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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

AS OBRAS DE ARMÍNIO EM PORTUGUÊS



       Acabo de receber o esperado lançamento da CPAD, As obras de Armínio. Dividido em três volumes, a obra alcança mais de 1.500 páginas e é uma excelente oportunidade de conhecermos de primeira mão o pensamento do teólogo holandês Jacó Armínio (1560-1609), que ousou contestar o calvinismo, doutrina dominante na Europa, na época em que viveu.

       No primeiro volume (592p), há uma breve biografia do autor e a exposição de seu entendimento sobre doutrinas bíblicas clássicas, tais como: predestinação, providência divina, livre-arbítrio do homem, graça de Deus, perseverança dos santos, certeza da salvação, dentre outras. Suas opiniões sobre estes temas causaram grande controvérsia entre os calvinistas. No segundo tomo (464p), há a explanação sobre outros tópicos importantes da fé cristã, como por exemplo: perfeição das Escrituras, natureza de Deus, criação e ceia do Senhor. Finalmente, no último volume (487p), encontramos o debate escrito entre Armínio e o calvinista Francis Junius, professor da Universidade de Leiden, além de um exame sobre o tratado do puritano William Perkins sobre a predestinação.  


     Geralmente, os discípulos não repetem completamente os ensinamentos dos seus mestres. Eles os modificam por divergências pessoais, ou por fatores externos (políticos, sociais ou econômicos). Deste modo, muitos dizem que Calvino não é calvinista, assim como John Wesley, evangelista do séc. XVIII, não é wesleyano. Com a obra do teólogo holandês, lançada pela primeira vez no Brasil pela CPAD, poderemos, enfim, responder à pergunta: Armínio é arminiano? 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Algo muda no ano novo?


por George Gonsalves

                Um verso de uma das canções mais conhecidas da música pop mundial diz que “nada muda no dia de ano novo” (New Year’s Day – U2). No plano macro isto é verdade. A passagem do dia 31 de dezembro para o dia primeiro de janeiro é, em muitos aspectos um momento comum: a  Terra não se move mais rápido, as estrelas não brilham mais e as pessoas não ficam mais belas.

       Ocorre que, podemos nos beneficiar da criação cultural de zerar o calendário para refletirmos sobre muitas coisas em nossas vidas. Podemos, pois, nos lembrar das bênçãos que recebemos de Deus. Esta lembrança deve nos levar a uma vida de gratidão. Neste caso, precisamos estar cientes que nossa mente não abarca tudo o que o Senhor nos fez. Sua graça derramada a cada milésimo de segundo do ano que finda escapa à nossa memória e percepção. Devemos, ainda, corrigir nossos passos e colocá-los no caminho que Deus nos preparou.

           Algo pode mudar no dia de ano novo. Como disse o poeta: "É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre" (Carlos Drummond de Andrade).
            
              Feliz e santo ano novo!

sábado, 8 de novembro de 2014

Versos religiosos de Cecília Meireles



Cecília Meireles (1901-1964)
por George Gonsalves

      Hoje é o dia de nascimento de Cecília Meireles, talvez a maior poetisa brasileira. Se fosse viva, estaria completando 113 anos de idade.

      Recentemente, li uma antologia poética dela com poemas arrebatadores. Cito abaixo alguns versos religiosos desta obra.

"Vou pelo braço da noite,
levando tudo o que é meu:
- a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu".
(Assovio)

"...Sempre mais comigo
vou levando os passos meus,
até me perder de todo
no indeterminado Deus".
(Em voz baixa)

"Quando o tempo em seu abraço
quebra o meu corpo, e tem pena,
quanto mais me despedaço,
mais fico inteira e serena.
Por meu dom, divino faço
tudo a que Deus me condena".
(Canção)

"Pode ser que também Deus se aviste,
nessa imóvel transparência.
E pode ser que Deus aviste teu coração,
e saiba por que desceste
esses degraus de cristal que iam para tão longe".
(Metal Rosicler)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Jesus, inigualável


por George Gonsalves

Ninguém nasceu como Jesus: "Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco)" (Mt. 1:23).

Ninguém falou como Jesus: "Jamais alguém falou como este homem" (João 7:46).

Ninguém olhou como Jesus: "Então, voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera: Hoje três vezes me negarás, antes de cantar o galo. Então, Pedro, saindo dali, chorou amargamente" (Lc. 22: 61-62).

Ninguém curou como Jesus: "Desde que há mundo, jamais se ouviu que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença" (João 9:32).

Ninguém foi tocado como Jesus: "tendo ouvido a fama de Jesus, vindo por trás dele, por entre a multidão, tocou-lhe a veste. Porque, dizia: Se eu apenas lhe tocar as vestes, ficarei curada. E logo se lhe estancou a hemorragia, e sentiu no corpo estar curada do seu flagelo" (Mc. 5:27-29).

Ninguém amou como Jesus: "Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos" (João 15:13).

Ninguém viveu como Jesus: "Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca; pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente" (João 15:13).



Ninguém morreu como Jesus: "E Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito. Eis que o véu do santuário se rasgou em duas partes de alto a baixo; tremeu a terra, fenderam-se as rochas; abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos, que dormiam, ressuscitaram" (Mt. 27:51-52).

