fantasmas? Acabo de ouvir um rangido, mas ele não me deixa apreensivo; entrego-me às baratas. Ladrões? Estou tão cansado que já não quero saber de nada. Que roubem tudo. Que me matem; assustar já não me assustam. Uma porta bateu. Fico com ouvidos de tuberculoso: ouço o tique-taque do relógio de pulso na mesa-de-cabeceira. Fechei as portas? Não quero mais pensar nisso. Passei a vida pensando em fechar portas. De qualquer maneira, apesar da enorme dúvida, sei que as fechei. E também janelas, basculantes, tudo. Tudo fechado. Mas ouço um barulho diferente. Talvez pés levíssimos levando um corpo franzino, e um outro coração batendo, e outro pulmão respirando. Não pensarei mais no passado. Sei.

Rubem Fonseca, in: Os Prisioneiros / 64 Contos de Rubem Fonseca. Ed. Companhia das Letras

[...] O homem é um animal solitário, um animal infeliz, só a morte pode consertar a gente. A morte será o meu sossego.

Rubem Fonseca, in: Os Prisioneiros / 64 Contos de Rubem Fonseca. Ed. Companhia das Letras

domingo, 9 de maio de 2010

Conrad Roset
[...] “Vou embora, vou passar um belo fim de semana longe de tudo, onde ninguém me chateie, vou sumir, se o José Roberto telefonar (de onde?), diz que eu morri. Eu tenho que ir embora, Isa, do contrário quando ele chegar (de onde?) e ligar para mim eu saio rastejando, juro, estou sentindo dor no corpo todo de tanta saudade desse homem”.

[...] Passo os dias ouvindo música no rádio de pilha e escrevendo cartas. Querido José Roberto eu te amo eu te amo eu te amo eu te amo eu te amo eu te amo eu te amo eu te amo eu te amo. RASGO. Querido José Roberto. Não posso viver sem você, quero ficar perto de você, pode ser como empregada ou cozinheira ou engraxate ou lavadeira ou tapete ou cachimbo ou chinelo ou cachorro ou barata ou rato, qualquer coisa da sua casa, você não precisa falar comigo, nem olhar para mim. RASGO. Na casa dele não tem barata, cachorro, rato. Cachorro tem acento circunflexo? Circunflexo tem acento circunflexo? Sou muito ignorante para escrever para ele. (Esqueço que nem sei onde ele está.)

Rubem Fonseca, in: Lúcia McCartney / 64 Contos de Rubem Fonseca. Ed. Companhia das Letras

quinta-feira, 15 de abril de 2010

não sei onde ele está.

Meu coração está negro. O ar que eu respiro atravessa um caminho de carne podre cancerosa que começa no nariz e termina com uma pontada em algum lugar nas minhas costas. Quando penso em José Roberto, um raio de luz corta o meu coração. Ilumina e dói. Às vezes penso que minha única saída é o suicídio. Fogo às vestes? Barbitúricos? Pulo da janela? Hoje à noite vou à boate.

Rubem Fonseca, in: Lúcia McCartney / 64 Contos de Rubem Fonseca. Ed. Companhia das Letras

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

[...] Cada qual vai para um quarto. Renê sabe que eu não gosto de promiscuidade. Eu vou para o quarto com o paulista. Sento num sofá. Ele também senta. Depois deita a cabeça no meu colo, diz que não está com vontade de fazer nada, "esses caras cismaram que eu hoje tinha que ir com uma garota pra cama, mas vamos só conversar, está OK?". Eu digo que está OK. Ele diz que não quer estragar as coisas. Eu digo que está bem. (Quero ir para o Zum Zum.) Passo a mão nos cabelos dele. "Eu não quero fazer isso", diz ele, tirando a roupa. Eu também tiro a roupa e nos deitamos, ele sempre dizendo que não quer, mas me papando assim mesmo.

Rubem Fonseca, in: Lúcia McCartney / 64 Contos de Rubem Fonseca. Ed. Companhia das Letras