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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Saudades de quê?




Wilma Rejane


Saudade é um sentimento comum em nossas vidas. Quem algum dia, nunca sentiu saudade?  Cientistas relacionam o fato ao cérebro, por ser ele capaz de imprimir imagens familiares, sons, cheiros... Tudo isto é reunido em uma espécie de “caderno mental”. Estas informações circulam em nossa mente, provocando sensações que chamamos de saudade que é biológica e também emocional. Acontece quando estamos distantes de casa, de pessoas que amamos, quando por algum motivo apenas nos é permitido recordar.

Distante de casa, na  Babilônia, um exilado, entoou  saudoso Salmo em memória de Sião.

"Junto dos rios de Babilônia, ali nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião. Sobre os salgueiros que há no meio dela penduramos nossas harpas. Pois lá aqueles que nos levaram cativos nos pediram uma canção; e os que nos destruíram , que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos uma das canções de Sião. Como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha? Se eu me esquecer de ti ó Jerusalém, esqueça-se a minha direita da sua destreza." Sl 137:1-5.

O imigrante não tinha forças sequer para cantar, tamanha era a tristeza provocada pela saudade. As lembranças de Sião estavam “circulando” em sua memória.   Perdi meu pai há oito anos, mas todas as vezes que sinto o cheiro de sua comida preferida, ou vejo minha mãe preparando-a, fico pensativa a lembrar-me de sua alegria e disposição em sentar-se a mesa. Sinto falta de sua presença conosco também nestes momentos.

Nenhuma ciência ainda foi capaz de medir nossas emoções, mas Deus em sua eterna sabedoria nos dotou de vínculos e laços de amor que perduram uma vida, e mesmo quando chega à morte. É quando percebemos intensamente o significado que pessoas têm para nós. É quando chega um tipo de saudade que não pode ser saciada, deixando marcas que somente o tempo é capaz de amenizar.

Amor e ausência são pais da saudade. A saudade nos faz refletir e, sobretudo, sentir com mais vigor, presença e intensidade. O autor Nelci Silvério, sobre a saudade comenta: " Toda saudade é amor, e amar é conhecer alguém ou algo. Ninguém tem saudades do que não ama e ninguém ama o que não conhece".

Sobre a essência inflamada da saudade, podemos ainda enunciar os seguintes paradoxos: é um mal de que se gosta, e um bem que se padece. Saudade não necessariamente diz respeito a coisas que se perderam, pois também há saudade de bens que não foram ainda possuídos, de pessoas e coisas que permanecem sendo esperados, a vontade de estar próximo nesses casos, também é saudade.

Chorar de Saudade

Saudade se caracteriza pela ambivalente lembrança alegre - triste de algo extraordinário e marcante em nossas vidas. Davi, relata a dor da saudade sentida por causa da ausência do filho Absalão:

 “Absalão fugiu, e foi para Gesur; e ali esteve por três anos. Então tinha o rei Davi, saudades de Absalão. E Davi pranteava por seu filho todos aqueles dias” II Sm 13:37-39. Por três anos, o homem segundo o coração de Deus chorou a distância do filho.  

Um recente artigo, divulgado pelo jornal CNN aponta que as universidades americanas estão lotadas de jovens saudosos de suas casas e de tudo o mais que deixaram para trás, ao partirem ao encontro do sonho de concluir os estudos e terem uma carreira estável. Os entrevistados descreveram com detalhes as lembranças que circulavam em suas memórias:







Keila Pena - Hernandez : “Lagos ou rios do centro oeste, não se comparam com o mar do caribe, tenho saudades das frutas tropicais e da brisa fresca do mar”. A estudante estava tal qual o exilado na Babilônia, desejando sua terra. Acima Keila na Universidade de Missouri, a família ficou em Porto Rico.


Curando a dor da Saudade


A Palavra de Deus é um alto refúgio em todos os tempos. Ela conforta, dá ânimo e restaura as forças. É através dessa fórmula que missionários e imigrantes cristãos, conseguem superar a dor da distância: “Orações aliviam meu coração dolorido, confio a Deus tudo o que está acontecendo comigo e com meu filho que está distante de mim” Homesik (imigrante).A exemplo de Homesik costumo entregar todos os cuidados a Deus, e   de maneira sobrenatural, Ele envia o refrigério. Imagem à esquerda: Imigrantes reunidos em estudo da Bíblia para superar saudades de casa.


