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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Mein Kampf e o Gueto de Varsóvia

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Mapa do Gueto de Varsóvia.

Por João Cruzué 

Antes de traduzir esta matéria, quero deixar alguns comentários. Uma de minhas visitas prediletas depois do meu almoço, é nas Lojas Americanas, com entrada pela Rua José Bonifácio, Centro de São Paulo. Na sobreloja há um espaço com uma infinidade de livros e títulos de DVD's  que estão à venda. Em uma dessas incursões, deparei-me com o filme: "Mein Kampf". A princípio, pensei que se tratasse de um filme baseado no livro escrito por Hitler - o mandante do assassinato de seis milhões de judeu, além de ciganos e russos. Eu estava disposto a descobrir como um austríaco pode dominar  as consciências de milhões de alemães, lavando-lhes a  mente, ao ponto de uma obediência absoluta.

Quando vi o filme, entendi que não se tratava do livro de Hitler, mas da reunião de vários documentários gravados por nazistas, que foram parar em mãos de judeus. O que mais me sensibilizou durante o filme foi a abordagem do Gueto de Varsóvia, um lugar onde 450 mil judeus foram amontoados para morrer de peste e fome.  Fui direto à fonte,  no portal do Museu do Shoah, para buscar o material de tradução. Uma coisa me tocou profundamente neste episódio: A vontade soberana de Deus no cumprimento do que está escrito no Salmo 66;10: "Pois tu, o Deus, nos provastes; tu nos afinaste como se afina a prata." 


O GUETO DE VARSÓVIA

Crédito: yadvashem.org

Tradução de João Cruzué

Em Varsóvia,  Capital da Polônia, os nazistas estabeleceram o maior gueto de toda da Europa, [durante a segunda guerra mundial]. Cerca de 375,000 judeus viviam em Varsóvia antes da guerra; aproximadamente 30% da população da cidade. 

Em setembro de 1939, imediatamente após a rendição da Polônia [para os alemães], os judeus de Varsóvia foram literalmente encurralados como animais e obrigados ao trabalho forçado [dentro de um espaço estimado de 1.600 m x 2.400 m  - conforme mapa na figura].

Ainda em 1939, os primeiros decretos anti-judaicos foram aprovados. Todos os judeus obrigatoriamente deviam usar uma braçadeira branca com a estrela azul de David. Depois, medidas econômicas foram tomadas, exclusivamente, com o propósito  de fechar-lhes a porta dos empregos.

O Judenrat (conselho judaico local) foi estabelecido sob a liderança de Adão Czerniakow e, em outubro de 1940, o determinação do estabelecimento de um gueto foi anunciado [pelos nazistas]. No dia 16 de novembro os judeus foram amontoados dentro da área do gueto [cerca de 1.600 m de largura por 2.500 m de comprimento - em média] 

Embora um terço da população de Varsóvia fosse judaica, o gueto tinha somente 2,4% da área da cidade. Massas de refugiados que tinham sido trazidas de outros lugares para Varsóvia foram despejadas no meio do gueto, até sua da população  chegar a 450.000 seres humanos.

Rodeado de muros, que os próprios judeus foram obrigados a construir, debaixo do vigilância severa e violenta, os judeus de Varsóvia foram segregados do mundo exterior. Dentro do gueto suas vidas oscilaram na luta desesperada entre a sobrevivência e morte por doença ou inanição. As condições de vida vivas eram insuportáveis e o gueto foi extremamente abarrotado. Em média, entre seis a sete pessoas viviam em uma sala e as rações alimentares diárias eram o equivalente a um décimo do mínimo necessitado.

Os muros do gueto não puderam silenciar a atividade cultural de seus habitantes, contudo, e apesar das condições apavorantes de vida no gueto, os artistas e os intelectuais continuaram em suas perspectivas criativas. Além disso, a ocupação Nazista e a deportação para o gueto serviram de incentivo ao ímpeto dos artistas para buscar alguma forma de expressão sobre a visita da destruição sobre o seu mundo. No gueto havia bibliotecas em um arquivo subterrâneo, o "Oneg Shabbat”, movimentos juvenis e até uma orquestra sinfônica. Os livros, o estudo, a música e o teatro serviram de uma fuga  e como uma lembrança das suas vidas prévias diante da realidade áspera que os rodeava.

A superpopulação do gueto o transformou em foco de epidemias e mortalidade em massa, que nem as instituições da comunidade judaica, nem a Judenrat,  nem as organizações de assistência social foram capazes de combater [no gueto não havia rede de esgotos]. Mais de 80.000 Judeus morreram ali. 

