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quinta-feira, 7 de setembro de 2023

24:04

 Anna Cunha












ando assim
a buscar os pássaros em meio a tanto barulho
a chorar pinturas de Boldini
a lembrar-me de ti.
ando assim
ao vento deixando seu abano soar suave
a rir de minhas saias
a fazer-me dançar os pés
ando assim
sincera e sonora
sentindo o ventre pulsar
embalado a poesias
agarrado pelos dedos
silenciado às pinceladas
escrevo-te assim
subitamente
deixando com que as palavras me tomem
descompassadas
a transbordar
escrevo-te assim
como quem corta o espelho
com a unha do verso.

Lorena Martins, in: Água para viagem. Ed. 7Letras


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Meu coração é um lugar à meia-luz

meu coração é um lugar à meia-luz 
eu murmurava 
quando você partia e deixava 
um pedaço do seu rancor 
à madrugada e nos postais 
revirados e entardecidos 
tristes como um lenço 
em sua caixa de naftalina, 
uma estampa e a música 
que se repete sempre que acordo, sedenta e sombria 
esbarrando em minha própria casa desconhecida 
acompanhando os passos no telhado, o recomeço dos verões um alarde: a moça grita da janela 
será que já amanheceu? a água acabou e estamos todos suados inacabando o dia, revendo fotos, anotando trechos do domingo 
restam as flores que não comprei a luz apagada 
o medo de que mais uma segunda pese como se passassem anos.

Lorena Martins