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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Jesus e a Música das Esferas, um conto de Sammis Reachers


Jesus e a Música das Esferas

      Éramos apenas eu, João e André, com Ele na face norte do monte Shir, defronte ao mar da Galileia. Os demais companheiros permaneceram em Tiberíades, em casa de Zebulom, colaborador judeu egresso do Ponto.
    Sobre o pico do monte, sendo fustigados por fortes ventos, Jesus convidou-nos a sentar. A seguir, abrindo o seu alforje, retirou uma flauta. De minha parte jamais a vira; quedei, como os demais, em abnegado e atônito silêncio. Levou o Rabi a flauta à boca; antes do toque entre lábio e madeira, julguei ter visto um sutil sorriso, que Ele só liberava quando prestes a externar esplendor.
    Quando a música, robusta, estabeleceu-se pelo ar, o ventou apertou. O mar lá embaixo encrespou-se, ondas passaram a estrugir contra as rochas, levantando uma fresca nuvem de gotículas que sobrescalavam até o alto da montanha, borrifando nossas faces. Permanecíamos sentados, enquanto Deus-andarilho tocava sua flauta.
    Houve um hiato na melodia; mas breve o Senhor retomou a música, agora suave e terna. O mar como que silenciou, enquanto multidões de aves marinhas passaram a sobrevoar o mirante em que estávamos, realizando sua marcha perfeita, como as Legiões de César. Absortos, éramos enlevados por seu baile, e curados pela música.
    André sorria maravilhado, tornado à infância pelo deslumbre. João conservava a expressão grave, o susto seco de quem faceara o abismo e a impossibilidade. Aproximou-se ainda mais do Senhor, como sempre fazia em momentos como este. Quando Ele novamente pausou a música, perguntou-lhe:
    — Mestre, é maravilhosa a melodia, e jamais ouvimos nada assim. Sequer já o vimos tocar; por que nos ocultou tal cousa? O Senhor poderia tocá-la para que os demais discípulos, ou mesmo todas as pessoas a ouçam? Dariam nisso mais glórias a Deus!
     O Mestre, que por João nutria perfeita ternura, sorriu.
    — Todo aquele que quiser pode ouvi-la, João; desde que criei esta Terra, a melodia jamais cessou de tocar. Ela respira quando tu respiras, e firma o chão sob teus pés, quando caminhas; ela dá crescimento às plantas e move as esferas. A tudo une e anima; leva a traz minhas ordenanças. Ela é minha Palavra criadora ininterrupta, que existe e subsiste em forma de música. Quando é preciso, como agora, ela recrudesce à forma de palavra de homem, assim como eu próprio esvaziei-me até a forma de filho do homem. Aguce teus ouvidos, ó menor de meus irmãos: Não pode ouvi-la?
   João silenciou, sustentando seu olhar de assombro, agora o dirigindo, inquiridor, para a paisagem.
    — E você, Mateus, pode ouvi-la?
    Deitei-me sobre a rocha; fechei os olhos, como quem se estende sobre a fruição, o devir. Não sentia, como João ou como quem é ferido por um aguilhão, tolhido por cadeias, necessidade de racionalizar. Aleijado na humildade de minha condição de pó, nada respondi ao Mestre - mas num repente o silêncio atmosférico, o próprio silêncio cósmico pareceu ganhar cores em meus ouvidos, numa vibração surda que ia preenchendo dimensões que eu sequer intuíra existir, e como que a tudo completava, ligando, ponto a ponto, a todas as coisas.
    Cerrando com ainda mais força os olhos inundados, sorri.


Nota ao leitor desavisado: Caro leitor, claro está que a situação aqui relatada jamais aconteceu, sendo uma perfeita ficção. Tão ficção que o palco onde transcorre a ação, um monte Shir (do hebraico, música), jamais existiu.

Sammis Reachers

sábado, 17 de setembro de 2011

Louvar a Deus é uma atitude do coração



É comum observar que alguns que muito tem, com abundância e mais do que precisam, por vezes permanecem em contínuo murmúrio pelo que julgam ainda lhes faltar. Nada lhes é suficiente. Outros, mesmo tendo pouquíssimo, o pouco que tem lhes basta para encher o coração de louvor e agradecimento a Deus.

