desenho de Hilda Hilst
Fui pássaro e onça
Criança e mulher.
Numa tarde de sombras
Fui teu passo.
Hilda Hilst, in: Da morte, Odes mínimas / Da poesia. Ed. Companhia das Letras
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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
IX - da Noite
Alison Scarpulla
Penso linhos e unguentos
Para o coração machucado de Tempo.
Penso bilhas e pátios
Pela comoção de contemplá-los.
(E de te ver ali
À luz da geometria de teus atos)
Penso-te
Pensando-me em agonia. E não estou.
Estou apenas densa
Recolhendo aroma, passo
O refulgente de ti que me restou.
Hilda Hilst, in: Do Desejo. Ed. Pontes
VIII - da Noite
Moon and Sun (by Veledzimovich)
Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
E sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.
Hilda Hilst, in: Do Desejo. Ed. Pontes
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
LXVI
Masao Yamamoto
Nuns atalhos da tarde
Vivendo imensidão
Minha alma disse a mim
Rica de sombras:
Não pertencida.
Exilada dos sóis
Das outras vidas.
Hilda Hilst, in: Cantares. Ed. Globo
Nuns atalhos da tarde
Vivendo imensidão
Minha alma disse a mim
Rica de sombras:
Não pertencida.
Exilada dos sóis
Das outras vidas.
Hilda Hilst, in: Cantares. Ed. Globo
sábado, 6 de outubro de 2012
Delicatessen
Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé de porco". Não entendi. Como? "Adoro pé de porco, pé de boi também". Ahn... interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.
Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou?" "A pauladas", respondeu tranquilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin????? à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E Aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.
(segunda-feira, 1º de março de 1993)
Hilda Hilst, in: Cascos & Carícias & Outras Crônicas. Ed. Globo
terça-feira, 21 de agosto de 2012
O quanto a vida é líquida
Antonio Merini
Atenção: ouvi às quatro da matina, através da Central Brasileira de Notícias (CBN), que, em Rondônia e no Acre, quinhentas mil meninas de doze a catorze anos são vendidas como prostitutas aos garimpeiros. Se forem virgens, valem vinte milhões de cruzeiros reais. O preço das não-virgens não foi dito. Se adoecem, são sem seguidas assassinadas. Fiquei em estado catatônico. Ainda estou. Pausa longa. Segundo os astrólogos, no meu mapa astral há a chamada "trindade da alma", e isso quer dizer que eu recebo no peito, como um soco, as múltiplas dores do mundo. E por isso, de dor e de compaixão, posso em seguidinha morrer. E para morrer "esquecendo", resolvi beber além do que já bebo, e como vou ficar bebendo algum tempo (porque o teor da notícia lá de cima é insuportável e sinistro), esta crônica e mais algumas serão dedicadas às minhas "Alcoólicas", e vocês terão a chance de ler alguns dos mais belos poemas da língua. Boa noite. Aí vão os primeiros três:
I
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.
II
Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
III
Alturas, tiras, subo-as, recorto-as
E pairamos as duas, eu e a Vida
No carmim da borrasca. Embriagadas
Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.
Que estilosa galhofa. Que desempenados
Serafins. Nós duas nos vapores
Lobotômicas líricas, e a gaivagem
se transforma em galarim, e é translúcida
A lama e é extremoso o Nada.
Descasco o dementado cotidiano
E seu rito pastoso de parábolas.
Pacientes, canonisas, muito bem-educadas
Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.
Ah, o todo se dignifica quando a vida é líquida.
I
a Jamil Snege
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.
II
Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
III
Alturas, tiras, subo-as, recorto-as
E pairamos as duas, eu e a Vida
No carmim da borrasca. Embriagadas
Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.
Que estilosa galhofa. Que desempenados
Serafins. Nós duas nos vapores
Lobotômicas líricas, e a gaivagem
se transforma em galarim, e é translúcida
A lama e é extremoso o Nada.
Descasco o dementado cotidiano
E seu rito pastoso de parábolas.
Pacientes, canonisas, muito bem-educadas
Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.
Ah, o todo se dignifica quando a vida é líquida.