Em Julho de 1942, começara as deportações para o campo da morte em Treblinka. Quando as primeiras ordens para deportação foram recebidas, Adão Czerniakow, o Presidente da Judenrat, recusou-se a preparar as listas de pessoas para os registros de deportação,  em vez disso, suicidou-se em 23 de julho de 1942.

Fim da Tradução.

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Comentários finais: A palavra gueto, segundo a wikipedia, etimologicamente, pode ter varias origens, mas é possível observar que na maioria dos casos era para designar um lugar de segregação de judeus. Na própria língua hebraica, o termo "get" significa literalmente "Nota de Divórcio". 

Em 1555, o Papa Paulo IV criou o Gueto Romano e emitiu um Cânone para forçar os judeus a viverem naquela área. O Papa Pio V também recomendou que todo os estados fronteiriços a Roma, deviam estabelecer um gueto para os judeus. Por isso, no século XVII, todas as principais  cidades perto de Roma, tinham o seu gueto de judeus. 

Todos estes guetos, citados, não eram hermeticamente cercados como no caso de Varsóvia. Eram áreas de moradias comunitárias "sugeridas" para judeus - apesar de isoladas.








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domingo, 8 de dezembro de 2013

ISRAEL




Não te esqueças de pedir a memória
Nas tuas lamentações sagradas
Israel não adormeças no museu
Das tuas pedras, Israel
Não esqueças o mundo
Israel quando é que enviarás
Todas as semanas corações
Para lerem o Apocalipse?...

Israel tu conheces a lei
Dos artigos de Maimónides, tens o costume
De ler Moisés e ficar preocupado
Com todos os cordeiros do país
Israel tu repousas em citações
E costumas nutrir por Jeremias
A ternura das tuas lágrimas
Israel tu detestas Isaías
Por isso o encerras no vidro da universidade
Israel pensa naqueles que voaram
Como pombas e andaram apalpando
Pela noite as suas janelas
Que esconderam a vergonha dos seus olhos
Em pequenas ruas, ao comprarem leite
E sal para as suas feridas
Israel quando te tornarás um menino
Um bando de pombas a olhar o vento
Que descansa nas figueiras
Israel levanta em redor os teus olhos
Para o mundo ver que estão cheios de lágrimas
Como no ano 132, quando te tornaste sionista
E vestiste Bar-Cochba de messias
Israel acorda todos os sonhos dos lábios
Israel as sinagogas são tarde demais.

1/1986

© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A Pátria Portátil

"Quando sonho com o meu regresso para ti,
eu sou como uma harpa a cantar seus cantos.”
Judah Lévy


 

Os grãos de areia das tuas estradas são mirra
veludo nos meus olhos, as ruínas
em que está meu coração
começam a encontrar a arquitrave

Poderei
comer o meu pão na mesa
com raízes no teu chão
conduzirei à mão a paciência
dos meus bois, os mansos
olhos das pombas, as asas
dos cântaros até à fonte de Jacob
onde ensobrava antes
o vale nu da morte
tocam os meus olhos uma luz.
 
© J.T.Parreira
 
("Pátria Portátil", antigo conceito judaico da Diáspora)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O antissemitismo é problema nosso

(Duas grandes suásticas e "Hiel Hitler" foram encontradas pintadas na parte externa do muro da sinagoga Beit Jacob em Santos - SP, Brasil. 24 de Abril de 2010)

(Ministro francês Brice Nortefeux anda perto de túmulo depredado por vândalos com a suástica Nazista e o slogan "Judeus Fora" no cemitério judeu de Cronenbour, perto de Strasbour, França. 28 de Janeiro de 2010.)