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

E a profecia sobre Marina Silva não se cumpriu



por George Gonsalves

Pois é, Marina Silva, a evangélica candidata a presidência da República, não foi para o segundo turno das eleições. Tudo bem, faz parte do jogo político. Ocorre, que alguns crentes "profetizaram" a sua vitória nestas eleições. Valnice Milhomens teria sido uma destas pessoas que afirmaram que Deus colocaria Marina no comando na nação brasileira, conforme vídeo que circula na internet.
Em primeiro lugar, destaco que creio na atualidade do dom de profecia. As Escrituras mostram que ela permanece em nossos dias. São corretas, pois, as palavras do teólogo Wayne Grudem: "Não há nenhuma razão para pensar que [a profecia] não continuará na igreja até Cristo voltar. Ela não ameaça as Escrituras nem compete com a Bíblia em autoridade; antes, está sujeita às Escrituras bem como ao julgamento maduro da congregação" (Teologia Sistemática - Ed. Vida Nova, 1999, p. 881). No entanto, corremos o risco de querer que Deus diga o que pensamos e queremos. Talvez, este seja o grande problema das "profecias" de nosso tempo. Muitos crentes se entusiasmaram com a possibilidade de ver mais um cristão na presidência (Café Filho e Ernesto Geisel foram os primeiros) e forçaram uma pseudo-profecia sobre este desejo. Mas, não posso afirmar que houve dolo neste fato.
Aliás, não somente os pentecostais estão sujeitos a erros semelhantes. Membros de igrejas tradicionais também são tentados a interpretar textos bíblicos conforme àquilo que já pensam e vivem. O homem reluta em admitir que precisa mudar, se arrepender. Por isso, é mais fácil "ajustar" a Bíblia à minha vida do que o contrário. Por isso, luteranos, calvinistas,  batistas, pentecostais e os demais grupos evangélicos/protestantes enxergam a sua igreja quando leem as páginas do Novo Testamento. Como disse o escritor francês Paul Bougert: “É preciso viver como se pensa, caso contrário se acabará por pensar como se tem vivido.” 
Precisamos entender, ainda, que o fato de um cristão chegar à presidência da República não significa que o Salmo 33:12 ("Feliz a nação cujo Deus é o Senhor") terá se cumprido. O texto não fala de que a nação será feliz quando houver um soberano temente a Deus, mas quando a nação de um modo geral servir ao Senhor. Por fim, é ingênuo pensar que alguém será um bom líder político por causa de sua fé. Alguém muito piedoso pode não ser um bom professor ou encanador. Mesmo porque a política exige uma comunhão com outros agentes, que não são necessariamente tementes a Deus. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Vai dar tudo certo...ou não


Natã e Davi
por George Gonsalves

Um querido irmão adoeceu gravemente há alguns meses atrás. Os exames apontaram para câncer no fígado, em estado avançado. Enquanto a igreja orava por ele, procurávamos os profissionais da saúde para prolongar sua vida. Então, um grupo de uma igreja que soube da sua enfermidade foi visitá-lo. Com confiança fizeram fervorosas orações e "profetizaram" que ele iria ficar curado. Dias depois, enterramos o nosso amado irmão.
Exemplos como esse se espalham no contexto religioso em que vivemos com espantosa rapidez. Basta alguém fazer uma prova em um concurso, colocar uma causa na Justiça ou fazer algum plano para as férias para ouvir a frase que é quase um mantra para muitos: "vai dar tudo certo".
Na verdade, não podemos falar do que não sabemos. Deus é quem governa todas as coisas. O nosso desejo ou pensamento positivo não alteram os desígnios do Senhor. Ariano Suassuna disse com razão: "O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso". O crente deve ser alguém que pede e espera de Deus, mas não determina o que Ele vai fazer. Deus é aquele que abre, e ninguém fecha; mas também fecha, e ninguém abre (Ap. 3:7).
De certo modo, tudo vai dar certo para àquele que teme ao Senhor, pois "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus" (Rm. 8:28). Mas isto não quer dizer que não tenhamos dissabores ou derrotas pela frente. Significa, no entanto, que nossos aparentes fracassos ou perdas redundarão (de uma maneira que talvez não possamos entender) em bençãos.     
Quando o profeta Natã ouviu de Davi o seu desejo de construir um templo para Deus, ele caiu na tentação de aprová-lo, sem consultar ao Senhor; Ele disse a Davi: "Tudo quanto tens no teu coração faze, porque Deus é contigo" (I-Crônicas 17:2). Ocorre que, na mesma noite, o Altíssimo se manifestou a Natã com as seguintes palavras: "Vai, e dize a Davi meu servo: Assim diz o Senhor: Tu não me edificarás uma casa para eu morar" (I-Cr. 17:4). Natã foi otimista, mas não sábio.
Portanto, se alguém revela um desejo e ouve inadvertidamente o decreto: "vai dar tudo certo"; podemos retrucar: "OU NÃO".

