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domingo, 29 de junho de 2014

Lilias Trotter e a Linguagem que Ninguém Conhece

Lilias Trotter foi missionária e também grande pintora. 
John Piper 
Enquanto escrevo isto, a minha mulher Noël está em Knoxville, Tennessee, onde foi falar numa conferência de mulheres. Entre os seus temas ela tem uma biografia de Lilias Trotter. Trotter foi para a Argélia em 1888 como missionária e fundou a Algiers Mission Band. Uma das coisas mais notáveis sobre ela é que era uma pintora bastante talentosa antes de sair para África, uma das melhores artistas do século XIX, de acordo com John Ruskin. Desistiu desta carreira em troca de viagens perigosas em regiões muçulmanas onde ganhou convertidos entre os árabes, os franceses, os judeus e africanos negros.
Noël indicou-me um dos seus perspicazes pensamentos. Ele tem profundas implicações para a propagação da fé cristã no nosso mundo deveras secular. Citá-lo-ei e depois farei alguns comentários. Cautela, pois não é simples de entender no início. Ela escreveu em 1929,
Quando queremos uma palavra de humildade, esperança ou santidade, só podemos buscá-la nos clássicos, vagamente conhecidos por leitores comuns. Nós escrevemos para um povo ainda não espiritualmente nascido; as palavras só serão entendidas quando as realidades nas quais elas se firmam necessitem serem expressas. Temos de construir uma linguagem espiritual contra a época em que será desejada (I. Lilias Trotter, por Blanche AF Pigott, [London: Marshall, Morgan & Scott Ltd, nd], pp . 129-30)
Não se trata apenas de apresentar um Evangelho em palavras que as pessoas podem compreender, mas de dar-lhes a semente de uma linguagem espiritual em que as coisas que o Espírito Santo ensina possam ser expressas. A carência disso parece ser inversamente proporcional à riqueza da linguagem no respeito aos assuntos seculares... As palavras para as realidades espirituais têm de ser enxertadas na linguagem coloquial, esperando a seiva da nova vida para uni-las numa torrente através delas. (ibid., p. 137)
Pense por um instante em como as palavras se relacionam com a realidade. A palavra "dor de cabeça" existe porque essa experiência existe. Uma pessoa que nunca teve uma dor de cabeça só pode adivinhar o que a palavra se refere. Pode tentar fazer uma analogia: Talvez seja como uma náusea na cabeça. Ou pegue na palavra "cavalheirismo." Se um homem não tem essas tão nobres inclinações não importa quantas definições usemos, ele não saberá, na realidade, do que estamos falando.
Ou perguntemos: "Por que é que existe a palavra obsequioso?" Ela existe porque ao longo do tempo as pessoas mais exigentes viram um tipo de atitude e comportamento que precisavam de uma palavra para descrever. Se você ainda não viu e sentiu este tipo de comportamento, então ouvir sinônimos tais comoaduladorbajulador, ou lisonjeiro não vão despertar esse conhecimento.
O que Lilias Trotter disse foi que as palavras referentes a realidades espirituais devem ser usadas mesmo quando a audiência - a cultura, a época - não tenha nenhuma experiência com a qual preencha os termos. "As palavras vão ser compreendidas quando as realidades para as quais se destacam venham a precisar de expressão. Temos de fazer uma linguagem espiritual [que sirva] o tempo em que será necessitada."
Imagine tentar comunicar a realidade da "santidade" e "reverência" a um bando de criminosos que apenas têm desprezo para com a religião e sem pano de fundo religioso. Imagine dizer-lhes que a palavra de Deus é "doce", ou que o "mansos" herdarão a terra, ou de que a fé apreende a "luz do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo." Estas realidades são absolutamente preciosas e cruciais. Elas não podem ser facilmente contidas ou transmitidas numa linguagem criada e definida sem essas experiências espirituais.
Noutras palavras, Lilias Trotter estava alertando contra a ideia de que todas as realidades cruciais podem ser comunicadas na linguagem e categorias que as pessoas trazem para o evangelho. Para ter certeza, o esforço deve ser feito para ajudar as pessoas a ver a nova realidade, usando como ponteiros as palavras que eles já conhecem. No dizer dela, "As palavras para realidades espirituais têm de ser enxertadas no coloquial." Mas o que vai fazer com que o entendimento aconteça será o despertar da nova vida espiritual, preenchendo as palavras enxertadas com a realidade. Então, como ela diz, "A seiva da vida nova [irá] uni-las numa torrente através delas."
Então, como ela conclui, não podemos simplesmente assumir que a linguagem secular pode compreender a realidade espiritual que queremos comunicar. Ao invés disso, devemos "dar-lhes a semente de uma linguagem espiritual em que as coisas que o Espírito Santo ensina possam ser expressas." Existem conceitos, palavras e categorias que talvez tenham de ser introduzidas (enxertadas em algo familiar), de modo a que as realidades preciosas possam ser entendidas. "As palavras serão entendidas quando as realidades para as quais se destacam venham a necessitar de expressão". Quando a "riqueza da língua para todas as finalidades seculares" é superior, ela diz, haverá pobreza da língua para fins espirituais.
Assim, apliquemo-nos a conhecer a realidade por detrás de toda a linguagem bíblica. E trabalhemos em construir tantas pontes para o nosso mundo quantas possamos para que os significados as possam atravessar. Mas não temamos em usar a linguagem espiritual da Bíblia onde ela é estrangeira. Quando todos os nossos esforços na comunicação forem feitos, Deus criará a realidade e preencherá as palavras.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Há tempo de calar (Ec. 3:7)



por George Gonsalves

“Façamos silêncio a fim de que possamos ouvir o sussurro de Deus”.
 Ralph W. Emerson

