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quarta-feira, 6 de junho de 2012

solilóquio

antes que anoiteça, e já anoiteceu, busco reencontrar-me com as palavras. inútil. partiram. todas. um riso baixo ecoa da janela. abro-a. e lá estão elas, as minhas palavras, escondidas no canteiro de hortênsias cor-de-rosa, zombando da minha aflição. se acaso se escondessem por entre as hortênsias azuis, seria menor a minha sensação de abandono e solidão?

Márcia Maia

terça-feira, 5 de junho de 2012

Trapo

Deviantart
Há uma ausência por trás do azul quase indecente dessa tarde. Uma ausência pulsando em mim. Que se estende pela casa e faz do telefone mudo, morada e reduto. E da sexta, qualquer vã e vazia segunda, terça, quarta-feira. E tu, nascedouro de amores e ausências que tens sido, percebes o quanto só me sei e sinto? Alguma vez te soubeste assim? Acaso ainda sabes de nós? De mim?

Márcia Maia

sexta-feira, 11 de maio de 2012

quase um poema de abril


o cheiro de terra molhada
desata as trancas da memória

a noite entorna-se

Márcia Maia

terça-feira, 24 de abril de 2012

21 gramas

21 Gramas
pudesse talvez um legista
dissecar-me os 21 gramas
perdidos à hora da morte
e que se crê sejam a alma
encontraria 20 gramas de vazio
um de descrença e absolutamente
nenhuma calma tampouco alma

Márcia Maia

segunda-feira, 16 de abril de 2012

concerto breve

Amanda Cass
aos poucos
passo da manhã
à noite
da esfuziante claridade
que entontece
à plácida penumbra azulada
do anoitecer

e me acalmo
e me sonho
uma paz de água rasa
em contínuo movimento
mansas marés
escoando sobre mim
antes que amanheça.

Márcia Maia

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

versos de circunstância

Elena Odriozola
olha pelo caminho quem vem
repete ene vezes
no ipê um passarinho ao me
acordar
e porque o dia nasce o dia
passa o dia morre a noite
nasce a noite corre
e ninguém vem
noite alta um outro mente
amanhã eu vou
amanhã eu vou
amanhã eu vou

Márcia Maia

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

(...)

o ano novo
derrama-se na sala

e instala-se à vontade
como um velho conhecido

Márcia Maia

terça-feira, 13 de setembro de 2011

quase-cenário

calcinha sobre a mesa
roupas e sapatos espalhados pelo chão

nada a ver com noites de amor e orgia

só uma tola tentativa de trapacear a vida
de enganar a solidão.

Márcia Maia

sábado, 30 de julho de 2011

filigrana

cavo
assim meu peito
grave
assim meu pranto
tosco
assim meu verso
turvo
assim meu sentir
mudo

: sempre.

Márcia Maia

sábado, 23 de julho de 2011

versos de circunstância

Alaya Gadeh
dei de amanhecer com as mãos
repletas de espinhos
floridos

e os olhos ardidos de auroras
vazios de palavras
vazias.

Márcia Maia

terça-feira, 19 de julho de 2011

miragem

Lilya Corneli
não hás de ter-te em mim
mais que o deserto
areias brancas longuíssimas
plenas em vento
faltas em mar

(e eu que sou de mar?)

: ardentes belas silencio
sas e irreais.

Márcia Maia

terça-feira, 17 de maio de 2011

Dois menos um, às vezes, é igual a quase nada

Silêncio absoluto. Sem telefonemas, cartas ou mensagens no computador. Nada. Nem respostas. Tanto tempo. Misto de receio e dor crescendo no peito. Ameaçando o amor. Amor? Não é amor o que se sente. Mas é parente.

Márcia Maia

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Da inutilidade da palavra

Voltou-se ainda uma vez. Mas ele já desaparecera na multidão. Aquela hora, a estação estava sempre superlotada. Gente apressada. Perdida entre as pequenas mazelas do dia-a-dia e os sonhos desfeitos. Retribuindo cuidado e carinho com ironia. Quando não com agressão.

Decidiu ser melhor emudecer. E nunca mais se ouviu a sua voz.

Márcia Maia

quarta-feira, 2 de março de 2011

comme d'habitude

e porque o amor bateu-me
à porta e sem pedir
se instalou de mansinho em
minha cama
tratei de me despir
me desarmar desesculpir
(
não sem alguma hesitação
)
mas vez que o amor tem por
hábito ser efêmero
guardei cada pedaço da
armadura
em caso de ser necessária
a sua reutilização.

Márcia Maia

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

tear

não que seja a madrugada
preâmbulo do dia

tampouco réquiem ou epitáfio
de amor inacabado

mas um tempo que se arrasta
como se caminhassem
os ponteiros
ao avesso

não que sejas a razão da
minha insônia
ou que palpite o coração
ensandecido
à qualquer tênue recordação
de ti

(tenho-as tantas)

apenas fazes-me falta

e entornas essa tua ausência
imensamente calma

entre a cama e a janela
sobre o poema

onde desfio fio a fio a madrugada.

Márcia Maia

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

coisas do sentir


o que os olhos não veem
o coração não sente
(
o problema é o cheiro...
)

Márcia Maia

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

persuasão

Guermante
as palavras me amanhecem
estrangeiras

sobre a cama escondidas
nos lençóis

e me amarram e me vendam
e me amordaçam

traiçoeiras

para que eu nunca mais ouse
escrever versos a ti.

Márcia Maia

sábado, 20 de novembro de 2010

brevidade

as palavras se perdem
na pressa dos telefones sem fio

a vida tricota a vida em fios de
não-ditas palavras

e a morte esgarça esses fios.

Márcia Maia

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Muito além do calendário


O que foi não é mais que aquarela desbotada na parede da alma. Vez em quando encanta. Vez em quando dói. Na maior parte do tempo, entretanto, é um imenso e etéreo quase nada.

Márcia Maia

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

ao largo - o coração

à luz do sol que nascia
àquele barco entreguei

meu coração

para que em alto-mar
o depusesse

depois muito depois
tu me disseste

não ama o coração que
o peixe rói

nem dói serenamente
respondi

nunca mais nos falamos
depois daquele dia

nunca mais dor de amor
eu padeci.

Márcia Maia