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Queria escrever...mas a tinta acabou


George Gonsalves

Dentre as folhas que se esparravam pela mesa, peguei uma e comecei a rabiscá-la, tentando definir a Deus:

Imutável
Incomparável
Infindável
Incompreensível
Indestrutível
Inquebrantável
Imbatível
Incansável
Indefectível
 Inefável
 Inominável
Indizível

Queria continuar a escrever...mas a tinta acabou.

sábado, 26 de julho de 2014

Stanley Horton, uma mente em chamas

Stanley Horton (1916-2014)
por George Gonsalves

Há alguns dias, no dia 12 de julho, o teólogo pentecostal Stanley M. Horton morreu aos 98 anos na cidade de Springfield, Missouri (EUA). 

Stanley Horton me fez lembrar um título de um livro do grande gênio cristão Blaise Pascal, editado e publicado pela editora Palavra: Mente em Chamas.

Rev. Horton recebeu sua formação educacional em grandes centros universitários americanos como Berkeley e Harvard. E ainda fez estudos complementares no New York Theological Seminary. Foi autor, colaborador e editor de inúmeras obras publicadas no Brasil como: Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal, 1995; O Que a Bíblia Diz Sobre o Espírito Santo, 1993 e reeditada como A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo TestamentoDoutrinas Bíblicas: Uma Perspectiva Pentecostal, 1995, com William Menzies; Isaías: O Profeta Messiânico, 2002; I & II Coríntios, 2003Comentário Bíblico- Apocalipse, todos publicados pela CPAD e O Livro de Atos, 1993, publicado pela Editora Vida.

Tinha, portanto, uma mente potente. Mas não apenas isso. Sua mente parecia inflamada por Deus. Sua intenção era devotar seu conhecimento à causa do Evangelho. Ele era de uma família importante no movimento pentecostal. Seus avós maternos, Elmer Kirk Fisher e Clara Daisy Sanford, participaram diretamente do histórico Avivamento da rua Azuza em 1906. Ele, então, continuou a ser alguém a divulgar a atuação do Espírito Santo em seu tempo.

Precisamos de homens como Horton. Pessoas que não "se estribem em seu conhecimento", que não se vangloriem de seus diplomas, mas que busquem a sabedoria do alto e que consagrem sua mente ao Senhor. Em minha vida vi muitos membros da igreja entrarem na universidade e, depois de algum tempo, se tornarem pessoas orgulhosas e espiritualmente frias. Urgentemente devemos pedir que Deus nos dê mentes em chamas.

terça-feira, 24 de junho de 2014

O cristão pode ser patriota?


por George Gonsalves

Certa vez, tomado de grande amor por sua terra natal, o escocês John Knox (1514-1572) clamou a Deus: "Dá-me a Escócia, senão eu morro". O próprio apóstolo Paulo falou assim de seu povo: "porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne" (Rm. 9:3). Sendo assim, até que ponto o cristão pode ser devotado à sua pátria, ao seu povo?
  
A resposta talvez pudesse ser resumida assim: pode, até o ponto do homem não pecar contra Deus e seu próximo. Podemos e devemos amar nosso chão e nosso povo, mas devemos nos lembrar que Cristo morreu por pessoas de "todas as línguas, povos e nações". Nosso país não é o mais importante do mundo e também não é o preferido de Deus. O amor à pátria pode, também, ser idolátrico.

Na história da igreja uma das grandes manchas é o divisionismo, e um dos seus maiores propulsores foi o nacionalismo. Em sua obra clássica, As origens das denominações cristãs, Richard Niebuhr afirma que: "as igrejas étnicas e nacionais são manifestações adicionais da vitória da consciência social divisiva sobre o ideal cristão de unidade" (p. 71). Assim, inúmeras pessoas se agruparam em igrejas que não estavam unidas apenas por uma mesma fé, mas por laços culturais territoriais. Daí o surgimento de igrejas como: Batista Alemã, Ortodoxa Grega, Ortodoxa Russa, Luterana Norueguesa, Evangélica Luterana Dinarmaquesa, dentre outras. 

O pior se dá quando cristãos justificam pecados pelo amor à pátria. Alguns são declaradamente contrários a imigrantes e, inclusive, lutam em guerras sangrentas contra irmãos de outros povos. Não foi esse patriotismo que motivou as declarações de Knox e Paulo que lemos no início deste texto. Estes crentes estavam movidos por um amor sacrificial pelo seu povo. Isto não os levava a ignorar ou perseguir pessoas de outras nacionalidades. John Knox, por exemplo, serviu a irmãos na Suiça e Paulo foi simplesmente o "apóstolo dos gentios", pregando a inúmeros povos, dos romanos aos gregos.     
 
Por isso, concluo dizendo: cristãos brasileiros, amemos nossa pátria e oremos pelo nosso povo, não porque "nossos lindos campos têm mais flores" ou "nossos bosques tem mais vida", mas porque Deus ama esta gente, a nossa gente.

sábado, 26 de abril de 2014

A palavra "Deus" é banida de filmes da Disney



por George Gonsalves


"Julgai todas as coisas, retende o que é bom".
I-Tes. 5:21

A palavra "Deus" foi banida de filmes da Disney, afirmou a dupla que ganhou Oscar este ano de melhor canção original (“Let it go”), do filme FrozenO casal Robert Lopez e Kristen Anderson-Lopez disse em entrevista à rede norte-americana NPR (National Public Radio) que "um dos poucos temas que são encarados com reserva na Disney são relacionados à religião”.


