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quarta-feira, 12 de junho de 2013

220

Nan Goldin
estou ligada a você por trambiques, contratos
tomadas, pactos, esparadrapos
por chaves, rejuntes, canudos, cabos
pelo sim pelos nãos
estou agarrada a você
como o cabelo à cabeça
como o verbo à gramática

portanto se você falir
se você cantar
ou se quiser riscar o mundo
num fusca caolho
estou com você
a centímetros de explicação
cantando
falindo
na estrada

e se você se perder
juro que tenho um quê de indiana jones
pra te resgatar de uma tribo canibal
e tenho um quê de canibal pra te comer no sofá florido

sujeito indefinido, já já a gente vai
ver o que a vida faz disso
por ora sintonizo tv a cabo pirata
e avisto sentido em estar contigo
agarrada a trambiques, recados
colchão, band-ais, abraços
no fundo de um ap
na superpopulada sp

Juliana Bernardo, in: Vitamina. Ed. Patuá

domingo, 1 de maio de 2011

Correspondência

por favor, não pare de me falar sobre você
nos ligamos — convites anelados
beijos são palavras abertas
eletricidade escapa, cabos se partem
em que parte te encontro?
não confie na memória
ela é um correio lotado de cartas brancas
não suspire
o tempo é corrosivo porque mora nos silêncios
de repente enferruja cartas cabos lábios
enferruja a gente
não é certo não é certo, suspiro
toques me despertam
mãos de prata como bandejas
e debaixo da mesa pernas encontram pernas
vamos arquitetar uma fuga com elas
arquitetar uma ponte e envelhecer sem segredos
temo que seja o fim da ligação
terrível enxaqueca
poupe os anúncios em branco
anúncios são convites malcriados
anoto na passagem: preciso de um mapa
nossa correspondência está aos pedaços
quem leu a última parte?
você sempre faz mapas quando está triste?
é o fim. Não confio na memória.

Juliana Bernardo