Essa questão interessa diretamente a todos nós; somos todos responsáveis pelo judeu porque o antissemitismo conduz diretamente ao nacional-socialismo. E, se não respeitarmos a pessoa do israelita, quem nos respeitará? Se estamos cientes desses perigos, se vivemos na vergonha de nossa cumplicidade involuntária com os antissemitas, a qual nos transformou em carrascos, talvez comecemos a entender que é preciso lutar pelo judeu tanto quanto por nós mesmos.
...
Richard Wright, o escritor negro, declarou recentemente: “Não existe problema negro nos Estados Unidos, existe apenas um problema branco”. Da mesma forma, diremos que o antissemitismo não é um problema judaico — é nosso problema. Já que somos culpados e corremos o risco de também sermos vítimas, seria preciso sermos bem cegos para não vermos que o antissemitismo é essencialmente problema nosso. Cabe primeiramente a nós, e não aos judeus, formar uma liga que milite contra o antissemitismo.
...
A causa dos israelitas já estará quase ganha se seus amigos arranjarem para defendê-los um pouco da paixão e da perseverança que seus inimigos usam para desgraçá-los. A fim de despertar tal paixão não se deve apelar para a generosidade dos arianos — mesmo no melhor deles, essa virtude é intermitente. Mas conviria mostrar a cada ariano que o destino dos judeus é o destino dele. Nenhum francês será livre enquanto os judeus não alcançarem a plenitude de seus direitos. Nenhum francês estará em segurança enquanto um judeu, na França e no mundo inteiro, puder temer pela própria vida.

Jean-Paul Sartre, Réflexions sur la question juive, 1946

sexta-feira, 5 de março de 2010

Ódio e perseguição INJUSTA contra os judeus em 2009

Mais Incidentes Anti-Semitas Relatados em 2009 que em qualquer Ano Desde a II Guerra Mundial
Por Ha Aretz News, 24 de Janeiro de 2010.

O relatório anual da Agência Judia citou pesquisa que informou que 42% dos europeus ocidentais acreditam que os judeus exploraram no passado para conseguir dinheiro. Quase metade dos europeus ocidentais acreditam que os judeus exploram a perseguição que sofreram em seu passado como um método de extorquir dinheiro, de acordo com o relatório anual da Agência Judia lançado no domingo. Um relatório conjunto sobre anti-semitismo conduzido pela Agência e o Ministério dos Assuntos da Diáspora descobriram que 42% daqueles entrevistados pela Universidade de Bielefeld na Alemanha concordam que “os judeus exploram o passado para extorquir dinheiro”. Os países nos quais a maior porcentagem da população concorda com essa declaração foram Polônia e Espanha.

De acordo com a Agência Judia, houve mais incidentes anti-semita em 2009 que em qualquer ano desde a Segunda Guerra Mundial. Nos primeiros três meses de 2009 imediatamente após a ofensiva de três semanas de Israel na Faixa de Gaza houve tantos incidentes anti-semitas quanto os que ocorreram em todo o ano de 2008. Na França, por exemplo, houve 631 incidentes anti-semitas na primeira metade de 2009, comparados aos 474 em todo ano de 2008. Em todo o mundo, oito pessoas mortas em ataques ano passado. O relatório indica que houve duas mortes ligadas ao anti-semitismo em 2009 nos Estados Unidos um de uma estudante universitária em Connecticut e outro de um guarda não judeu no museu do Holocausto em Washington, D.C. Este aumento do anti-semitismo está vindo de ambos os lados políticos, Direita e Esquerda, de acordo com a Agência Judia. Na coletiva de imprensa na qual o relatório foi lançado, oficiais se referiram a um filme que tem sido rodado recentemente que culpa Israel de roubar órgãos no hospital das FDI no Haiti.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Os pés na poça do anti-semitismo (Esboço para um ensaio)

João Tomaz Parreira

Esta expressão, usa-a Bernard-Henry Levy no seu livro essencial O Século de Sartre. Quis dizer-nos que a França foi essa poça, durante e após o Holocausto e Auschwitz, em relação aos seus judeus, e que o filósofo Jean-Paul Sartre meteu os pés nessa «poça» para a denunciar.

Ainda hoje é preciso confrontarmos a nossa consciência cristã perante o que se designa por anti-semitismo. É que a história não nos põe de lado no que concerne a essa interpelação. Não foi só depois de Auschwitz que a poesia se tornou impossível, no dizer de Adorno, a nossa posição de cristãos evangélicos também, diante do que se designou e continua a chamar-se, com menos estrondo, é certo, «o problema judaico».

Mas há uma «questão judaica»? No século XXI? Sartre definiu-a em 1944, ainda se silenciava os nomes dos Campos de Extermínio nazi, e depois perante a hipocrisia dos franceses e até de alguns autores católicos, existencialistas cristãos, como Gabriel Marcel.

A questão judaica, que integra o que desde o século XIX se passou a chamar anti-semitismo, está a julgamento na história entre dois lexemas: aquele anti- e o racismo.