A afirmação não chega a surpreender. Vários sites evangélicos tentam mostrar mensagens subliminares diabólicas nos filmes da Disney. Lembro-me de ter visto há alguns anos uma mensagem do pastor Josué Yrion, que trata do mesmo assunto.
Independentemente da verdade ou não sobre as mensagens ocultas nos desenhos (tenho algumas dúvidas), a revelação de hoje soa muito estranha. Em um mundo em que se defende a conservação das matas, a proteção às baleias e aos ovos de tartaruga, a proibição da palavra "Deus" nos desenhos parece demonstrar uma forte aversão aos temas religiosos.  

De minha parte, prefiro analisar as coisas que estão postas explicitamente. Sabemos que a arte (filmes, desenhos, livros, música, pintura, etc.) não é neutra. Todo autor tem uma ideia e quer transmiti-la através de seus talentos. Certo dia, vi um episódio do "Pica-pau" que incentiva o suicídio na velhice. Precisamos, como cristãos, examinar as coisas à luz da Palavra de Deus. Como pais, temos o dever de sermos criteriosos quanto aquilo que nossos filhos irão assistir, a fim de que não sejam influenciados por mensagens contrárias aos princípios cristãos.

Felizmente, várias obras de autores que tentam abordar valores bíblicos em seus livros, como C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien, têm sido traduzidas para o português e adaptadas para o cinema: Crônicas de Nárnia, Senhor dos AneisO hobbit. São boas indicações para crianças e adultos.  

terça-feira, 15 de abril de 2014

O "Judas" que há em nós

A captura de Cristo, de Caravaggio ou de um dos seus discípulos

por George Gonsalves

"Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?"
Jeremias 17:9

Em nosso país ainda há o costume de queimar bonecos que representem Judas Iscariotes na época da "semana santa". Neste ato, parece-me que muitas pessoas identificam o ato do apóstolo que traiu Jesus, como o mais vil e condenável que alguém poderia ter cometido. Não nego esta afirmação. A traição de Judas foi de fato um pecado gravíssimo contra Deus.

Contudo, muitos dos pecados que ele cometeu dele também rondam o nosso coração. Não estamos imunes às tentações pelas quais ele passou. Precisamos desesperadamente da graça divina para resistir ao "Judas" que há em nós. Podemos trair a Cristo de várias maneiras maneiras, inclusive, algumas bastantes sutis. 

Por exemplo, traímos a Jesus quando:

Preferimos a aprovação dos homens a de Deus; 
Guardamos para nós dinheiro que deveria ser dado para a obra do Senhor ou para o próximo; 
Nos  acovardamos diante das pressões de um mundo imoral;
Desperdiçamos o escasso tempo que temos com futilidades;
Nos omitimos na defesa de pessoas claramente injustiçadas;
Aceitamos para nós a glória que é devida somente a Deus;
Nos orgulhamos daquilo que fizemos;
 Nos envaidecemos de nossa pretensa beleza, intelectualidade ou santidade;
Murmuramos porque não temos o que queríamos, ao invés de agradecer pelo que temos; 
 Não cuidamos dos fracos e doentes que cruzam o nosso caminho;
Guardamos mágoa em um coração que deveria perdoar; 
Negligenciamos a igreja amada por Deus;
Não meditamos nas Escrituras de modo reverente; 
Não adoramos como convém Aquele que é digno de todo louvor e adoração;
Desejamos mais a dádiva do que o Doador.

sábado, 29 de março de 2014

Estamos moralmente anestesiados?


Foto tirada durante a Marcha da Família em 22/03/2014.
                Por George Gonsalves

Ligamos a televisão ou abrimos o jornal e ouvimos notícias de crimes bárbaros dia após dia. Percebemos ao nosso redor famílias se deteriorando: pais omissos, filhos rebeldes, maridos e mulheres adúlteras. Convivemos com a corrupção quase generalizada na sociedade através de alguns tipos: o empresário que sonega impostos, o fiscal que cobra propina, o estudante que cola na sala de aula, o funcionário (público ou não) que faz corpo mole no trabalho, pessoas que furam as muitas filas do dia. Qual o impacto de tudo isso na nossa vida?
     Recentemente, ouvi um pesquisador falando sobre a violência no Brasil. Seu diagnóstico: estamos vivemos um período de anestesia moral, semelhante ao que a Europa viveu após a Segunda Guerra. Naquela época, depois de verem com os próprios olhos inúmeras atrocidades nunca antes imaginadas, os europeus ficaram menos sensíveis ao pecado. Estaremos vivendo algo semelhante no Brasil? De que modo isto afeta a igreja?
      Obviamente, a igreja não está imune aos males sociais, pois como dizia o poeta: “nenhum homem é uma ilha”. Devemos lutar para que não passemos a achar normal àquilo que se tornou comum. Quando Jesus percebeu que o templo havia se transformado em lugar de negócios, ele se irou. Um texto resumiu seu sentimento: “O zelo da tua casa me consumirá” (João 2:17). Ao entrar em Atenas, o espírito do apóstolo se revoltou em face da idolatria dominante na cidade (At. 17:16).
      Lutemos contra a anestesia moral em nossos corações. Não deixemos de nos indignar com o mal na sociedade e que atinge a igreja. Não consideremos normal o divórcio entre cristãos, a apropriação dos bens da igreja pelos pastores, a sensualidade que anda disfarçada de liberdade, a avareza que se mascara de prosperidade espiritual, o orgulho religioso que quer parecer fé. Cumpramos a advertência bíblica: “exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado” (Heb. 13:3).   

