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terça-feira, 8 de março de 2011

Quem sou

Do pai, a retidão e certa melancolia:
o olhar sobre o que vem atrás
do espelho. Da mãe,
a alegria. Da remota linhagem,
o novelo de fios que tramam
alma e imagem,
ninguém sabe quando e onde.

Mais os trabalhos e a dor, a fantasia,
a obstinada procura, alguma sorte,
muita esperança na bagagem.

(Dissabores fazem parte: maior
foi a celebração da vida.)

Entre o começo e a morte,
mar e miragem:
não há muito de mim
na personagem que contemplas.

(Há que buscar o que ela esconde.)

Lya Luft, in: Para Não Dizer Adeus. Ed. Record

domingo, 30 de janeiro de 2011

Amores Imaginários
Por que se calam os amantes?, pergunto, e não são apenas o casal amoroso, mas quaisquer pessoas ligadas (ou supostamente ligadas) por afeto. Calam-se por não saberem o que e quando falar.

Falamos quando devíamos ter silenciado, e calamos quando a palavra teria sido essencial: mas a gente não sabia. Nisso reside um dos maiores dramas nas relações interpessoais. Pois alguém irá cobrar, talvez anos depois: “Aquela vez, naquele lugar, você me disse isso, e até hoje me dói”. A gente pensa, repensa, mas não lembra: “O que foi, quando foi? Eu jamais teria dito isso, sobretudo se ia te ferir.”

Mas o outro insiste na sua dor.

Lya Luft, in: Múltipla Escolha. Ed. Record

domingo, 21 de novembro de 2010

"Nunca mais quero me apaixonar, tenho horror disso porque inquieta, desarruma tudo", dizia alguém entrando nas garras de mais uma paixão - e todos ao seu redor sabíamos disso.

O amor nos tira o sono, nos tira do sério, tira o tapete de baixo dos nossos pés, faz com que nos defrontemos com medos e fraquezas aparentemente superados, mas também com insuspeitada audácia e generosidade. E como habitualmente tem um fim - que é dor - complica a vida. Por outro lado, é um maravilhoso ladrão da nossa arrogância.

Estar bem instalado pode por algum tempo nos encher de uma falsa plenitude: nada nos atinge. Mas também - nada nos encanta realmente. Começamos a bocejar - discretamente porque somos educados - desse tédio conjugal em relação à vida que nos cerca, e a vida que dentro de nós parece tão acomodada.

Mas alguém pode aparecer: alguém, ou algo. Um amor, um projeto, um sonho nos desperta, e nos acaricia, e nos seduz.

Podemos ter medo e simplesmente dizer não: puxar o lençol sobre a cabeça e continuar nesse entressono. Mas podemos espiar, e nos deixar encantar: seremos, para sempre, responsáveis por essa decisão.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

Canção da alheia primavera

Talvez se agite um braço me chamando:
mas tão longe, nem move
as névoas dessa ausência.
Quando achei que era tempo, não era:
quando apanhei a estrela, passava
um vaga-lume qualquer entre meus dedos.

Talvez desça um navio me procurando
mas não quero viagens: sou
um pálido coral numa água morna,
e vagamente aflora um movimento
- mas pode ser a sombra do meu sono.

Talvez haja um amor me inventando,
mas tão vago, nem roça
as beiras da minha praia: concha breve
e encolhida, não vou desenrolar
o meu braço. Quando achei
que era tempo, não era:
talvez este ondular entre meus ramos
venha de alguma alheia primavera.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Canção da voz em mim

O poema abre suas câmaras de sombra:
é o tempo secreto.
Vai brotar agora mesmo a palavra exata,
a chave da minha ideia,
a moldura de minha alma desencontrada.
Não sei a forma das palavras
nem o ritmo dos sons, mas o que tenho a dizer
quer nascer de mim e se retorce.

Sento-me diante do silêncio
como junto de meus mais belos sonhos:
meus pés, minhas mãos, os meus cabelos
estão enredados nessa teia.
Quero sair, repousar e esquecer.

Mas o poema insiste
com a estranha sedução da minha infância.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

domingo, 10 de outubro de 2010

Se houver um tempo de retorno,
eu volto.
Subirei, empurrando a alma
com meu sangue
por labirintos e paradoxos
- até inundar novamente o coração.

(Terei, quem sabe, o mesmo ardor
de antigamente).

