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terça-feira, 27 de outubro de 2020

varal

Felipe Barceló

Suas camisetas
colorem
o vento

*

Seus jeans
atualizam
a paisagem

*

Sua camisa branca
rendida
com
ao fundo
a noite
ampla

Ana Martins Marques, in: Da arte das armadilhas. Ed. Companhia das Letras

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Poemas reunidos













Sempre gostei dos livros
chamados poemas reunidos
pela ideia de festa ou de quermesse
como se os poemas se encontrassem
como parentes distantes
um pouco entediados
em volta de uma mesa
como ex-colegas de colégio
como amigas antigas para jogar cartas
como combatentes
numa arena
galos de briga
cavalos de corrida ou
boxeadores num ringue
como ministros de estado
numa cúpula
ou escolares em excursão
como amantes secretos
num quarto de hotel
às seis da tarde
enquanto sem alegria apagam-se as flores do papel de parede

Ana Martins Marques, in: O livro das semelhanças. Ed. Companhia das Letras

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

CARTOGRAFIAS














Viajo olhando pela janela do ônibus
em busca das linhas vermelhas das fronteiras
ou dos nomes luminosos das cidades
pairando sobre elas
como nos mapas
neles não ventava nem chovia
e nunca era noite
e eu passava horas estudando
todos os caminhos que me levariam até você
mas nos mapas eu nunca te encontrava
chego em duas ou três horas
o coração no peito como um pão
ainda quente na mochila
talvez você me espere na rodoviária
talvez eu te veja ainda antes de descer do ônibus
assim que descer vou entregar nas suas mãos
emboladas num novelo
as linhas desfeitas das fronteiras e
como as contas luminosas de um colar
cada um dos nomes das cidades

Ana Martins Marques, in: O livro das semelhanças. Ed. Companhia das Letras

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Caçada

Helena Almeida

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se.

Ana Martins Marques, in: Da arte das armadilhas. Ed. Companhia das Letras