(segunda-feira, 21 de junho de 1993)
Hilda Hilst, in: Cascos & Carícias & Outras Crônicas. Ed. Globo
domingo, 5 de agosto de 2012
Tá deitadão, bicho?
Hilda Hilst
Os poetas deviam mais é ficar sempre em silêncio. Porque falar a verdade pode lhes custar a cabeça. A vida. Não foi sempre assim? Jeshua falava por parábolas quando não queria ser imediatamente compreendido. E assim aconteceu aquilo: a cruz. A carnificina.
Era uma vez um gigante, lindo, lindo, que adormeceu no meio da floresta. Então chegou um de língua enrolada e sussurou ao gigante: vossa excelência me permite de lhe ir ao fiofó? O gigante nem ouviu. Tava ali, puxando um ronco. De bruços, naturalmente. O de língua enrolada repetiu: me permite? E foi. Há muito tempo que milhões tão passando por ele. O fiofó do gigante tá assim ó (visualizar através de meditação zen uma circunferência descomunal e dentro o símbolo do infinito: aquele oito deitadão).
Jorge de Lima: "O céu jamais me dê a tentação funesta de adormecer ao léu na lomba da floresta".
Também é estranho isso de homens públicos se demitirem de altos cargos por inconfessáveis razões pessoais. Nós, que somos a caterva, tentamos adivinhar: serão hemorróidas?
A VERDADE É
NECESSÁRIA
DIANTE DO
ABSURDO.
Outra coisa (ou a mesma). Não encham mais o saco dos fumantes atordoando-os com isso de que cigarro mata. Tudo mata, negada. Além de você não poder mais fumar foder beber comer, o que mata mesmo é a mentira, o faz-de-conta, a cara-de-pau, "os cavalinhos correndo" e eles cavalões comendo, trocando trocados atrás das portas (ó grandes vendilhões!), o que mata é sem-vergonhice, coligações de aço, grilhões, esses impossíveis de romper, o cara atrás de você, te seguindo os passos, te cobrando adoidado, bufando atrás de você, a mala vazia na mão esperando pra você encher e você desesperado gritando: não tenho um tostão, me poupe, negão! E o cara esfacelando teus artelhos e você sapateando... e tiraços por todos os lados...
Cadê aqueles caras todos, tão escorreitos, humanistas, estadistas, sociólogos, economistas, aqueles limpos doutores que eu amava? Cadê vocês? Deflorados na serra? Ou era Floradas na serra o nome daquele livro de amor? Cadê vocês, hoje presidente e ministros?
Bom Ukulelê! (Ukulelê é um instrumento de música...)
Hilda Hilst, in: Cascos & Carícias & Outras Crônicas. Ed. Globo
Era uma vez um gigante, lindo, lindo, que adormeceu no meio da floresta. Então chegou um de língua enrolada e sussurou ao gigante: vossa excelência me permite de lhe ir ao fiofó? O gigante nem ouviu. Tava ali, puxando um ronco. De bruços, naturalmente. O de língua enrolada repetiu: me permite? E foi. Há muito tempo que milhões tão passando por ele. O fiofó do gigante tá assim ó (visualizar através de meditação zen uma circunferência descomunal e dentro o símbolo do infinito: aquele oito deitadão).
Jorge de Lima: "O céu jamais me dê a tentação funesta de adormecer ao léu na lomba da floresta".
Também é estranho isso de homens públicos se demitirem de altos cargos por inconfessáveis razões pessoais. Nós, que somos a caterva, tentamos adivinhar: serão hemorróidas?
A VERDADE É
NECESSÁRIA
DIANTE DO
ABSURDO.
Outra coisa (ou a mesma). Não encham mais o saco dos fumantes atordoando-os com isso de que cigarro mata. Tudo mata, negada. Além de você não poder mais fumar foder beber comer, o que mata mesmo é a mentira, o faz-de-conta, a cara-de-pau, "os cavalinhos correndo" e eles cavalões comendo, trocando trocados atrás das portas (ó grandes vendilhões!), o que mata é sem-vergonhice, coligações de aço, grilhões, esses impossíveis de romper, o cara atrás de você, te seguindo os passos, te cobrando adoidado, bufando atrás de você, a mala vazia na mão esperando pra você encher e você desesperado gritando: não tenho um tostão, me poupe, negão! E o cara esfacelando teus artelhos e você sapateando... e tiraços por todos os lados...