Lya Luft, in: Mulher no Palco. Ed. Salamandra

sábado, 4 de setembro de 2010

Guermante
Fruto de enganos ou de amor,
nasço de minha própria contradição.
O contorno da boca,
a forma da mão, o jeito de andar
(sonhos e temores incluídos)
virão desses que me formaram.
Mas o que eu traçar no espelho
há de se armar também
segundo o meu desejo.

Terei meu par de asas
cujo vôo se levanta desses
que me dão a sombra onde eu cresço
- como, debaixo da árvore,
um caule
e sua flor.

Lya Luft, in: Perdas e Ganhos. Ed. Record

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Aviso

Se me quiseres amar,
terá de ser agora: depois
estarei cansada.
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
pra mim sobrou quase nada.

Ponho a máscara do dia,
um rosto cômodo e simples,
e assim garanto a minha sobrevida.

Se me quiseres amar,
terá de ser hoje:
amanhã estarei mudada.

Lya Luft, in: Para Não Dizer Adeus. Ed. Record

sábado, 17 de julho de 2010

Canção pensativa

Um toque da solidão, e um dedo
gracioso mas severo me traz
à realidade: não depender
nem dos meus amores, não me enfeitar
unicamente com os ardores teus, mas ver
que cada um de nós é um coração sozinho
cada um de nós perenemente
é um no espelho a se mirar, sabendo
que mesmo se no leito desse vidro cinza
um outro olhar nos busca e outro amor
quer derramar-se em nós, os limites
entre frio cristal e alma ardente
são para sempre, e para sempre
a amante solidão nos chama e abraça.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O rio do tempo

O tempo não existe,
nem dentro nem fora.
Esses peixes de opala
são nomes que nadam na memória:
são rostos, são risos, são prantos,
são as horas felizes.

O tempo não existe,
pois tudo continua aqui, e cresce
como se arredonda uma árvore
pesada de frutos que são peixes,
que são nomes de nomes, são rostos
com máscaras.

O tempo não existe. Sou apenas
o aqui e o presente, e o atrás disso,
como um rio que corre mas não passa
- pois ele é sempre, em mim, agora.

Lya Luft, in: Para Não Dizer Adeus. Ed. Record

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Meu jeito

DeviantArt_Curlytops
Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora meu amor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve estes escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.

Não acredites neste breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
não creias também: é preciso encostar
teus lábios em meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.

Lya Luft, in: Para Não Dizer Adeus. Ed. Record

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sem palavras

DeviantArt_Scarabuss
A vida inteira busquei
explicações e deciframentos:
encontrei silêncio e segredo,
às vezes o conforto de um ombro,
outras vezes
dor.

No último lapso
de um tempo sem limites
- embora a gente o queira compor
em fragmentos -,
abriram-se as águas
e entrei onde sempre estivera.
Tudo compreendido
e absolvido,
absorta eu me tornei
luz sem sombras:
assombro.

Lya Luft, in: O Silêncio dos Amantes. Ed. Record

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Canção da ilha com farol

A vida era um mar certo demais
em torno desta pedra:
minha solidão inventava um tempo
além da divisão em horas e cansaços.

Mas tua mão inesperada
reacendeu o farol dos desassombros,
e nós, frutos da paixão em altos ramos,
agora somos o coração cercado
que estremece.

(Quando se abriram represas e comportas
das nossas vidas contidas,
nem vento ou lua nem os deuses
poderiam deter essas marés.)

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim
Ninguém amando, pensa em pesos e medidas. Abrimos o corpo e alma, estamos entregues. No começo talvez haja períodos de vago susto: o outro nos define, o outro nos entende, o outro nos aquece e ilumina, somos melhores, mais belos e muito mais felizes por causa dele, sua voz fala por nós, sua mão age por nós, nunca perdemos com tamanha alegria nossa identidade para a recuperarmos no mesmo instante, transfigurada.

O outro, mesmo à distância, comanda nossa vida. Provavelmente comandamos a dele, e essa troca, sendo verdadeira, é um terremoto que transforma terra plana em montanhas magníficas, lagos calmos em grandes mares, faróis humildes em estrelas.

A importância do outro nos assustaria se pudéssemos ver com clareza, mas nossa lucidez está coberta de véus: mesmo assim, interrogamos: quanto de mim restou, quanto de ti sou eu?