Racismo é, parafraseando Freud, «o ódio ao outro»; mas é um ódio à diferença visível: é negro, é branco, é cigano, é pobre, etc. O anti-semitismo não deixa de ser neste sentido um ódio à diferença, o ódio pelo outro por causa da diferença invisível, imperceptível.
Os judeus eram essa diferença, tinham a marca no rosto invisível, dizia-se que podiam corromper o mundo, secretamente. E se alguma literatura reflectiu isso com frases como «Weiss era mesmo alguém que trazia o destino estampado no rosto»( in A Pena Suspensa, de Sartre), a religião sobretudo acrescentou o maior contributo.

O facto conceptual continuou pelos séculos fora, tal qual o escritor francês, falecido em 1980, o escreveu no diálogo entre dois personagens judeus, no romance citado: «Mas o que é um judeu? É um homem que os outros homens consideram judeu.»
Antes e depois de Lutero.

A verdade é que Martinho Lutero não está isento de culpas quanto a essa consideração, por razões conceptuais baseadas na religião, designadamente num catolicismo medieval, que combatia alegadamente a cabala judaica com outra cabala, considerando os judeus como uma raça oriunda do Averno.

A historiografia do anti-semitismo não favorece o Grande Reformador protestante. Infelizmente. As suas próprias declarações sobre o que entendia ser o judeu, o comprometeram para o futuro.

No Julgamento de Nuremberga, Julius Streicher, o director do perverso Der Sturmer, jornal nazi e anti-semita, afirmou «que se tinha que ser levado a tribunal para responder pelo seu contributo para o assassínio em massa dos judeus, então Lutero – o pai da tradição anti-semita luterana, cuja anti-semitismo derivava da tradição católica- deveria estar a seu lado.»
Cartazes anti-semitas da juventude hitleriana, já em 1936 expunham publicamente como o alemão via o judeu, visão estruturada numa imagem religiosa: «Nós jovens, avançamos alegremente virados para o Sol…Com a nossa fé expulsamos o Diabo da Terra…» O Diabo, em maiúsculas, era o Judeu.
Justificações ilógicas apontavam num só sentido: os judeus crucificaram Jesus Cristo. O ódio religioso, do domínio da historiografia religiosa, que se transformou depois em ódio científico e sistemático, nas estruturas nazis da Solução Final, dirigido contra os judeus, era a resposta ao ódio «assassino» dos mesmos contra Jesus.

Perante a História não podemos deixar de pensar, no século XXI, que houve ( ainda há?)um anti-semitismo cristão, e que o Cristianismo, no que respeita ao aniquilamento europeu dos judeus na década de 40, ignorou teológica, social e humanitariamente, a raiz do Amor divino, demonstrado nas próprias palavras sofredoras de Cristo, na cruz: «Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.»

Se Adorno afirmou que depois de Auschwitz não podia escrever-se mais Poesia, há porém algumas coisas que devem ser feitas pós-Holocausto. Para um Luteranismo puro tem que haver uma revisão aos comentários da História do anti-semitismo, com um pedido de perdão do Cristianismo, e também dos Evangélicos porque não basta aos mesmos fazerem apenas excursões a Israel, para visitar os lugares santos. O lugar santo deve começar no nosso interior, expurgando a nossa maneira de ver o outro, o Judeu.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A Construção da Dor


JOÃO TOMAZ PARREIRA

A preservação da memória nada tem de virtual no Museu do Holocausto, em Jerusalém.
O chamado Yad Vashem é um memorial do povo Judeu aos seus seis milhões de mortos, na Solução Final da Questão Judaica.
O monte onde foi edificado em 1953 e está instalado até hoje o museu «dos heróis e vítimas do holocausto judeu», o Yad Vachem, é uma montanha documental.
Ao designar-se como Monte da Comemoração, sublinha, toponimicamente, não apenas a lembrança do passado, como uma catarse continuada, mas também «o labor para educar os jovens no sentido de que não esqueçam o que sucedeu durante a Segunda Guerra Mundial e a solução final orquestrada por Adolfo Hitler» - afirmaria a chefe da diplomacia israelense, a senhora Tzipi Livni.