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Coisa de Deus, coisa do diabo



por George Gonsalves

Muitos cristãos dividem as coisas (e as pessoas) muito facilmente entre pertencentes a Deus ou ao diabo. É uma maneira simplista de enxergar o mundo. Nesta perspectiva existem músicas e livros de Deus, compostos por cristãos, e músicas e livros diabólicos, produzidas por ímpios. Reuniões são de Deus quando prescritas claramente na Bíblia: cultos, ceia do Senhor, batismos. E são do diabo as demais: aniversários, festas de formatura, ceias de natal, etc.
O problema é que, desta forma, corremos o risco de santificar o que não é espiritual e de demonizar aquilo que é sagrado. Usurpamos uma posição que não nos cabe. Passamos a falar de coisas que, em última instância, só Deus pode saber.  
Tomemos como exemplo a música. Havia um tempo em que pensava que tudo o que fosse produzido por um cristão era espiritual. Música boa era música evangélica. Havia dois erros na minha perspectiva. Primeiramente, não podemos saber se aquilo que cantamos foi composto por genuíno crente. Só Deus conhece verdadeiramente os seus. Em segundo lugar, há cristão sinceros que produzem música ruim e que não são "espirituais". Muitos cânticos que são entoados nas igrejas são pobres de conteúdo e biblicamente equivocados. Os autores podem até ser crentes, mas o que eles produzem simplesmente não edifica. 
Na introdução do livro Cristo e Cultura, o teólogo Michael Horton afirma que "música cristã" é: "frequentemente uma desculpa para artistas inferiores conseguir vencer numa sub cultura cristã que imita o brilho e glamour do entretenimento secular, inclusive suas próprias cerimônias de premiação e seu ambiente de super estrelato. Pode ser que essa não seja a intenção por parte de muitos artistas que querem contribuir ao cenário da música cristã contemporânea, mas a indústria acaba produzindo, na maioria, imitações nada criativas, repetitivas, superficiais da música popular. Produzir música em conformidade com os gostos anestesiados duma cultura consumista já é ruim; imitar a arte comercializada é desperdiçar os talentos, a não ser que se esteja escrevendo para o rádio e a televisão. Trivializa tanto a arte quanto a religião". 
Em contrapartida, há músicas que saíram da pena de pessoas que não abraçam a fé cristã, mas que conseguem transmitir beleza e verdade. Do mesmo modo, há livros de não cristãos que nos trazem valiosas lições. Não é preciso ser crente para falar verdades. O próprio apóstolo Paulo em sua pregação em Atenas citou um poeta pagão para ilustrar um verdade bíblica (At. 17:28). Por isso, os puritanos do século XVII afirmavam: "Toda verdade é verdade de Deus". Charles Chauncy afirmou: "Quem pode negar que se encontram muitas excelentes e divinas verdades morais em Platão, Aristóteles, Plutarco, Sêneca, etc?"  (em Santos no Mundo - os puritanos como realmente eram. Leland Ryken. p. 179). 
Obviamente, não quero negar a influência maligna nas artes. Apenas alerto para o fato de que devemos ter discernimento para percebermos a beleza de Deus de forma mais plena no mundo e para descartarmos o profano travestido de sagrado.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Verdades bíblicas para 2014


por George Gonsalves

      Alguém já disse que a Bíblia é mais atual que o jornal de amanhã. É verdade. Portanto, esqueça as previsões de búzios e de astrólogos. Consulte as palavras da Escritura para o próximo ano:

O mundo continuará mal: "...nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores..." (II-Tim. 3:1-5);

A igreja avançará contra as obras do mal: "Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt. 16:18);

Deus continuará operando: "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também" (João 5:17);

Os crentes estarão protegidos pela mão de Cristo: "As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão" (João 10:27-28);

Poderemos ser mais santos: "...crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (II-Ped. 3:18);

A volta de Jesus estará mais perto: "Ficai também vós apercebidos, porque, à hora em que não cuidais, o Filho do Homem virá" (Lc. 12:40).


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Mandela, homem de outro tempo

