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terça-feira, 26 de abril de 2016

IX

via Tumblr
Eu posso confundir os ruídos da rua em frente. Os limites da rua são semelhantes aos desenhos que teu rosto trai. Me parece vago me vestir da tuas palavras, ou te vestir das minhas. Me parece vago eu e tu. Porque estou ardendo pelas terceiras pessoas na multidão e no exagero. Como as salientes visões que a custo separo do meu hálito — ou o personagem vazio que é todas as ausências de personagens. Por mais que sejam visíveis com as primeiras nuvens, esquecem a paz de serem apenas dois signos idênticos e sobem ruínas estreitas, presas abandonadas há muitos anos, restos de temporadas humanas, o súbito vácuo. Precisa se deter sobre largos muros, trincar os dentes numa carne despedaçada. Precisa fingir que passeia por uma praia ao sul de tudo, precisa fingir que se move lepidamente em minhas areias. Teu movimento uniforme para um único ponto no ar. Frente à tua tardia se retraem como num barco como numa lembrança absoluta de fome. Para te exigir tudo, para te rasgar em partes separadas. Para te trucidar as letras, o reverso do que és, tuas direções. Me escapa o poder de redenominá-las pequenas companhias, dois esquecimentos de um destino de ser real, talvez um lapso apenas meu ou teu. Somos e sois apenas figuras, irrecuperavelmente deslocadas de um lugar primordial. Faz menos distância impossível.  Tuas visitas de popa a proa,  imprevisíveis e frequentes como as chegadas a um cais — a um velho cais desprotegido, as amarras rangendo entre as águas e âncoras repousando. Vens entre as tábuas de bordo e a marca do sextante, liquefeita. Me reconheço de parte com teus sonhos ou com este reino onde também teus sonhos principiam. Uma persistência unívoca me faz suster a composição agora mágica dos corpos. Neste cais nada mais me importa mas a partida dos veleiros. Há que guardar à beira das ondas e reouvir os ruídos da rua em frente, como que para apanhar entre os dedos a bobagem desta noite.

Ana Cristina Cesar, in: Poética. Ed. Companhia das Letras

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

fevereiro

Arianna Vairo
Quando desisto é que surges
Quando ruges é que caio.
Quando desmaio é que corres
Quando te moves me acho
Quando calo me curas
E se te misturo me perco
(assobia!)

4.2.69

Ana Cristina Cesar, in: Inéditos e Dispersos / Poética. Ed. Companhia das Letras

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Pour mémoire

Não me toques
nesta lembrança.
Não perguntes a respeito
que viro mãe-leoa
ou pedra-lage lívida
ereta
na grama
muito bem-feita.
Estas são as fazes da minha fúria.
Sob a janela molhada
passam guarda-chuvas
na horizontal,
como em Cherbourg,
mas não era este
o nome.
Saudade em pedaços,
estação de vidro.
Água
As cartas
não mentem jamais:
virá ver-te outra vez
um homem de outro continente.
Não me toques,
foi minha cortante resposta
sem palavras
que se digam
dentro do ouvido
num murmúrio.
E mais não quer saber
a outra, que sou eu,
do espelho em frente.
Ela instrui:
deixa a saudade em repouso
(em estação de águas)
tomando conta
desse objeto claro
e sem nome.

Ana Cristina Cesar, in: A Teus Pés. Ed. Ática

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

para sempre, Ana C.

Hope Gangloff
Eu também, não resisto. Dans mon île, vendo a barca e as gaivotinhas passarem. Sua resposta vem de barca e passa por aqui, muito rara.
Quando tenho insônia me lembro sempre de uma gaffe e de um anúncio do museu: “to see all these works together is an experience not to be missed”. E eu nem nada. Fiz misérias nos caminhos do conhecer. Mas hoje estou doente de tanta estupidez porque espero ardentemente que alguma coisa... divina aconteça. F for fake. Os horóscopos também erram.

Me escreve mais, manda um postal do azul (eu não me espanto).
O lugar do passado? Na próxima te digo quem são os 3, mas os outros grandes... eu resisto.
Não fica aborrecida: beijo político nos lábios de cada amor que tenho.

