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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

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Katia Chausheva
[...] eu me sinto esfacelar de instante em instante.

Lúcio Cardoso, in: A Luz no Subsolo. Ed. Brasiliense

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Edward Hopper

Ela amava a solidão - era o seu domínio -, queria estar sozinha para sofrer melhor...

Lúcio Cardoso, in: A Luz no Subsolo. Ed. Expressão e Cultura

sábado, 3 de dezembro de 2011

Perdoe-me:

não ferimos aqueles que nos são indiferentes, mas exatamente os que, por um motivo ou outro, sacodem as fibras mais íntimas do nosso coração.

Lúcio Cardoso, in: Crônica da Casa Assassinada. Ed. Civilização Brasileira

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Depois das palavras de ontem, o silêncio de hoje;

penso no que me sucede. Não, nada se encerra, tudo se transforma, a essência é inalterável, permanece muda no fundo das coisas. Não sei se é melhor assim, mas a tantos golpes repetidos, sinto que me esvaio, que me torno outro, como uma figura nova que aos poucos vai saindo de um mármore lacerado pelo escultor.

Nunca me senti tão perdido, tão vazio, tão inutilizado. Adeus, planos heroicos de reforma. Eu apenas me adapto, covardemente, aos meus males. Mas até quando?

Lúcio Cardoso, in: Diário Completo. Ed. José Olympio

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A impossibilidade de organizar de pronto a minha vida leva-me ao desespero de ontem;

sob um dia cinzento e chuvoso, passei horas e horas inteiramente inúteis, distanciado de qualquer sentimento calmo e sensato. A mesma ronda de bares, o mesmo desperdício de energias, o mesmo sono pesado e sem horizontes para acordar hoje com o coração transido de remorso e um grande sentimento de culpa.

Não, a vida assim não é possível. Há muito compreendi isto, e querer continuar esta ilusão de fuga, é nadar em vão num charco de águas lamacentas. O remédio é a paciência, mas de todas as qualidades que me faltam, esta é sem dúvida a de mais alto coeficiente. Tenho de aprender primeiro a saber o que é a paciência e depois empregá-la com resultados positivos - este é o único meio de levar a cabo o plano que tracei e do qual dependem as únicas coisas que para mim contam nesta vida.

Lúcio Cardoso, in: Diário Completo. Ed. José Olympio

sábado, 20 de agosto de 2011

em 17 de maio 1949

Viver assim não é viver - podemos sofrer da carência de algumas coisas, mas não dos fatores vitais que nos animam. Falta-me tudo, a paz, a inspiração, a vontade de continuar... Alguma coisa está AUSENTE de mim. Sinto, caminhando em ruas cheias de gente e densas de um frenético fervor pela vida, que sou apenas um grande vazio sem motivo.

Para mim, a existência escorre como se eu contemplasse seu espetáculo através de vidraças baixadas.

Lúcio Cardoso, in: Diário Completo. Ed. José Olympio

terça-feira, 9 de agosto de 2011

anotações de Junho - 1949

Tudo o que sentimentos é verdade? Grandes correntes nos atravessam, de ideias contraditórias e sentimentos bizarros - mas que é duradouro, existente e exprime com autenticidade a realidade viva do nosso ser? Ou talvez não sejamos o que é permanente senão por um esforço lúcido da vontade; nossa certeza é, ao contrário do que imaginamos, apenas o que é indeterminado e sem raízes fixas no tempo.

Lúcio Cardoso, in: Diário Completo. Ed. José Olympio

Agosto (Diário de Penedo)

Adoro o campo, e ele me causa certa angústia: o vazio, sua existência e enorme e singular, independente da presença humana. Uma energia arbitrária e azul sacode a terra e ergue as árvores vitoriosas no fundo do horizonte. Ah, como a humanidade me interessa, suas intrigas e suas vozes... Quando, meu Deus, quando poderei suportar de coração leve um alheamento como este?

Lúcio Cardoso, in: Diário Completo. Ed. José Olympio

terça-feira, 2 de agosto de 2011

em 15 de setembro de 1949 - diário I


Sim, é tempo. Se tenho de existir, é pelo esforço da minha atenção. Lúcido e calmo, devo olhar o que se desprende de mim como fragmentos abandonados de uma figura que se esculpe. Agora vejo os meus contornos. Os meus vazios, é o que reconquistei até agora. De ausências é que me formo. Revejo-me no espelho imenso da minha desolação - mas é assim de pedra que me quero.