Recordação e Depressão na alma europeia
Sem dúvida que recordação é o vocábulo central, cuja semântica toca, psicologicamente, o vazio deixado por seis milhões de mortos, a chama física do lume que ilumina os nomes dos 21 campos de extermínio nazis, a escrita em basalto negro, a crueldade sistematizada num programa de extermínio, os testemunhos de 62 milhões de documentos, as 267.500 fotografias, os milhares de vídeos com a palavra testemunhal de sobreviventes desse período que escureceu a identidade da Europa.
Tudo isso é o Museu do Holocausto, ao qual foi atribuído em 2007 o prestigiado Prémio Princípe de Astúrias, na categoria de Concórdia.
Mesmo que não possamos visitá-lo, que façamos apenas uma visita virtual no sítio www.yadvashem.org, a verdade é que a dimensão da tragédia, a construção da dor, o trauma continuado nos valores e na cultura ocidental, desde as décadas de 30-40 do século passado, se mantêm como uma «depressão» na alma europeia contemporânea.
Livros, filmes, documentários passam transversalmente por todo o mundo, e não será hiperbólico falar de «chama eterna» da memória desses factos terríveis, que ganharam uma dimensão trágica -estudada hoje nestes termos - nos domínios da estética, da ética, da biologia e da religião.
E a notícia do Prémio Princípe de Asturias atribuído ao museu israelense sublimou tudo o que ao longo destes mais de 60 anos se tem levado ao conhecimento dos homens, a nível planetário. O director da instituição, Avner Shalev, considerou mesmo que tal galardão «é vital à existência deste museu para que as gerações futuras não olvidem o passado e a crueldade da Alemanha Nazi.»
O que se passou na Europa Central entre 1941-1944, estrutura-se hoje ao nível dos estudos mais do carácter humano, dos não-valores culturais, éticos, morais e religiosos dos protagonistas germânicos, e não só, que das políticas vigentes à época na Alemanha e países ocupados. O modo funcionário de matar, nada teve de eventual.
Assim, existem obras de análise profunda e bem documentada sobre «a esquematização das crenças dominantes na Alemanha acerca dos judeus».
Com efeito, os judeus na estrutura do Estado Nazi eram considerados por este, um mal e uma ameaça, o perigo que representavam era incalculável e extremo, alegadamente queriam destruir a Alemanha e o grau da sua malignidade era enorme, por isso tinham que ser eliminados. A atitude ética perante eles, classificava-os «como não humanos, fora do alcance da ordem moral.»
A crença dominante quanto aos judeus afirmava que eram «uma ofensa ao sentido da ordem e valores».
Assim, o genocídio perpetrado baseou-se em que os judeus ofendiam a Alemanha e a Europa- eram o Mal-, sendo este o pensamento primário começado por Hitler, já em 1920, quando escreve «Por que somos anti-semitas?». Intencionalidade e funcionalidade deram origem a uma política que teve pouco a ver com religião, embora o anti-semitismo advenha desta. E, no entanto, na história da eliminação dos judeus, dois termos de conteúdo teológico e bíblico dos
textos sagrados, ergueram-se e mantêm-se até hoje. Holocausto e Shoah.

Holocausto e Shoah
Vale a pena referir que ambas as palavras, pertencendo ao universo do Velho Testamento, tiveram um sentido para os judeus, na memória posterior aos factos. Já Hitler usaria outro termo, antes dos factos, supressão. Para isso recorreria a pactos com o sobrenatural, se fosse preciso, afirmando estar disposto a «unir as nossas forças às do Demónio».
Mas muitos judeus preferem o vocábulo Shoah, que é uma palavra em língua iídiche (dos judeus alemães e do Norte da Europa), que significa «calamidade», a essoutra mais conhecida, holocausto, que em grego quer dizer «queimar totalmente», porquanto deriva do hebraico bíblico ôlâh, ôlâh A razão, por isso, parece estar no domínio da vergonha teológica. Muitos judeus e até cristãos hoje acreditam que é teologicamente ofensivo sugerir que os judeus da Europa foram um sacrifício a Deus.
A raíz superlativa da prática do holocausto radicava no sacrifício de vítimas animais, cabras, novilhos, aves, sobretudo cordeiros.
Os judeus, perseguidos desde a constituição oficial do Cristianismo, no século IV, eram já suficientemente animalizados com ataques verbais e físicos e tornaram-se sinónimos de Demónio. Foram seres «socialmente mortos», durante o período nazi, mas não animais.
Embora o «holocausto» fosse desprovido para os nazis de qualquer sentido bíblico, era uma perpetração monocausal, era o assassínio em massa derivado do anti-semitismo visceral.
Ao prefeirem Shoah, por um conjunto de razões entre elas a teológica, os judeus aplicavam a si o conceito semântico bíblico do que caiu sobre o povo de Israel, a calamidade, por considerarem teologicamente ofensiva a natureza do significado original de «holocausto».
Uma construção da Dor, do exílio e morte, de que os hebreus também foram obreiros e que por terceiros sobre eles se abateu, uma calamidade que vinha desde as margens dos rios da Babilónia, onde se sentaram e choraram, lembrando-se de Sião, até aos «assassínios-em-linha-de-montagem».