Saudade na Era da internet

Vivemos em um mundo repleto de novas tecnologias e é possível uma comunicação rápida e eficaz com todas as partes do globo terrestre. Estes recursos têm possibilitado que familiares curem (em parte) a dor da saudade.  Minha sogra tem 68 anos. Aprendeu  usar Orkut, email , Skype e webcam para se comunicar com filhos e netos que moram em outro estado. É possível vê-la dando boas risadas  nessa interatividade virtual. E pensar que o Rei Davi chorou por três anos a distância de seu filho...

Mas a era da tecnologia, também provoca um paradoxo: une e separa. O uso exagerado da tecnologia, pode provocar um esvaziamento das relações, ansiedade e alienação dos laços amorosos. Não se colhem lágrimas, nem abraços, nem afetos em uma comunicação unicamente virtual. É preciso se aconchegar no outro, chorar e sorrir juntos, sentir os níveis de intensidade da voz e do olhar. Perceber os gestos, enfim amar de tão forma que se provoque saudade de amar sempre, mesmo juntos.

E Paulo sentiu saudades...

Filipenses 1:8 Pois Deus me é testemunha de que tenho saudades de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus. (apóstolo Paulo)


Desprovida de saudade, a vida humana decerto seria miserável, pois estaríamos reduzidos a um presente instantâneo, grosseiro, automático.         

Ao sentir apertar a dor da saudade, lembre-se: você não está sozinho. Neste exato momento em  algum lugar, ou em muitos lugares do planeta, lembranças estão circulando no memória de quem ama.  Mas como tudo na vida, essa dor há de passar.

Deus te abençoe.

Fontes: Bíblia Sagrada e artigo de Renato Bitencourt: A saudade e a Nostalgia Inefável.  Revista Filo. Ciência e Vida Ed nº 72

terça-feira, 1 de maio de 2012

Quero trazer a memória o que me dá esperança



“Quero trazer a memória aquilo que me dá esperança" Lm 3:21





Wilma Rejane
A Tenda Na Rocha

Betel  é uma cidade cananeia da antiga região da Samaria, situada no centro da terra de Canaã, seu nome significa “morada de Deus”. Abraão estava no Egito, quando a fome e a seca afetam o lugar e ele volta para Betel, retrocede na jornada de aproximadamente 2.400 km com destino a Canaã. Ao ler esse episódio sobre Betel, me perguntei: por que Abraão escolheu voltar no caminho? Por que sai no Neguebe, atravessa em média mais três cidades rumo ao altar em Betel? A resposta que encontrei, me convidou a fazer tal qual Abraão: “ erguer memoriais em Betel”.

E Abraão fez as suas jornadas ao Sul de Betel, até ao lugar onde, ao principio, estivera sua tenda. Até ao lugar do altar que, dantes ali tinha feito; e Abraão invocou ali o nome do Senhor. Gn 13:3,4


Nenhum outro lugar, havia marcado tanto o patriarca. Ele foi atraído de volta a Betel, pelas boas lembranças da intensa presença de Deus. Ele quis fortalecer a fé, se nutrir de forças para prosseguir até o destino final. Boas lembranças, têm esse poder catalizador de animar o ser. Lembro com muita clareza de minha infância e de como aguardava ansiosa a chegada do fim de semana para dormir na casa de minha avó materna, por nome Àguida. Seus braços eram imãs a atrair os netos; carinho, boas histórias, cocadas esfriando na janela, a deliciosa sopa de frango com legumes e as incomparáveis pamonhas! Jamais esqueci.


Boas lembranças, são marcos que nos fazem querer regressar. Ainda que não possamos retornar fisicamente a alguns lugares, nossa mente tem a liberdade de viajar e reviver momentos especiais. Betel marcou Abraão. As boas lembranças provocavam nele, um efeito muito parecido com os braços de minha avó.