Nelson Mandela (1918-2013)
  Por George Gonsalves

Sou um privilegiado. Vivi na mesma época em que também viveu Nelson Mandela. Dizem que os homens só se tornam célebres quando morrem e, às vezes, muito tempo depois. Assim, Leonardo da Vinci não era considerado um gênio tão grande em vida. Também  Beethoven não era sinônimo de música clássica no início do século XVIII. Mas com Madiba, como era conhecido, foi diferente. Mesmo vivo, ele foi reconhecido com um dos grandes homens dos séculos XX/XXI. Daqui a cem anos ainda se falará dele, mas a morte não o elevou a um patamar maior do que àquele que ele alcançou em vida.
     Contudo, chego a pensar que Mandela é um homem de outro tempo. Numa época em que o mundo cultua celebridades vazias e proclama a vingança como virtude; em tempos em que pessoas não são capazes de sequer sofrer por aquilo que mais acreditam e que líderes políticos só pensam em se locupletar, eis que viveu Mandela. Nascido e forjado para o ódio e a vingança, soube “relevar”, como ele mesmo disse. Não temeu morrer para ver o ideal de uma nação em que a cor da pele não decidiria o futuro dos homens. Depois, não usou o poder para destruir os que o odiavam.
      Esta noite poderei dizer aos meus filhos que há mais do que gente mesquinha, covarde e vingativa no mundo. Poderei dizer que os homens aplaudiram Mandela, não por suas façanhas esportivas ou mesmo artísticas, mas porque ousou pregar o perdão em uma terra de guerra. Ele faz nos lembrar de outro homem que, como Mandela, nasceu em um lugar pobre (Belém) e em conflito, anunciou o perdão de Deus aos homens e nos ensinou a perdoar-nos uns aos outros. Deste, o mundo precisará muito mais.


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Para ler no natal

Por George Gonsalves

Está chegando o natal! Ótimo momento para leitura. Vale a pena separar um tempo na correria do fim de ano para leituras edificantes. Indico algumas páginas sobre o natal que me fizeram refletir nos últimos anos: 

MATEUS 2:1-12 e LUCAS 2:1-20
      Evidentemente, a leitura dos evangelhos está em um nível completamente diferente de importância. Trata-se da narrativa do próprio Deus sobre a vinda de Cristo ao mundo. Em Mateus, temos a narrativa da enigmática visita dos magos ao menino Jesus, os quais foram guiados por uma estrela.
       Em Lucas, lemos a mais detalhada narrativa sobre o nascimento de Jesus: desde o anúncio dos anjos aos pastores, até a visita destes à manjedoura. O trecho é um dos que mais amo da Bíblia.
        A leitura destes textos é suficiente para plena edificação da alma na época natalina.     

A POESIA DO NATAL - ANTOLOGIA 
Autores: vários

     Organizado por Sammis Reachers, trata-se de uma antologia de poemas natalinos escritos por autores evangélicos brasileiros e portugueses como Gióia Júnior, Joanyr de Oliveira e Israel Belo de Azevedo. Tive a honra de ter um poema de minha autoria incluído: Noite de natal, noite sem igual.
     Encontramos nestes versos um pouco da essência do natal para um cristão: um momento para refletirmos sobre o significado da encarnação de Jesus. Encontra-se disponível para baixar gratuitamente em:


UM CÂNTICO DE NATAL
Autor: Charles Dickens
       Escrito por um dos maiores romancistas ingleses, a obra traz a história de Ebenezer Scrooge, um velho avarento e que odeia o natal, mas que é levado a repensar suas atitudes ao se encontrar com o espírito de seu falecido amigo.
Talvez uma palavra que descreva bem o livro é redenção. As vívidas cenas das famílias reunidas na noite de natal me tocaram profundamente.

CARTAS NATALINAS
Autor: Rainer Maria Rilke

       

        O livro reúne cartas que um dos maiores poetas alemães, escreveu para Sophie, sua mãe, de 1900 a 1925. As linhas são belas: cheias de ternura e fé. Na carta escrita em 1910, Rilke diz: “isso é Natal, sentir no peito uma vez ao ano a expectativa, a esperança inabalável, de que o adulto, ora vigorando em nós, nos quer surpreender, não um pouco, não, muito, com o infinito”.



MISTÉRIO DE NATAL
Autor: Josten Gaarden
         Bela fábula contada pelo autor de O mundo de Sofia. Através de um calendário mágico há uma viagem no tempo e no espaço até chegar ao dia e lugar onde Jesus nasceu. Li no ano passado com meus dois filhos, e viajamos juntos nesta interessante história.    

A ÁRVORE DE NATAL NA CASA DO CRISTO
Autor: Dostoievski
             Emocionante. Li este pequeno conto há vários anos e nunca o esqueci. O grande escritor russo faz uma denúncia social sobre a desigualdade entre os homens, ao mesmo tempo em que nos faz pensar sobre a providência e o amor de Deus, muitas vezes ocultos aos nossos olhos.    