Lúcio Cardoso, in: Diário Completo. Ed. José Olympio

em 11 de setembro de 1949 - diário I


Sempre o mesmo ponto por onde tudo fracassa - como uma roda dentada que girasse com um defeito no mesmo lugar. Impossível não se romper um dia...

Lúcio Cardoso, in: Diário Completo. Ed. José Olympio

em 26 de agosto de 1949 - diário I

Ah, o amor que não sabe ter calma e não conhece nenhuma espécie de repouso - antes é uma espécie de febre constante e lúcida. Com o correr do tempo transforma-se numa obsessão sem fundo, um estado agudo, delirante - e que é próprio daqueles que conhecem o nada em que se esfumam todos os sentimentos.

Lúcio Cardoso, in: Diário Completo. Ed. José Olympio

sábado, 7 de maio de 2011


[...] Quem não conhece a tristeza não pode saber o que era esse esvaziamento do ser, essa ausência de si mesmo, esse quieto que não significa a paz, mas o sossego de regiões condenadas, e que apesar de tudo ainda não conhecem a morte.

Lúcio Cardoso, in: Crônica da Casa Assassinada. Ed. Civilização Brasileira

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Setowski Bez
Também as cores me levam instantaneamente a mundos imprevistos. Mas são mundos da infância, que vi um dia magicamente e que perdi há muito. Certos tons de rosa, de verdes ou azuis fazem ressurgir em meu pensamento cenas inteiras que há muito já haviam submergido no oceano da memória.

Lúcio Cardoso, in: Diário Completo. Ed. José Olympio
Deviantart

Que é o para sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de sensações também mutáveis?

Lúcio Cardoso, in: Crônica da Casa Assassinada. Ed. Ediouro

sábado, 5 de março de 2011

Que me aconteceu, que aconteceu ao nosso amor?

Amanda Cass
Então não há nada certo, geramos apenas o esquecimento e a distância? As palavras, meu Deus, não significam coisa alguma, não têm poder para selar nenhum juramento? Quem somos nós que assim passamos como espuma, e nada deixamos do que construímos, senão um punhado de cinza e de sombra?

Debato-me, o coração me vem aos lábios: que é válido, que é invulnerável à fúria do tempo, qual o sentimento que não se esgota e não se ultraja?

Lúcio Cardoso, in: Crônica da Casa Assassinada. Ed. Ediouro

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

"A cada milágrimas sai um milagre . . . "


- Mas vamos, enxugue estas lágrimas; que lhe adiantam elas? As lágrimas não têm grande cotação neste mundo; e depois, uma pessoa da sua força não deve chorar nunca.

Lúcio Cardoso, in: Crônica da Casa Assassinada. Ed. Ediouro

No silêncio, a janela aberta voltou a bater; depois a serenidade envolveu todas as coisas.

Lúcio Cardoso, in: A Luz no Subsolo. Ed. Expressão e Cultura

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

"Sabe Madalena, que nunca mais nos veremos? De nada adianta tudo o que sentimos agora. Dentro de um ano... dois anos, tudo estará morto, não seremos mais do que duas desconhecidas". A face molhada de lágrimas desaparecia vagarosamente. Madalena sentia-se assaltada por uma atroz melancolia. Percebia que ela, como todo mundo, não era formada senão pela marca que deixam as pessoas passando em nossa vida. Na sua, todos tinham sido arrastados pela voragem do tempo; ficara a memória a viver a sua existência de farrapos, encarcerando-a para sempre ao sentimento de que nada vale senão pela experiência que fica. Tudo o mais é tolice, é vento que passa, sem deixar mais do que um rastro fugidio [...].

Lúcio Cardoso, in: A Luz no Subsolo. Ed. Expressão e Cultura

sábado, 22 de janeiro de 2011

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Faço quase nada. Comecei a procurar trabalho e começo de novo a me torturar, até que resolvo não fazer programas; então a liberdade resulta em nada e eu faço de novo programas e me revolto contra eles. Tenho lido o que me cai nas mãos. Caiu-me plenamente nas mãos Madame Bovary, que eu reli. Aproveitei a cena da morte para chorar todas as dores que eu tive e as que eu não tive. - Eu nunca tive propriamente o que se chama "ambiente" mas sempre tive alguns amigos.

Clarice Lispector, in: Clarice, de Benjamin Moser / Fragmento da carta para Lúcio Cardoso. Ed. Cosac Naify