Ana Cristina Cesar, in: A Teus Pés. Ed. Ática

segunda-feira, 25 de junho de 2012

ana c. me supre

Delilah Woolf
"abri curiosa o céu"
"uma lâmpada queimada me contempla"

"muda feito uma coisa última"
"demito o verso como quem acena"

"é outra
a dor que dói"

Líria Porto

sábado, 9 de junho de 2012

SIMULACRO DE UMA SOLIDÃO

Nan Goldin
8 de julho

Nós estamos em plena decadência. Eu e você estamos em plena decadência. A nossa relação está em plena decadência. Quando duas pessoas chegam a se dizer isso tranquilamente, é sinal de terra á vista. Nem tudo é um naufrágio na vida. Mas um dia eu ainda me afogo no álcool.

Ana Cristina Cesar, in: 26 Poetas Hoje. Org. Heloísa Buarque Hollanda. Ed. Aeroplano

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Nada disfarça o apuro do amor.

9 Canções
Um carro em ré. Memória da água em movimento. Beijo.
Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao
céu.
Aguço o ouvido.
Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar
clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.
Sirgar.
Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que
nunca ouvi, pássaros que gemem.

Ana Cristina Cesar

segunda-feira, 26 de março de 2012

Segunda história rápida sobre a felicidade –
descendo a colina ao escurecer – meu amor ficou
longe, com seu ar de não ter dúvida, e dizia: meus
pais... – não posso mais duvidar dos meus
passinhos, neste sítio – você agora fala até mais
baixo, delicada que eu reparo mais que os outros
depois de um tempo fora – é como voltar e achar as
crianças crescidas, e sentar na varanda para trocar
pensamentos e memórias de um tempo que passou –
mas quando eu fui (aquele dia no aeroporto) ainda
havia ares de mistério – agora, é agora, descendo
esta colina, sem nenhum, que eu conto então do
amor distante, e não imito a minha nostalgia, mas a
delicadeza, a sua, assim feliz.

Ana Cristina Cesar, in: A Teus Pés. Ed. Brasiliense

Fico quieta,

Few of Us
Não escrevo mais. Estou desenhando numa vila que não me pertence.
Nao penso na partida. Meus garranchos são hoje e se acabaram.
"Como todo mundo, comecei a fotografar as pessoas à minha volta, nas cadeiras de varanda."
Perdi um trem. Não consigo contar a história completa. Você mandou perguntar detalhes (eu ainda acho que a pergunta era daquelas cansadas de fim de noite, era eu que estava longe) mas não falo, não porque a minha boca esteja dura. Nem a ironia nem o fogo cruzado.

Ana Cristina Cesar, in: Edição Inglesa de 1980

sábado, 26 de novembro de 2011

SIMULACRO DE UMA SOLIDÃO

Katia Chausheva

5 de agosto

Ainda não consegui fazer filosofia, versos, ou colar retratos aqui.

Ana Cristina Cesar, in: 26 Poetas Hoje. Org. Heloísa Buarque Hollanda. Ed. Aeroplano

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O tempo fecha. Sou fiel aos acontecimentos biográficos. Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos que não largam! Minhas saudades ensurdecidas por cigarras!

O que faço aqui no campo declamando aos metros versos longos e sentidos? Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida: agora sou profissional.

Ana Cristina Cesar, in: A Teus Pés. Ed. Brasiliense

domingo, 2 de outubro de 2011

Carta de Paris

I

Eu penso em você, minha filha. Aqui lágrimas fracas, dores mínimas, chuvas outonais apenas esboçando a majestade de um choro de viúva, águas mentirosas fecundando campos de melancolia, tudo isso de repente iluminou minha memória quando cruzei a ponte sobre o Sena. A velha Paris já terminou. As cidades mudam mas meu coração está perdido, e é apenas em delírio que vejo campos de batalha, museus abandonados, barricadas, avenida ocupada por bandeiras, muros com a palavra, palavras de ordem desgarradas; apenas em delírio vejo

Anaïs de capa negra bebendo como Henry no café, Jean à la garçonne cruzando com Jean Paul nos Elysées, Gene dançando à meia luz com Leslie fazendo de francesa, e Charles que flana e desespera e volta para casa com frio da manhã e pensa na Força de trabalho que desperta,

na fuga da gaiola, na sede no deserto, na dor que toma conta, lama dura, pó, poeira, calor inesperado na cidade, garganta ressecada,

talvez bichos que falam, ou exilados com sede que num instante esquecem que esqueceram e escapam do mito estranho e fatal da terra amada, onde há tempestades, e olham de viés

o céu gelado, e passam sem reproches, ainda sem poderem dizer que voltar é impreciso, desejo inacabado, ficar, deixar, cruzar a ponte sobre o rio.