(1)O extermínio sistemático dos judeus começou no verão de 1941 na União Soviética
(2)- GOLDHAGEM, Daniel; Os carrascos voluntários de Hitler, Notícias Editorial, 1999, pp.. 707 e ss.

sábado, 31 de outubro de 2009

Campos de Holocausto

Poema inédito de J.T.Parreira
Para FR

Havia no ar chaminés
que demoravam a deitar fora
o ardor das cinzas, fumos
que não tocavam as narinas com incenso
Eram sonhos, inocências
plumas da alma
Havia chaminés que se erguiam
contra o azul, sobre os campos elevavam
como chaminés de fábrica
as suas próprias nuvens
Por entre florestas
de abetos ou salgueiros
chaminés ao fundo de portões
que prometiam asas.
30/10/2009

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

"Em caso positivo, toda a família é levada embora"

O Sr. Dussel contou muita coisa que não sabíamos sobre o mundo lá fora. Ele tinha notícias tristes. Incontáveis amigos e conhecidos foram levados para um destino terrível. Noite após noite, veículos militares verdes e cinza cruzam as ruas. Eles batem em todas as portas, perguntando se ali mora algum judeu. Em caso positivo, toda a família é levada embora. Caso contrário, eles passam para a outra residência. É impossível escapar de suas garras a não ser que você se esconda. Eles costumam andar com listas, só batendo nas portas onde sabem que há uma grande apreensão a ser feita. Frequentemente oferecem recompensa, tantos florins por cabeça. É como as caçadas a escravos nos tempos antigos. Não quero fazer com que isso pareça bobagem; é trágico demais. À noite, quando está escuro, costumo ver longas filas de gente boa e inocente acompanhada por crianças chorando, andando sem parar, controladas por um punhado de homens que as empurram e batem até elas quase caírem. Ninguém é poupado. Os doentes, os velhos, as crianças, os bebês e as mulheres grávidas — todos são forçados a marchar em direção à morte.

Temos muita sorte aqui, longe do tumulto. Não pensaríamos sequer por um minuto em todo esse sofrimento se não estivéssemos tão preocupados com as pessoas queridas, a quem não podemos ajudar. Sinto-me má ao dormir numa cama quente, enquanto em algum lugar meus melhores amigos estão caindo de exaustão ou sendo derrubados.

Fico apavorada quando penso em amigos íntimos que agora estão à mercê dos monstros mais cruéis que já assolaram a terra.

E tudo porque são judeus.



Diário de Anne Frank (Edição Definitiva), pgs.: 79, 80, Editora Record.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O Diário de Anne Frank





Annelise Marie Frank, conhecida mundialmente como Anne Frank, nasceu em 12 de junho em Frankfurt, Alemanha. Ela e sua família abandonaram a Alemanha em 1933 e foram para Amsterdã, na Holanda, ano em que os nazistas subiram ao poder. O pai de Anne, Otto Frank, era judeu, naturalizado polônes e tinha alguns contatos profissionais em Amsterdã. A pequena Anne, só chegaria a Holanda em 1934, um ano após sua família, o motivo é que passara um período com a avó na cidade de Aachen.

A família de Anne era pequena, quatro pessoas: Otto (pai), Edith (mãe) e Margot(irmã mais velha). Eles moraram por dois anos inteiros em um escritório que ficava no fundo da casa em Amsterdã. Alguns chamam de porão. Atualmente é onde se localiza "O Museu Anne frank", no diário da menina ela dá o nome de "anexo secreto". Outras quatro pessoas também faziam companhia a família, se refugiando no "anexo secreto" para se livrar dos nazistas.

"Como esconderijo, a casa de trás é ideal, ainda que seja úmida e toda inclinada, estou segura de que em Amsterdã e talvez em toda Holanda não há outro esconderijo tão confortável como a que temos instalado aqui"

O "cativeiro" da família Frank, durou de 1942 até 1944, ano em que foram capturados, através de uma denúncia anônima.Ao serem presos, foram levados pela polícia alemã até Westerbork (18 de Agosto de 1944). Um mês depois, a família é enviada em um trem de carga para Auswitz, conjunto de campo de concentração na Polônia, ocupado pela Alemanha. Um mês depois, Anne e sua irmã Margot, foram transferidas para o campo de concentração Bergen-Belsen, para trabalharem como escravas.