Isto nos leva a uma percepção bíblica de que o louvor não é definido pelas circunstâncias da vida, mas pela atitude do coração.

O Salmo 34 é um convite ao louvor e à maturidade espiritual. Nele o salmista manifesta o seu compromisso de louvar ao Senhor em “todo o tempo”(v.1).

Louvar ao Senhor ao ganhar o que se desejou, ao ter o pedido atendido ou ao ser surpreendido por uma ótima notícia não exige nada especial do nosso coração. A proposta bíblica, porém, é bem mais ampla: é louvar a Deus em “todo o tempo”, no dia bom e também no dia mau, em plena saúde e nos dias de enfermidade, quando aplaudido ou quando criticado, ao receber uma resposta positiva do Senhor ou quando Ele nos fecha um caminho que desejávamos seguir.

Louvar a Deus em “todo o tempo” implica em reconhecer que todos os planos do Senhor são planos de amor. Que, de fato, todas as coisas cooperam, de alguma forma que pouco compreendemos, para o bem dos que sinceramente amam a Deus, e isto nos basta. Louvar a Deus em “todo o tempo” implica também em reconhecer que as circunstâncias da vida, mesmo as mais difíceis, possuem algum motivo de louvor.

Neste salmo não encontramos um cenário de perfeição que nos leva ao louvor, mas um louvor que é proferido na realidade da vida que possui seus desafios realistas e constantes. Os versos 4, 5 e 6 nos falam sobre temores, angústias e prisões. O verso 8 nos leva, entretanto, ao reconhecimento de que além das cores que pintam o presente cenário da nossa vida, Ele é bom. Somos conduzidos não apenas a compreender a Sua bondade, mas a experimentá-la: “provai e vede que o Senhor é bom”! Deus não é apresentado como aquele que realiza atos de bondade, mas como aquele que é bom em sua essência. É da natureza de Deus ser bom.

Alguns passam por angústias e tornam-se murmuradores. Outros passam por angústias e reconhecem a bondade do Senhor. A diferença está na atitude do coração.

O louvor a Deus combate também a ansiedade da alma.Depressões, ansiedades, fobias e temores são as enfermidades do nosso século. Jamais tantos medicamentos foram produzidos e consumidos para estes problemas emocionais como hoje. Neste salmo vemos que, ao lidar com o louvor, pacificamos também nossos corações. No verso 1 ele nos fala sobre a alegria, no 2 sobre a libertação de nossos temores e no 5 da libertação das nossas angústias. Louvar a Deus alegra o coração do Pai e também pacifica a nossa alma, uma vez que reconheço que minha vida está nas mãos daquele que, em todas as coisas, é bom.

Em 1873 um navio francês, o Ville de Havre, seguia da costa leste americana para a Europa. Entre os passageiros encontravam-se a senhora Spafford e seus quatro filhos, esposa de um cristão piedoso, jovem advogado de Chicago. Nesta viagem o navio sofre um acidente e vem a naufragar, morrendo quase todos os tripulantes. Dias de desespero se seguem com a ausência de notícias para as famílias dos desaparecidos em alto mar. Finalmente o senhor Spafford recebe um telegrama comunicando que sua esposa foi encontrada ainda com vida, mas estava só. A mensagem sobre a perda de seus quatro filhos lhe aflige a alma. Ele chora e lamenta. Depois senta-se e escreve a letra de um hino que se tornaria conhecido em todo o mundo: “It is well with my soul” (Está bem a minha alma), conhecido como “Sou feliz com Jesus”. Nele ele diz:

Se paz a mais doce me deres gozar
se dor a mais forte sofrer
Oh, seja o que for, Tu me fazes saber
Que feliz com Jesus sempre sou

O louvor a Deus não é definido pelos marcadores da nossa história,mas sim pela bondade do Senhor que vai além das linhas do horizonte do entendimento da vida. Louvar a Deus é reconhecer que a Sua bondade será sempre maior do que qualquer tragédia que possa se abater sobre nossa existência. É cantar a Sua bondade nos dias de luz e alegria, e não deixar de fazê-lo nos dias de neblina forte e cores cinzas. Sua bondade é maior que a vida.

Um dia, em luz plena e eterna, cantaremos a Sua bondade, em “todo o tempo”. Não precisaremos de fatos da vida para fazê-lo. A Sua presença nos bastará.