Deixe-me contar algo incrível:

O teólogo alemão Jurgen Moltmann (1926) é um grande exemplo do poder fortalecedor das boas lembranças. As experiências de sua infância o acompanharam de forma decisiva por toda a vida, influenciando seu pensamento:

“ Na minha lembrança, me vejo garoto olhando na janela da casa dos meus pais para as florestas que cortam o horizonte distante do Norte da Alemanha. Ali, as planícies são vastas e o céu imenso. O horizonte é o limite que não aprisiona; pelo contrário, ele nos convida a ir além. Aquele menino tinha muita curiosidade de saber o que haveria do outro lado do horizonte”

Quando Moltmann se tornou prisioneiro de guerra, encerrado em um campo inglês, ele afirmou:“ Vi homens nos campos que haviam perdido a esperança. Eles simplesmente se entregavam e morriam”. As boas lembranças sustentaram Moltmann. Ele quis se manter vivo para descobrir o que havia do outro lado do horizonte. Isso é curioso, porque a morte poderia ser a forma mais fácil de se descobrir, mas se assim o fizesse, estaria matando também suas lembranças.

Anos mais tarde, elas se tornariam o motivo maior de sua realização e felicidade. Em resposta as suas indagações sobre “o outro lado do horizonte” descobre no Cristianismo sua razão de viver e de forma fervorosa, transforma a esperança no tema principal de seus livros, traduzidos para vários idiomas. E tudo começou na infância, um Betel construído com um olhar pela janela.


Através da Janela

O que estamos vendo de nossa janela? Que Betel estamos construindo para nossa vida?

Abraão carregava em seu ser o memorial da promessa Divina: “far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome, e tu serás uma benção; em ti serão benditas todas as famílias da terra” Gn 12:2-3.

Assim como Maltmann, ele precisava viver para ver acontecer. A promessa, era o marco que o fazia partir e regressar, sem chance de desanimar.


O profeta Jeremias, viveu momentos de grande tristeza quando Nebuzaradã, capitão da guarda de Nabucodonozor, destruiu a maior parte de Jerusalém, queimou o templo e levou a todos, exceto as pessoas mais pobres, para o exílio. Ele lamentou sobre a cidade, em determinado momento, porém, lança um olhar sobre a janela na intenção de se fortalecer, refugiar em seus “Beteis”, lugar de boas lembranças, ele afirma: “Quero trazer a memória aquilo que me dá esperança Lm 3:21. Profeta Jeremias estava tal qual o teólogo Maltmann: revivendo boas lembranças em um cenário de guerra.

Betel é Refúgio

Quero te convidar a construir “Beteis”, lugar criador de boas lembranças. Falo de fé e promessas, não de mera ilusão que nos torna distantes da realidade. Falo de Beteis, porque eles significam “morada de Deus” e tudo o que é firmado em Deus se cumpre. Construir “Beteis” tem a ver com comunhão, com obediência e sobretudo fé, certeza de auxilio. Isso foi o que fez Abraão retornar ao lugar. O cenário de fome e seca o entristeceu, em Betel se refugia.

O pastor Martin Luther King, chegou a afirmar: "Segurei muitas coisas em minhas mãos,  perdi tudo; mas tudo que  coloquei nas mãos de Deus,  ainda possuo." Aquilo que confiamos a Deus, Ele recompensa e além do que pensamos. A benção, alcança outras gerações.

O Betel construído por Abraão, serviu de refúgio para seu descendente  Jacó. Anos mais tarde, ele também empreendia uma jornada, quando para em Betel e recosta a cabeça sobre uma pedra. Sonha com uma escada ascendente, em direção ao céu, onde anjos subiam e desciam. Betel era mesmo “morada de Deus”.  Jacó faz um voto com Deus que iria, de forma decisiva, marcar sua vida. Ali seria o lugar de suas boas lembranças. O marco a animar-lhe na caminhada. Gn 28:10 -22.

“ Quão terrível é esse lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus” Gn 28:17.

Construímos Beteis, quando guardamos na mente e no coração as Palavras de Deus para nós. Elas são boas lembranças que trazem esperança. Elas são refúgio na adversidade. Abraão se recusou a ficar no Egito choramingando a seca. Arrumou a bagagem e partiu para Betel, ali invocou ao Senhor! Não deixemos nos contaminar pelo desanimo. Façamos como Maltamm: vivamos para ver nossa vitória! “O outro lado do horizonte” que se revela pelo mistério inabalável da fé.


Fontes: Almeida, J.F Bíblia de Estudo Plenitude, Revista e corrigida, SBB, 1995 Miller l. e Stanley J.- Teologias Contemporâneas, Ed Vida Nova, SP 2011.