Mãe(Margot),pai(Otto) , Anne e Edith.

Em 1945, nove meses após a deportação para Bergen-Belsen, Margot, irmã de Anne, morre de tifo. Anne morre dias depois, da mesma doença. Duas semanas depois da morte de Anne o campo é libertado.

Crianças judias em auschwitz II (Birkenau) logo após libertação.


O Diário de Anne Frank

Durante o tempo em que viveu escondida dos nazistas, no "anexo secreto" da casa em Amsterdã, Anne Frank ganhou um diário de presente de aniversário. Esse diário recebeu o nome de Kitty, e é tratado como um amigo que ora também receberia o nome de Peter. Nele, o relato dramático de situações vividas pela família, por amigos e especialmente por ela. Anne tinha apenas 13 anos quando começou a escrevê-lo, mas demonstra uma maturidade incomum para sua idade.

Numa das anotações feitas em seu diário em 18 de Outubro de 1942, Anne diz: "Esta é uma das minhas fotografias que gosto de ver a toda hora. Então fico pensando na possibilidade de ir para Holywood".

Publicação do Diário de Anne Frank
O Pai da menina, foi o único sobrevivente entre todos que se escondiam no "anexo secreto". Otto publicou o diário da filha em 1947. Atualmente ele é traduzido em 68 línguas e é um dos livros mais vendidos do mundo.

Como encontraram o diário?
Enquanto estiveram confinados no "anexo secreto", em Amsterdã, recebiam ajuda de uma pequena família: Miep Gies e seu esposo Jan. Eles levavam alimento, livros e mantinham todos informados das últimas notícias. No dia em que os Frank foram capturados, Miep Gies, que morava bem próximo, encontrou os escritos de Anne e os guardou pensando em encontrar posteriormente a família. Otto, voltou sozinho para "o anexo secreto", Miep lhe entregou o diário.


Miep Gies


Ainda mora em Amsterdã e no dia 15 de fevereiro de 2009 completou 100 anos de idade. por muito tempo ela foi acusada por um homem chamado Van Moren de ter sido a informante secreta da polícia alemã no caso Frank. essa denúncia foi desmentida através da história e também pelo próprio Otto. Miep foi colaboradora em um livro chamado: "Anne Frank, uma Biográfia" de Melissa Muler. Também lançou o livro "Meu tempo com Anne Frank" em 1987. Em 1996 recebeu junto com o cineasta Jon Blair o oscar pelo documentário "Anne Frank".


Clique para visualizar melhor


Fontes: O Diário de Anne Frank
Enciclópedia do Holocausto
Wikipédia
Ruadajudiaria
Os 100 anos de Miep
A Tenda Na Rocha

domingo, 12 de abril de 2009

Três poemas de Nelly Sachs


TERRA DE ISRAEL

Não cantos de luta vos vou eu cantar
Irmãos, expostos ante as portas do mundo.
Herdeiros dos salvadores da luz, que da areia
arrancaram os raios enterrados
da eternidade.
Que nas mãos seguraram
astros cintilantes como troféus de vitória.

Não canções de luta
vos vou eu cantar
Amados,
só estancar o sangue
e as lágrimas, que gelaram nas câmaras da morte,
degelá-las.

E buscar as lembranças perdidas
que rescendem proféticas através da Terra
e dormem sobre a pedra
em que os canteiros dos sonhos enraízam
e a escada da nostalgia
que ultrapassa a Morte.



VOZ DA TERRA SANTA

Ó MEUS FILHOS
A morte passou pelos vossos corações
Como por uma vinha -
Pintou Israel a vermelho em todas as paredes da Terra.

Para onde há-de ir a pequena santidade
Que ainda mora na minha areia?
Através dos canais da solidão
Falam as vozes dos mortos:

Deponde sobre o campo as armas da vingança
Pra que elas falem baixo -
Pois também o ferro e o trigo são irmãos
No seio da Terra -

Para onde há-de ir a pequena santidade
Que ainda mora na minha areia?

A criança no sono assassinada
Levanta-se; torce pra baixo a árvore dos milénios
E prende a estrela branca anelante
Que outrora se chamou Israel
Na sua coroa.

Reergue-te de novo, diz ela
Pra lá, onde lágrimas significam Eternidade.



