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terça-feira, 21 de junho de 2016

Poema

Floris Neususs, 1971.
Saber de cor o silêncio
diamante e/ou espelho
o silêncio além
do branco.

Saber seu peso
seu signo
— habitar sua estrela
impiedosa

Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.

Saber de cor o silêncio

— e profaná-lo, dissolvê-lo
em palavras

Orides Fontela, in: Alba (1983) / Poesia Reunida. Ed. Cosac Naify

domingo, 22 de novembro de 2015

TATO

Mãos tateiam
palavras
tecido
de formas.

Tato no escuro das palavras
mãos capturando o fato
texto e textura: afinal
matéria.

Orides Fontela, in: Transposição (1969) / Poesia Reunida. Ed. Cosac Naify

MÃOS

Berenice Abbott

Com as mãos nuas
lavrar o campo:

as mãos se ferindo
nos seres, arestas
da subjacente unidade

as mãos desenterrando
luzesfragmento
do anterior espelho

Com as mãos nuas
lavrar o campo:

desnudar a estrela essencial
sem ter piedade do sangue.

Orides Fontela, in: Transposição (1969) / Poesia Reunida. Ed. Cosac Naify

domingo, 11 de outubro de 2015

POEMETOS

Andre Kertesz

a) manhã
Ninguém ainda. As rosas me saúdam
e eu saúdo o silêncio
das rosas.

b) ausência
Aqui ninguém
e nuvens.

c) ave
Asas suspensas em
instanteluz.

d) lua
Integralidade.
Fixidez.

e) Narciso
A flor a água a face
a flor a água
a flor.

f) primavera
Da não-espera
acontecem as
flores.

g) lago
Tensão
fria
da água: paz - em - ser.

h) espera
As janelas abertas.
A porta apenas encostada...

i) vaso
mas incomunicante.

j) fim
A ausência das rosas. O caminho
já sem ninguém, para o silêncio.

Orides Fontela, in: Helianto (1973) / Poesia Reunida. Ed. Cosac Naify


quarta-feira, 26 de março de 2014

Noite

Esconder (esquecer)
a face

soterrar (ocultar)
a luz

escurecer o
amor
dormir.

Aguardar o que nasce.

Orides Fontela, in: Teia. Ed. Geração Editorial

terça-feira, 25 de março de 2014

Nunc

by Isobel
Meio-dia cristal
ácido

meio-dia amor
sem sombra.

Orides Fontela, in: Teia. Ed. Geração Editorial

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Noturnos

Zdzisław Beksiński
I

Ultrapassar a
face: negro
amor
consteladamente
vivo.

II

Acolher o
vazio. Dissolver-se.
Refugiar-se no abismo.

III

E anulado
o espelho: eis
o infinito.

Orides Fontela, in: Teia. Ed. Geração Editorial

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Fala

Hugues Erre
Falo de agrestes
pássaros de sóis
que não se apagam
de inamovíveis
pedras

de sangue
vivo de estrelas
que não cessam.

Falo do que impede
o sono.

Orides Fontela, in: Teia. Ed. Geração Editorial

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Mão única

Sara Johanna Vilbergsdottir

– é proibido
voltar atrás
e chorar.

Orides Fontela, in: Teia. Ed. Geração Editorial

domingo, 27 de outubro de 2013

As sereias

Margarita Georgiadis
Atraídas e traídas
atraímos e traímos

Nossa tarefa: fecundar
atraindo
nossa tarefa: ultrapassar
traindo
o acontecer puro
que nos vive

Nosso crime: a palavra.
Nossa função: seduzir mundos.

Deixando a água original
cantamos
sufocando o espelho
do silêncio

Orides Fontela, in: Trevo, 1969-1988. São Paulo: Duas Cidades

Ode III

Il Deserto Rosso
Pouco é viver
mas pesa
como todo o ser
como toda a luz
como a concentração do tempo.

Orides Fontela, in: Transposição (1969) / Poesia Reunida. Ed. Cosac Naify

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Viagem

Helga Aichinger
Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.

Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.

Orides Fontela

sábado, 20 de novembro de 2010

A estrela da tarde

Agatha Katzensprung
A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume

A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima

Depois da estrela da tarde
só há:
o silêncio.

Orides Fontela

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Fala

Guermante
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será.
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade).

Orides Fontela