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Pobre felicidade



por George Gonsalves

A foto acima é ilustrativa de um conceito moderno de felicidade. Um homem consegue ser um dos primeiros compradores de um smartphone de última geração, destes que serão parafernálias ultrapassadas no verão seguinte. Uma definição atual de bem estar poderia ser expresso assim: “feliz é quem pode comprar”. Ou seja, é a vitória do “ter” sobre o “ser”.   
     Segundo o historiador Georges Minois, o mercado e os Estados procuram levar as pessoas a pensarem que o consumo as fará realizadas: "A finalidade é formar um cidadão feliz o bastante para comprar e convencido de que será ainda mais feliz graças a suas compras".[1] Muitos cristãos embarcaram nessa falácia, a ponto de existir até uma “teologia” da prosperidade. Haveria uma mudança apenas sobre o meio de se receber os bens. No caso do crente, Deus seria o “canal” para o recebimento de bençãos materiais. O fim é o mesmo.  
      Não pretendo aqui fazer um protesto contra a sociedade de consumo, embora há críticas importantes a se fazer a ela: individualismo, superficialismo, materialismo, etc. Também não quero negar que Deus abençoe materialmente seus servos, embora precisemos saber que somos mordomos, e não donos do que recebemos. O que quero enfatizar é que o Senhor pode nos alegrar mais com Sua presença do que com coisas materiais. Nenhum pai idôneo gostaria que seu filho preferisse ganhar brinquedos a estar consigo. Nosso clamor deveria ser o do salmista: “Tu és o meu Senhor; outro bem não possuo, senão a ti somente” (Salmo 16:2), ou ainda o de Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta” (João 14:8).      
    O que buscamos para sermos felizes? O que tem mais nos alegrado ultimamente? Estamos satisfeitos com Deus, independentemente de nossa conta bancária? Ele nos basta? O que pedimos mais a Ele? Nossos maiores sonhos são de consumo? Estas são perguntas que podem ser constrangedoras para muitos.
Na verdade, tendo a Deus Todo-poderoso como pai, corremos o risco de nos conformamos com pouco, apenas com aquilo que o mundo pode dar. Mais do que nunca me parece atual a reflexão de C.S. Lewis feita há mais de cinquenta anos: "se analisarmos as audaciosas promessas de galardão e a natureza surpreendente das recompensas prometidas nos Evangelhos, pareceria que Nosso Senhor considera nossos desejos não muito fortes, mas muito fracos, isto sim. Somos criaturas sem entusiasmo, brincando feito bobos e inconsequentes com bebida, sexo e ambições, quando o que se nos oferece é a alegria infinita."[2]

Publicado originalmente no blog Graça e Saber.


[1] A Idade de Ouro - História da busca da felicidade. São Paulo: Ed. Unesp. 2011 p. 406.
[2] O peso de glória. São Paulo: Ed. Vida. 2008, p. 30

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O ateu que queria ser pastor


por George Gonsalves

   Há alguns anos conheci um jovem (vou chamá-lo de Sérgio) que demonstrava temor a Deus. Gostava de ajudar as pessoas, era dedicado ao evangelismo e frequente às reuniões da igreja. Certo dia, enquanto fazíamos um trabalho evangelístico, ele disse-me que tinha vocação para o ministério pastoral. Fiquei feliz ao ouvir tal declaração de alguém que tinha cerca de quinze anos de idade.
   O tempo passou. O jovem se tornou adulto e começou a frequentar um curso universitário. Era o orgulho de seus pais. Contudo, notei que seu fervor começou a declinar. A maior prova de seu esfriamento espiritual era sua apatia ante os problemas dos outros. Passou a viver uma vida descompromissada e vazia. Suas prioridades e amigos mudaram. Passou também a dar desculpas esfarrapadas para não se envolver em atividades de aconselhamento ou evangelísticas.   
   Chamei, então, seu pai (que era cristão) para conversar. Disse-lhe como estava percebendo o seu filho. Ele parecia tão encantado com o desempenho intelectual do seu rebento que pareceu não levar muito a sério minhas palavras. Conversei também com Sérgio. Tentei mostrar-lhe que estava em decadência espiritual e que estava muito fascinado com o seu mundo atual. Ele parecia distante. Minha surpresa maior se deu quando lembrei-o do seu antigo desejo de ser pastor. Ele, simplesmente, disse que não se lembrava disso.
   Mais tempo passou e acabamos por nos separar. Ele foi para outra cidade, prosseguiu nos estudos e chegou a fazer mestrado. Recentemente, soube que ele agora se declara ateu. Apesar da tristeza que senti, não cheguei a ficar surpreso.
    A vida espiritual inclina nossos pensamentos para um lado ou outro. Antes da descrença, ocorre um afastamento de Deus. O esfriamento do coração precede ao da mente. O filósofo Blaise Pascal afirmou: "Quase que invariavelmente as pessoas formam suas crenças não baseadas nas provas, mas naquilo que elas acham atraente". Crer no Deus cristão leva o homem a determinadas responsabilidades. Jesus mesmo nunca omitiu dos seus possíveis seguidores o compromisso que requeria deles: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me (Mt. 17:24). Se alguém não estiver disposto a pagar o preço, talvez possa começar a pensar que ele nem mesmo exista. Este comportamento foi expresso de forma brilhante pelo escrito francês Paul Bourget (1852-1935): “É preciso viver como se pensa, caso contrário se acabará por pensar como se tem vivido”.
   Não estou advogando aqui que não haja argumentos intelectuais para o ateísmo. Ocorre que muitas vezes esta opção está ligada a um anseio de liberdade e independência. O ateu se sente livre das amarras de um Deus soberano e juiz dos seus atos. Na verdade, nenhum homem é plenamente livre. Somos escravos de Deus, dos homens ou de nossas próprias e toscas ambições. O crente não sente nenhum constrangimento em chamar a Deus de seu Senhor. Gênios do porte de Isaac Newton, Faraday, Bach, John Milton e Francis Collins comprovam que a fé não tolhe a capacidade criativa do homem.
   A verdade é que confiamos em quem amamos. Quanto mais estivermos em comunhão com Jesus mais confiaremos nas suas palavras. Talvez ninguém tenha dito isto de forma mais enfática do que Dostoiévski. Escrevendo a um amigo, ele disse: “Amo tanto a Cristo, que se me provarem que Cristo está contra a verdade, fico com Cristo”.  