Cadê aqueles caras todos, tão escorreitos, humanistas, estadistas, sociólogos, economistas, aqueles limpos doutores que eu amava? Cadê vocês? Deflorados na serra? Ou era Floradas na serra o nome daquele livro de amor? Cadê vocês, hoje presidente e ministros?
Bom Ukulelê! (Ukulelê é um instrumento de música...)
(domingo, 4 de junho de 1995)
Hilda Hilst, in: Cascos & Carícias & Outras Crônicas. Ed. Globo
segunda-feira, 30 de julho de 2012
IV
R de Rien
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De Julho em mim ainda te lembras?
Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes
Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor;
De que me adianta a mim, te dizer mais?
(domingo, 2 de julho de 1995)
Hilda Hilst, in: Dez Chamamentos ao Amigos / Júbilo, memória, noviciado da paixão. Ed. Globo
segunda-feira, 4 de junho de 2012
XXXI
Barbara Cole
Carregando a vida
Descendo as águas.
Passam pesadas
Distantes do poeta e de sua caminhada.
Barcas
Inundadas de afago
Nas águas da meiguice.
O fulgor dos cacos
Ilumina o dorso dos afogados:
Eu soterrada
Em aguaduras escuras de velhice.
Barca é o teu nome.
E passas
Candente, clara
Navegas tua última viagem
Sobre o meu corpo molhado de palavras.
Hilda Hilst, in: Cantares. Ed. Globo
sábado, 4 de fevereiro de 2012
XLVI - para hoje, dia de Hilda
Katia Chausheva
Talvez eu seja
O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina
Que a bem da vida
A carne se fez sombra.
Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis
Coisas mortas.
Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.
Hilda Hilst, in: Cantares. Ed. Globo
O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina
Que a bem da vida
A carne se fez sombra.
Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis
Coisas mortas.
Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.
Hilda Hilst, in: Cantares. Ed. Globo
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
sábado, 6 de agosto de 2011
quinta-feira, 19 de maio de 2011
VIII
Francesca Woodman
O poema não vem.
E quando vem é falho,
impreciso.
Este canto sem nome
é um apelo
aos homens à escuta
e às mulheres.
Há tempos que sua ausência
ronda os caminhos do sono
envolve-se igual à rede
no mistério de minha vida.
Boiavam antes os peixes
à tona do pensamento.
Havia estrelas do mar
no fundo dos castiçais.
Hilda Hilst, in: Baladas. Ed. Globo
impreciso.
Este canto sem nome
é um apelo
aos homens à escuta
e às mulheres.
Há tempos que sua ausência
ronda os caminhos do sono
envolve-se igual à rede
no mistério de minha vida.
Boiavam antes os peixes
à tona do pensamento.
Havia estrelas do mar
no fundo dos castiçais.
Hilda Hilst, in: Baladas. Ed. Globo
domingo, 24 de abril de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
E além da canção incontida/ do teu amor ausente...
Que boca há de roer tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu?
Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?
Quantas vezes dirás: vida, vésper, magma-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes amor
Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer.
Hilda Hilst
segunda-feira, 14 de março de 2011
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
domingo, 7 de novembro de 2010
VI
Margarida Delgado
Três luas percorro a Casa, a minha,
E entre o pátio e a figueira
Converso e passeio com meus cães
E fingindo altivez digo à minha estrela
Essa que é inteira prata, dez mil sóis
Sirius pressaga
Que Ariana pode estar sozinha
Sem Dionísio, sem riqueza ou fama
Porque há dentro dela um sol maior:
Amor que se alimenta de uma chama
Movediça e lunada, mais luzente e alta
Quando tu, Dionísio, não estás.
Hilda Hilst, in: Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão. Ed. Globo
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
III
Lilya Corneli
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência
E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.
A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?
Hilda Hilst, in: Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão. Ed. Globo
II
Lilya Corneli
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu
Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.
Hilda Hilst, in: Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão. Ed. Globo
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