Vós que nos desertos

buscais veios de água ocultos -
de dorso curvado
escutais à luz nupcial do Sol -
filhos duma nova solidão com Ele -

As vossas pegadas
calcam a saudade
para os mares de sono -
enquanto o vosso corpo
lança a folha escura de flor da sombra
e em terra de novo sagrada
o diálogo que mede o tempo
entre estrela e estrela começa.

(in Poemas de Nelly Sachs, tradução de Paulo Quintela, Portugália editora, 1967 )


*Nelly Sachs, dramaturga e poeta alemã de origem judaica (10/12/1891 - 12/5/1970). Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1966, tem a obra marcada pela experiência nazista (conseguiu mesmo fugir de um campo de concentração), o que a torna uma das mais ardentes porta-vozes do sofrimento e do anseio do povo judeu.

via blog Poesia Evangélica

quinta-feira, 12 de março de 2009

Eles são gente como eu

Preocupo-me demais com todo esse imenso ódio e desprezo à raça judaica esteja ela espalhada pelo mundo ou em sua pátria amada Israel. Minha coleção de cartuns, imagens e charges “anti-sionistas” e “revisionistas” que guardo em uma pasta está batendo recordes de crescimento. Os textos anti-Israel antes raros de ser achar hoje encontro vindo até de pastores e por mais absurdo que soe também de alguns judeus loucos.

No começo eu era apenas um pesquisador e um cristão que como discípulo de Cristo deve pregar o amor e combater o ódio. Hoje meu papel de pesquisador saiu do âmbito pessoal para o campo dos debates e escritos. Basta escrever “Conflito Árabe-Israelense” no Google que estou na 1ª página. Já a questão religiosa me colocou em choque: sou acusado de alienado, fanático e sanguinário mesmo sem nunca ter utilizado de argumentos bíblicos sobre a posse daquela terra (mesmo porque são poucos os judeus que acreditam que aquela terra pertença a eles por vontade divina). Recentemente numa palestra fiz papel de chato ao criticar um xiita, e o xaato nem foi isso o xaato mesmo foi ser o único em uma platéia de mais de 40 pessoas a criticar afirmações claras de negação do holocausto. Consegue entender meu desespero?

Quero evitar más interpretações do que penso. Dizer que sou a favor de alguma atitude militar para impedir os 8 anos de foguetes contra o sul de Israel não significa necessariamente que defendo a morte de crianças e civis inocentes. Na verdade, quando defendi Israel no começo do conflito minha opinião era bem próxima à de Amoz Oz. O que me fazia ser contra o Hamas era exatamente minha aversão à morte de civis inocentes, mesmo porque nunca li notícias de foguetes Quassams atirados contra alvos militares e o sangue dos judeus não valem menos que o dos árabes. Mesmo durante a guerra enquanto Israel oferecia livre acesso a hospitais e recursos a qualquer civil palestino interessado em abandonar Gaza os “democráticos” terroristas do Hamas utilizavam seus civis e suas crianças de escudos humanos, escondia armas em escolas e ambulâncias além de aproveitar do cessar fogo (entrada de recursos humanitários) como um intervalo de reabastecimento ou uma oportunidade de pegar algum civil do sul de Israel desprevenido.

Nesse momento que meu lado cristão fala mais forte. Por que sofro tanto com algo tão sério e imenso para minhas atitudes? Nunca recebi nenhum comentário ou e-mail de um anti-semita arrependido. Sei que é certo e nobre o que sinto, mas ansiedade e perturbação são anti-bíblicos. Decido voltar ao início dos meus propósitos como blogueiro: amar meu próximo, perdoar meus inimigos. Nunca achei que seria fácil, mas preocupar e me chatear com as ofensas anti-semitas ou de cunho pessoal me soa mais feio e alarmante que o aparente perdão não merecido.

Sou impedido de combater o ódio com o ódio porque fui amado mesmo com preconceitos, falhas, erros e também ódios. Minha fé me impede de odiar um neonazista, um terrorista ou um militante de extrema esquerda anti-sionista, pois herdo o conceito de amor e perdão de ex-perseguidores religiosos (como Paulo), ex-assassinos (como Moisés) e até de adúlteros arrependidos (como Davi). Esse favor imerecido oferece oportunidade de nova vida e alegria até para o mais cruel racista, bandido ou político corrupto. A verdade é que me vejo tão “terrorista” quanto qualquer homem-bomba no sentido de também ser humano e também precisar de arrependimento para herdar o Reino dos céus.