       Era provavelmente a última vez que pai e filho iriam se ver. O filho era John Patton e ele estava indo para uma missão que muitos consideravam suicida: pregar aos nativos das Novas Hébridas. Alguns deles eram canibais e haviam dizimado uma expedição cristã anos antes. Patton narrou o final de uma caminhada com seu pai, de cerca de dez quilômetros, até à estação de trem que o levaria para distante de sua família: “No último meio quilômetro, ou perto disso, caminhamos juntos em um silêncio quase impenetrável [...] Seus lábios continuavam se movendo em oração silenciosa por mim, e suas lágrimas caíram rápidas quando nossos olhos se encontraram, pois toda fala era vã!”[1] Há silêncios eloquentes. Existem momentos em que palavras podem quebrar a sacralidade de uma cena de amor, de empatia.
O mundo é ruidoso; há muito barulho (e ruim) por toda a parte. Outrossim, a igreja parece seguir em um contínuo frenesi de vozes e sons vazios. Ocorre, que muitas vezes precisamos calar nossa voz. Sim, há uma virtude no silêncio. Muitas vezes pecamos quando simplesmente não ficamos calados.
      A Bíblia relata o silêncio de Jesus em algumas ocasiões. Como sabemos que Ele nunca pecou, concluímos que Cristo calou exatamente quando devia. Certa vez, instigado pelo sumo sacerdote a se defender de falsas acusações, Mateus afirma que Jesus “guardou silêncio” (Mt. 26:62-63). Quando Pilatos lhe perguntou se não ouvia as acusações dos judeus, as Escrituras narram: “Jesus não respondeu nem uma palavra, vindo com isto a admirar-se grandemente o governador” (Mt. 27:14). Havia, inclusive, uma profecia sobre este momento do Messias: “Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca” (Is. 53:7).
    Há várias situações em que um cristão deve calar-se. Uma delas é mencionada pelo salmista Davi: “Disse comigo mesmo: guardarei os meus caminhos, para não pecar com a língua” (Sl. 39:1). Quantas conversas perniciosas já foram compartilhadas! Quantas palavras espúrias foram pronunciadas! Às vezes, falar pode trazer irritação, constrangimento ou incitar mágoa a outrem.
Muitas vezes, as palavras são apenas desnecessárias. Nunca esqueci o testemunho escrito pelo pastor Stephen Brown. Na primeira vez que teve que lidar com uma morte em sua congregação, ele passou por uma situação difícil. Preparou com cuidado as palavras para consolar a viúva. No entanto, ao chegar ao velório, esqueceu tudo. Tentou falar algumas palavras, mas fez tanta confusão que preferiu calar-se. Ficou, então, sentado no sofá, envergonhado e humilhado. Alguns dias mais tarde a esposa enlutada o procurou. Stephen começou a se desculpar, mas ela o interrompeu: “Pastor, quero agradecer-lhe tudo o que o senhor fez por mim. Não sei como poderia ter enfrentado tudo sem o senhor”. Com sinceridade, o pastor disse-lhe que não havia feito nada. Então, ela sorriu e disse: “O senhor esteve presente”.[2] Falamos, mas não somente com os lábios. Talvez, por isso a Bíblia diga: “seja pronto para ouvir, tardio para falar” (Tg. 1:19).
O silêncio também pode estar carregado de reverência. Ocorre quando estamos tão conscientes da presença de Deus que nos faltam forças e motivação para pronunciar qualquer palavra. O profeta Habacuque declarou: “O Senhor, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” (Hc. 2:20). Ficamos emudecidos perante a majestade divina. Reconhecemos nossa pequenez e Sua infinita grandeza. O sábio escritor de Eclesiastes afirmou: “Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra” (Ec. 5:2).
A.W. Tozer escreveu certa vez: “um progresso espiritual bem maior pode ser alcançado num curto momento de silêncio completo com temor diante da presença de Deus do que em anos de estudo, somente”[3]. Este silêncio não é o da frieza ou indiferença. Calamos não porque não temos nada a falar, mas porque não sabemos como expressar em palavras.



[1] Citado em PIPER. John, Completando as aflições de Cristo. São Paulo-SP, Shedd Publicações, 2010, p. 84.
[2] BROWN. Stephen. Quando a corda se rompe. Ed. Vida, 1990, p.91.
[3] Este mundo: lugar de lazer ou campo de batalha? Rio de Janeiro-RJ, Danprewans, 1999, p. 51.

Fonte: blog Graça e Saber (www.gracaesaber.com)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Um lançamento em boa hora


Sintonizado com as grandes transformações eclesiásticas vem o tema do novo livro de John Piper: Irmãos, nós não somos profissionais. Deve ser leitura obrigatória para os sérios seguidores do Rei. Os demais batem palmas, enquanto os "profissionais" atuam fazendo bobagens em nome de Deus e da Igreja. Ainda que eu defenda uma gestão profissional da área administrativa das igrejas, sem amadorismo, sem contorcionismo, sem nepostismo, sem improvisação, com transparência, com qualidade, com presteza, com moralidade, com economicidade, com ética, ainda assim, não somos profissionais!

É, com certeza, um novo livro com um novo debate. Irei comprar, ler, e depois posto minhas impressões.

Publicado originalmente em Reflexões Sobre Quase Tudo!