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O povo está na rua. E a igreja?

      
Brasília-DF, 17/06/2013

“A justiça é o amor corrigindo tudo aquilo que revolta contra o amor”
                                                                                   Martin Luther King

por George Gonsalves

O Brasil está pegando fogo! O povo brasileiro, costumeiramente chamado de acomodado e conformado, está nas ruas. É verdade que se trata de uma parcela apenas, na sua esmagadora maioria, jovens. Também é verdade que as reivindicações são fluidas: diminuição das tarifas de transporte público, melhoria na educação e saúde, reclamação sobre gastos com a copa do mundo, diminuição de impostos, rejeição da PEC 37 (que limita a atuação do Ministério Público), etc e etc. E, finalmente, há um grupo de baderneiros e vândalos infiltrados entre os que protestam legitimamente. Mas, não devemos ignorar o anseio de mudanças que vem das ruas. E a igreja? Onde está? Como ficam aqueles que são chamados para ser luz para este mundo?       
    O cristão deve ansiar por justiça social, porquanto Deus é justo. No Antigo Testamento o salmista revelou o olhar de Deus sobre a opressão dos poderosos contra os pobres: “Por causa da opressão dos pobres e do gemido dos necessitados, eu me levantarei agora, diz o Senhor; e porei a salvo a quem por isso suspira” (Salmo 12:5). Os profetas também alertaram: “Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo, a fim de despojarem as viúvas e roubarem os órfãos!” (Is. 10:2). O Novo Testamento também ecoa a voz de denúncia de opressão. Tiago afirma que os clamores dos trabalhadores injustiçados “penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos” (Tg. 5:4).  
    No decorrer da história a igreja sempre teve voz profética, denunciando as mazelas morais e sociais do mundo. Os anabatistas denunciaram o autoritarismo dos sacerdotes e príncipes no século XVI. Os quakers condenaram o abismo social na Inglaterra do séc. XVII. Os ingleses John Wesley e William Wilbeforce lutaram contra a escravidão no século XVIII. O alemão Bonhoeffer morreu em um campo de concentração por combater o nazismo. E no século XX, uma das vozes mais marcantes em favor dos direitos civis foi a de um pastor: Martin Luther King. Sua voz e seus atos (sempre de não-violência) despertaram uma nação. Ele tinha um sonho: um país de negros e brancos que caminhavam e sentavam juntos. Por causa deste ideal ele foi morto, porém se colocou como alguém que clama por justiça. Certa vez, King afirmou em um discurso: “Não, não, não estamos satisfeitos e nunca o estaremos até a justiça deslizar como a água e a retidão como uma corrente poderosa”.[1]
    A igreja não deve se omitir, se esconder dentro de seus templos, enquanto a corrupção e a injustiça sufocam o nosso semelhante. Mas, devemos pedir direção ao Senhor sobre a melhor maneira de nos expressarmos, considerando que repudiamos atos de violência e vandalismo. Não devemos esquecer que toda boa dádiva vem do Pai das luzes. A Ele devemos clamar.
   Além disto, precisamos ter em mente que a mudança deve começar em cada um de nós. Para clamar por justiça, devemos ser justos; reclamar da corrupção, devemos ser honestos; pedir melhoria na saúde, devemos não sujar locais públicos, nem nos enchermos de álcool. Não podemos mudar o mundo, senão a nós mesmos. Como disse Ellul: "nós não temos que trabalhar, nos esforçar para que a justiça reine sobre a Terra: temos que, nós mesmos, sermos justos, portadores da justiça"[2].   
   A igreja evangélica na antiga Alemanha Oriental, nos deu um belo exemplo. ainda nos anos do comunismo. Philip Yancey conta que, durante o ano de 1989, quatro igrejas em Leipzig estavam organizando reuniões de oração. No início poucos se reuniam, doze no máximo. Depois de cada reunião, grupos de cristãos saíam pela cidade segurando velas e faixas em marchas pacíficas. Apesar da repressão policial, as multidões se formaram.
   No dia 9 de outubro, em meio a uma ameaça de massacre pela polícia, 70 mil pessoas marcharam pacificamente pelo centro de Leipzig. Uma semana depois 500 mil apareceram. O presidente Erich Honecker renunciou. No início de novembro, quase um milhão de pessoas marcharam através de Berlim oriental. Uma revolução poderosa, mas pacífica, estava em curso. Dias depois, o muro de Berlim veio abaixo. Nenhum tiro foi dado; nenhuma vidraça quebrada. Um jornal relatou: “As orações podem ou não mover montanhas, mas certamente mobilizaram a população de Leipzig”. Semanas após, uma faixa apareceu numa rua da cidade: “Wir danken Dir, Kirche” (Nós te agradecemos, Igreja)[3].   
                   






[1] SITKOFF. Harvard. Peregrinação ao topo da montanha. Lisboa. Editorial Bizâncio, 2009. p.147.
[2] ELLUL. Jacques. Cristianismo revolucionário. Brasília. Ed. Palavra, 2012, p. 68.
[3] YANCEY. Philip. Descobrindo Deus nos lugares mais inesperados. São Paulo. Mundo Cristão, 2005, p. 175/176.