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terça-feira, 30 de maio de 2023

Insônia

                                                                                A José Carlos Audíface de Brito

Quero escrever um poema irritado.
Quero vingar meu sono dividido
(busco palavras que interroguem essa alquimia
do poema, que vire a noite em fogo vário
e a lua em pegada escondida atrás do muro
— vagaroso desmoronar de extinto voo).
Quero um poema ainda não pensado,
que inquiete as marés de silêncio da palavra
ainda não escrita nem pronunciada,
que vergue o ferruginoso canto do oceano
e reviva a ruína que são as poças d’água.
Quero um poema para vingar minha insônia.

Rio de Janeiro, março de 1950

Olga Savary, in:  Coração subterrâneo. Ed. Todavia

sábado, 29 de janeiro de 2022

Abstrata

The Lobster (2015) Yorgos Lanthimos














A Carlos Drummond de Andrade 

Há horas não sou — e me pressinto
no que não sou e me visito
no relógio, no vazio do tempo
onde, irmãos na solidão,
a confidência teceu um elo
invisível a nos unir.
E me pergunto se me começo a ver no escuro
que não o desta casa mas de outra
— geografia vedada a um mesmo uso.

E penso no que serei agora:
passeio de quartos da casa que não sei,
fantasma.

Rio de Janeiro, setembro de 1955

Olga Savary, in: Coração subterrâneo. Ed. Todavia

domingo, 29 de julho de 2012

Água água

Barbara Cole
Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?

Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta.

Olga Savary

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Tranquilidade na tarde

Barbara Cole
A Liene T. Eiten

Ah, derramar-me líquida sobre o mar
– ser onda indefinidamente –
esperar pela primeira estrela
e dela ser apenas
espelho.

Olga Savary

Quero apenas

The Edge of Love
Além de mim, quero apenas
essa tranqüilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.

Além de mim
– e entre mim e meu deserto –
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto do meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.

Olga Savary

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ycatu*

Vânia Medeiros
E assim vou
com a fremente mão do mar em minhas coxas.
Minha paixão? Uma armadilha de água,
rápida como peixes,
lenta como medusas,
muda como ostras.

*Do tupi: água boa

Olga Savary, in: Os Cem Melhoras Poemas Brasileiros do Século. Org. Italo Moriconi. Ed. Objetiva