Mostrando postagens com marcador Emílio Moura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Emílio Moura. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Condição humana

Como captar da vida
o que rápido, foge
entre dúvidas? Como
reter o que, mal surge,
já se desfaz: é sombra,
algo vago, já neutro,
réstia pálida, eco
de nada, de ninguém?
Um minuto se esboça,
rútilo se sonha,
ardente se anuncia.
Onde? Quando? Quem sabe?
Sempre se sabe tarde,
sem mais onde, nem quando.

Emílio Moura, in: Itinerário Poético. Ed. Belo Horizonte

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Poema

Assim que eu abrir de novo os meus olhos,
meus pensamentos já não serão mais livres,
e minha alma, vencida, errará novamente pelas
estradas abandonadas.
Neste instante, porém, tudo me aproxima de
mim mesmo.
Há uma solidão imensa aqui dentro. Há janelas
abertas recebendo a noite.
Nunca me pertenci tanto como neste momento.
Nunca te pertenci tanto como neste momento.

Emílio Moura

Três caminhos

Percorri tantos caminhos,
tantos caminhos andei.
O primeiro era de nácar,
de rosa pura o segundo.
O terceiro era de nuvem,
no terceiro te encontrei.
O primeiro já trazia
teu nome brilhando no ar.
Não era nome de terra:
cantava coisas do mar.
Logo senti que o segundo
já era estrada de encantar.
Mas o terceiro, o terceiro
quantas voltas não foi dar!
Deixou meu corpo na terra,
meu coração no alto-mar.
Virou vento, virou bruma,
perdeu-se, rápido, no ar.

Emílio Moura

sábado, 29 de novembro de 2008

Alma estrangulada

Anne Aubrey
Cada um de nós que vai por essa estrada deserta
sente que uma multidão de espíritos vive dentro de si.
Às vezes nos surpreendemos tão diferentes de nós mesmos...

(As sombras na alma pesam tanto, são tão quietas,
como a noite, são tão frias, como o luar).

... tão diferentes, como se, de súbito,
uma multidão de espíritos vivesse dentro de nós.

Emílio Moura, in: Itinerário Poético. Ed. Belo Horizonte

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Canção

Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.

Que tudo o mais é perdido.

Emílio Moura

Tempo

Caem as horas em nós que as impregnamos
do que a mente imagina e a alma arquiteta.
O sonho se transcende, é toda a vida,
toda a vida em si mesma; tão presente,
tão essência de tudo, que o ato de viver
é simples diálogo entre o instante que chega,
puro sopro, e o que dentro de nós é eternidade.

Emílio Moura