II

Paris muda! mas minha melancolia não se move. Beaubourg, Forum des Halles, metrô profundo, ponte impossível sobre o rio, tudo vira alegoria: minha paixão pesa como pedra.

Diante da catedral vazia a dor de sempre me alimenta. Penso no meu Charles, com seus gestos loucos e nos profissionais do não retorno, que desejam Paris sublime para sempre, sem trégua, e penso em você,

minha filha viúva para sempre, prostituta, travesti, bagagem do disk jockey que te acorda no meio da manhã, e não paga adiantado, e desperta teus sonhos de noiva protegida, e penso em você,

amante sedutora, mãe de todos nós perdidos em Paris, atravessando pontes, espalhando o medo de voltar para as luzes trêmulas dos trópicos, o fim dos sonhos deste exílio, as aves que aqui gorjeiam, e penso enfim, do nevoeiro,

em alguém que perdeu o jogo para sempre, e para sempre procura as tetas da Dor que amamenta a nossa fome e embala a orfandade esquecida nesta ilha, neste parque

onde me perco e me exilo na memória; e penso em Paris que enfim me rende, na bandeira branca desfraldada, navegantes esquecidos numa balsa, cativos, vencidos, afogados... e em outros mais ainda!

Ana Cristina Cesar, in: Inéditos e Dispersos. Ed. Ática

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Vacilo da vocação

Ismael Nery
Precisaria trabalhar – afundar –
- como você – saudades loucas –
nesta arte – ininterrupta –
de pintar –
A poesia não – telegráfica – ocasional –
me deixa sola – solta
à merce do impossível –
- do real.

Ana Cristina Cesar, in: A Teus Pés. Ed. Brasiliense

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Escrever cartas é mais misterioso do que se pensa.

Ana Cristina Cesar, in: Crítica e Tradução. Ed. Ática

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Não é teu corpo.
É a possibilidade da sombra.

Ana Cristina Cesar, in: Antologia 100 Anos de Poesia. Ed. O Verso Edições

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ana Cristina Cesar
[...] Ela viveu a radicalidade da fusão arte-vida no mesmo nível em que a viveram Hélio Oiticica, Torquato Neto, apenas foi mais discreta, mais "low profile", atuando na área de convivência humana difícil e acanhada que é a literatura, garota até certo ponto comum, aluna aplicada, professora responsável, loucura em fogo brando, mas persistente, escondida pelas lentes enganadoras de uma lucidez que de tão aguda dóia, nela e em quem dela se aproximasse. Louco giroscópio da lucidez. Te acalma, minha loucura!, assim diz o verso de Mário que ela utilizou num poema. Loucura, pássaro que alimentamos com carinho para suportar a melancolia e vencer o tédio infinito. Pão cotidiano. O problema é aprender a contorná-la, domesticá-la [...].

Italo Moriconi, in: Ana Cristina Cesar - O Sangue da Poeta. Ed. Relume Dumará

sábado, 20 de junho de 2009

Ana Cristina Cesar
[...] Ana circulou muito, era animal metropolitana. A solidão inextirpável, incurável, que assola de dor e delícia o poeta-escritor na modernidade, nela convivia com a inquietação dos frequentes deslocamentos urbanos, com a busca incessante de inserção em redes de contato humano.
Seu corpo navegava a bordo de carros, trens, aviões, lotações, e ia deixando senhas, rastros pelo caminho, papéis...

Italo Moriconi, in: Ana Cristina Cesar - O Sangue da Poeta. Ed. Relume Dumará

sábado, 4 de outubro de 2008

Olho muito tempo o corpo de um poema

Vânia Medeiros
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas.

Ana Cristina Cesar, in: A Teus Pés. Ed. Brasiliense