A resposta há de ser que somos o outro quase inteiramente, e soa doce aos nossos ouvidos. Naturalmente, se alguém nos ponderasse que é preciso cautela, haveríamos de virar-lhe as costas e rir. E essa é uma das mais privilegiadas condições de ser - apenas e inteiramente - humano.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

Canção a medo

Esse teu silêncio, essa voz
que murmura brevemente
em horas improváveis,
esse castigo de não te alcançar
me assusta:
de que tamanho este iniciante amor
que já me invade tanto, e aonde me leva?

De tal modo
me torna parte de ti
que não sei mais quem sou, que faço,
de que lado me volto para te ver
de longe ao menos, os olhos de promessa
e as mãos que, mal tocando as minhas,
conformam os meus dias.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

quarta-feira, 12 de maio de 2010

DeviantArt_Toinjoints
Toda vez é uma primeira vez. O amado nunca parece um velho conhecido - ainda que seja. A sensação jamais é como as anteriores - mesmo que tenhamos amado muitas vezes.
"Você é diferente de todos, você é a minha chegada" é uma frase que poderia dizer a mais de uma pessoa, com absoluta verdade.

Pois há sempre em cada um de nós um pequeno, sagrado recinto no qual ninguém antes tinha entrado. Há sempre uma parte de nós que guardávamos para uma pessoal especial, um encontro único: e à sua maneira todos os encontros sinceros são únicos.

Por isso mesmo não há fase da vida para amar mais ou menos, com maior ou menor intensidade ou verdade. Sempre reservamos, para um amor, para aquele amor, quando ele chega, um trecho de canção nunca ouvida, um pedaço de praia ainda por conhecer.

Para ele temos delicadezas infinitas, queremos botá-lo no colo, proteger, acarinhar, iluminar, queremos ouvir seu riso, conhecer seus segredos, reviver sua infância, confortar seus medos. Nós agora importamos pouco, porque essa pessoa, amada tanto, domina com sua claridade toda a nossa vida.

Por sermos para nós mesmos surpresa e segredo, somos capazes de amar cada vez como uma primeira vez. Talvez esta seja a única e verdadeira pureza.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

Canção da vez primeira

Caroline Feitosa
Guardei-me para ti como um segredo
que eu mesma não desvendei:
há notas na minha viola
que não toquei,
há praias na minha vida
que não andei.

É preciso que me tomes
além do riso e do olhar
naquilo que não conheço
e adivinhei;
é preciso que me cantes
a canção do que serei
e me cries com teu gesto
que nem sonhei.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

sábado, 8 de maio de 2010

Alone Gut
Quem nos quiser amar agora terá de vir com calma, terá de vir com jeito. Somos um território mais difíicil de invadir, porque levantamos muros, inseguros de nossas forças disfarçamos a fragilidade com altas torres e ares imponentes.
Quem quiser vir agora terá de ter paciência: estamos mais ariscos, a pele é fina demais, qualquer sopro pode abrir feridas no coração.

Fingimos dormir, muitas vezes; outras rimos para que o sentimento não retorne: aquele que nos deixou em êxtase e nos jogou no poço de onde foi duro voltar.

É verdade que guardamos na gaveta cristais transparentes e coloridos, que nos iluminam a cara sempre que espiamos: são as memórias, são os belos momentos, são as palavras que eram verdadeiras quando pronunciadas.

Mesmo assim, não custa dar um aviso, para que ninguém, chegando perto, se machuque por nossa causa: um dia voltamos, um dia conseguimos, um dia alguém nos desperta desse sono falso e dessa fingida distância que nosso olhar, mais vezes do que desejamos, acaba negando.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

Canção como aviso

As minhas emoções estão intactas
como antes de acordar: serenas
nesta solidão, nem sei se esperam.
Será preciso alimentar de novo
a chama adormecida
do amor que armou incêndios na penumbra
e me apagou.

Estou aqui ainda, enriquecida a mais
como as memórias doces da alegria.
Para me alumiar, quem venha agora
terá de compreender o meu receio
de que seja longa só a fantasia
e breve a permanência de quem veio.

LyaLuft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

Canção da mirada secreta

Foram-se os amores que tive
ou me tiveram. Partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
a não acreditar na morte
nem demais na vida: cultivo
segredos num jardim
onde estamos eu, os sonhos idos,
os velhos amores e os seus recados,
e os olhos deles que ainda brilham
como pedras de cor entre as raízes.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim