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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Vital Brazil - Da herança na Ciência aos herdeiros na fé



Texto de Noemi Vieira. Colaborou com a apuração pastor Ronan Boechat de Amorim

Ele já trabalhou como condutor de bonde, tipógrafo, escrivão da polícia e, segundo uma de suas filhas mais novas, Eliá Brazil Protásio, chegou a dizer que gostaria de fazer Engenharia Civil. Mas sua colaboração para a humanidade estava na área das ciências biomédicas. Filho de José Manoel dos Santos Pereira Júnior e Mariana Carolina dos Santos Pereira, Vital Brazil Mineiro da Campanha foi um dos médicos e cientistas mais importantes para história da saúde pública no país, em tempos que a peste bubônica assolava o mundo e saneamento básico nas grandes cidades era artigo de luxo.
Apesar de todas as conquistas, Vital teve muitas dificuldades para se tornar um uma referência nas ciências biomédicas. Como sua família era pobre, as chances de se tornar médico na sociedade do Império eram praticamente nulas. Geralmente, os estudantes de medicina no Brasil eram oriundos de famílias ricas, dado ao alto custo do curso. 
A família de Vital não tinha condições de bancar sua faculdade. Seu pai, José Manoel, trabalhava de caixeiro viajante para sustentar a família. Foi essa profissão, inclusive, que levou a família de Vital Brazil a percorrer diversas cidades do estado de Minas, até se estabelecer definitivamente em Caldas. Nessa cidade que Vital teve o início de sua formação educacional e religiosa, fundamentada no cristianismo.

Ao chegar em Caldas, José Manoel conheceu um pastor presbiteriano e se converteu ao Evangelho. O pai de Vital Brasil conseguiu apoio da igreja e colocou o filho no Colégio Morton. Depois de algum tempo, José Manoel o matriculou no curso para formação de ministros. Mas, fato é que Vital Brazil teve de trabalhar duro para pagar seus estudos básicos em São Paulo e, posteriormente, a faculdade de medicina no Rio de Janeiro. Depois de algum tempo formado, Vital foi à França ampliar seus estudos de laboratório, em Paris.
A formação religiosa no Colégio Morton e na missão para ministros proporcionou a Vital um profundo conhecimento bíblico, que foi repassado para os filhos ao longo de toda a sua vida. Eliá Brazil conta que Vital sempre ensinou os princípios cristãos para a família. “Meu pai cultivava o hábito de fazer culto doméstico”, relembra.
Apesar de sua convicção de fé, Vital Brazil teve dificuldades em permanecer membro da igreja presbiteriana, dado à sua dedicação ao trabalho como médico e pesquisador. “Ele fazia experiências no domingo, faltava cultos, tinha que sacrificar animais por causa de suas experiências, e o pastor não aceitava isso”, conta Eliá, acrescentando que, por essas razões, a liderança da igreja resolveu excluí-lo da membresia. Com a expulsão, Vital tornou-se um “livre pensador” que lia a Bíblia, cria em Deus e mantinha uma vida de oração. Quanto a seus filhos, Vital Brazil os ensinou freqüentar a Escola Bíblica Dominical desde a mais tenra idade.
Resultado: a semente do evangelho ficou plantada na vida dos filhos e netos. Alvarina Brasil Esteves, uma de suas filhas mais novas, continua freqüentando a presbiteriana até hoje, na cidade de São Paulo. Suas filhas (netas de Vital) fazem parte do Exército da Salvação. Hoje, Eliá Brazil é membro da Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro e sua tia, Dinorá Vital Brazil, que a levava para a igreja quando pequena, foi membro da igreja Metodista até sua morte. Ela foi também professora e diretora do Bennett.
O Vital nunca freqüentou a igreja Metodista. Mas, Eliá, suas filhas mais velhas, duas irmãs e alguns de seus sobrinhos estudaram no Bennett. Eliá fez o ginásio no Bennett e suas filhas mais velhas fizeram até o ensino médio.
Eliá conta que, apesar de todo o conhecimento científico deixado por Vital para as ciências biomédicas, o maior tesouro que guarda do pai é seu caráter de homem íntegro. “Ele não aceitava mentira, sempre esteve do lado da justiça e da verdade e ensinou isso a todos os filhos”, revela Eliá.


Referência na Saúde Pública
Contemporâneo de Oswaldo Cruz, médico responsável pela educação sanitária do Brasil no início do século 20, Vital trabalhou como médico na Força Pública e no Serviço Sanitário em São Paulo e, mais tarde, na cidade de Botucatu. Como servidor público, Vital chefiou a comissão sanitária em Cachoeira, no vale do Paraíba, durante as epidemias de febre amarela, cólera e varíola que assolavam a região. Também combateu a peste bubônica na cidade de Santos, contraindo doença durante o trabalho, que quase lhe custou a vida.

Nascido em 28 de abril de 1865, em Campanha, Minas Gerais, Vital Brazil também foi responsável pela descoberta das vacinas antiofídicas no país. Suas observações quanto aos acidentes causados por serpentes venenosas, em Botucatu, o estimulou a estudar sobre o assunto, abandonando a clínica para trabalhar no Instituto Bacteriológico de São Paulo, hoje Instituto Adolfo Lutz.
Vital se tornou conhecido por causa da sua dedicação à saúde pública e aos estudos experimentais que significavam o começo das pesquisas no Brasil. Sua fama contribuiu para que fosse chamado pelo governo do Estado de São Paulo para ajudar a criar um Instituto Soroterápico que produzisse soros e vacinas que combatessem as epidemias que assolavam a população. Foi nessa época que surgiu o Instituto Butantã, em São Paulo, logo após suas primeiras observações.
Durante esse tempo, Vital descobriu um soro contra os venenos de cascavel e jararaca, as duas espécies que mais faziam vítimas, e, posteriormente, aceitou o desafio de produzir antiofídico já no cargo de diretor do Instituto Butantã.
Vital dirigiu o instituto por 20 anos e o transformou numa referência mundial quanto ao combate de mortes por envenenamento.
Atualmente, o instituto desenvolve estudos e pesquisas na área de Biologia e de Biomedicina, relacionadas com a saúde pública. Também produz vacinas e soros para uso profilático e curativo. Realiza missões científicas no país e no exterior. Além disso, o Butantã colabora com órgãos da Secretaria da Saúde e do Ministério da Saúde no combate a surtos epidêmicos, além de realizar cursos especiais e publicações sobre suas áreas de atuação, que são oferecidos a empresas, estudantes, militares e à população em geral.
Depois de deixar a direção do Butantã – por questões políticas – Vital foi convidado pelo Estado do Rio de Janeiro para fundar o Instituto Vital Brazil, em Niterói, em 1919, no qual permaneceu trabalhando até sua morte. Hoje, o instituto que leva seu nome tornou-se um grande centro de pesquisas, de ensino, desenvolvimento e Produção de imunobiológicos, medicamentos, insumos e tecnologia para saúde.

terça-feira, 24 de junho de 2014

O cristão pode ser patriota?


por George Gonsalves

Certa vez, tomado de grande amor por sua terra natal, o escocês John Knox (1514-1572) clamou a Deus: "Dá-me a Escócia, senão eu morro". O próprio apóstolo Paulo falou assim de seu povo: "porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne" (Rm. 9:3). Sendo assim, até que ponto o cristão pode ser devotado à sua pátria, ao seu povo?
  
A resposta talvez pudesse ser resumida assim: pode, até o ponto do homem não pecar contra Deus e seu próximo. Podemos e devemos amar nosso chão e nosso povo, mas devemos nos lembrar que Cristo morreu por pessoas de "todas as línguas, povos e nações". Nosso país não é o mais importante do mundo e também não é o preferido de Deus. O amor à pátria pode, também, ser idolátrico.

Na história da igreja uma das grandes manchas é o divisionismo, e um dos seus maiores propulsores foi o nacionalismo. Em sua obra clássica, As origens das denominações cristãs, Richard Niebuhr afirma que: "as igrejas étnicas e nacionais são manifestações adicionais da vitória da consciência social divisiva sobre o ideal cristão de unidade" (p. 71). Assim, inúmeras pessoas se agruparam em igrejas que não estavam unidas apenas por uma mesma fé, mas por laços culturais territoriais. Daí o surgimento de igrejas como: Batista Alemã, Ortodoxa Grega, Ortodoxa Russa, Luterana Norueguesa, Evangélica Luterana Dinarmaquesa, dentre outras. 

O pior se dá quando cristãos justificam pecados pelo amor à pátria. Alguns são declaradamente contrários a imigrantes e, inclusive, lutam em guerras sangrentas contra irmãos de outros povos. Não foi esse patriotismo que motivou as declarações de Knox e Paulo que lemos no início deste texto. Estes crentes estavam movidos por um amor sacrificial pelo seu povo. Isto não os levava a ignorar ou perseguir pessoas de outras nacionalidades. John Knox, por exemplo, serviu a irmãos na Suiça e Paulo foi simplesmente o "apóstolo dos gentios", pregando a inúmeros povos, dos romanos aos gregos.     
 
Por isso, concluo dizendo: cristãos brasileiros, amemos nossa pátria e oremos pelo nosso povo, não porque "nossos lindos campos têm mais flores" ou "nossos bosques tem mais vida", mas porque Deus ama esta gente, a nossa gente.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O povo está na rua. E a igreja?

      
Brasília-DF, 17/06/2013

“A justiça é o amor corrigindo tudo aquilo que revolta contra o amor”
                                                                                   Martin Luther King

por George Gonsalves

O Brasil está pegando fogo! O povo brasileiro, costumeiramente chamado de acomodado e conformado, está nas ruas. É verdade que se trata de uma parcela apenas, na sua esmagadora maioria, jovens. Também é verdade que as reivindicações são fluidas: diminuição das tarifas de transporte público, melhoria na educação e saúde, reclamação sobre gastos com a copa do mundo, diminuição de impostos, rejeição da PEC 37 (que limita a atuação do Ministério Público), etc e etc. E, finalmente, há um grupo de baderneiros e vândalos infiltrados entre os que protestam legitimamente. Mas, não devemos ignorar o anseio de mudanças que vem das ruas. E a igreja? Onde está? Como ficam aqueles que são chamados para ser luz para este mundo?       
    O cristão deve ansiar por justiça social, porquanto Deus é justo. No Antigo Testamento o salmista revelou o olhar de Deus sobre a opressão dos poderosos contra os pobres: “Por causa da opressão dos pobres e do gemido dos necessitados, eu me levantarei agora, diz o Senhor; e porei a salvo a quem por isso suspira” (Salmo 12:5). Os profetas também alertaram: “Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo, a fim de despojarem as viúvas e roubarem os órfãos!” (Is. 10:2). O Novo Testamento também ecoa a voz de denúncia de opressão. Tiago afirma que os clamores dos trabalhadores injustiçados “penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos” (Tg. 5:4).  
    No decorrer da história a igreja sempre teve voz profética, denunciando as mazelas morais e sociais do mundo. Os anabatistas denunciaram o autoritarismo dos sacerdotes e príncipes no século XVI. Os quakers condenaram o abismo social na Inglaterra do séc. XVII. Os ingleses John Wesley e William Wilbeforce lutaram contra a escravidão no século XVIII. O alemão Bonhoeffer morreu em um campo de concentração por combater o nazismo. E no século XX, uma das vozes mais marcantes em favor dos direitos civis foi a de um pastor: Martin Luther King. Sua voz e seus atos (sempre de não-violência) despertaram uma nação. Ele tinha um sonho: um país de negros e brancos que caminhavam e sentavam juntos. Por causa deste ideal ele foi morto, porém se colocou como alguém que clama por justiça. Certa vez, King afirmou em um discurso: “Não, não, não estamos satisfeitos e nunca o estaremos até a justiça deslizar como a água e a retidão como uma corrente poderosa”.[1]
    A igreja não deve se omitir, se esconder dentro de seus templos, enquanto a corrupção e a injustiça sufocam o nosso semelhante. Mas, devemos pedir direção ao Senhor sobre a melhor maneira de nos expressarmos, considerando que repudiamos atos de violência e vandalismo. Não devemos esquecer que toda boa dádiva vem do Pai das luzes. A Ele devemos clamar.
   Além disto, precisamos ter em mente que a mudança deve começar em cada um de nós. Para clamar por justiça, devemos ser justos; reclamar da corrupção, devemos ser honestos; pedir melhoria na saúde, devemos não sujar locais públicos, nem nos enchermos de álcool. Não podemos mudar o mundo, senão a nós mesmos. Como disse Ellul: "nós não temos que trabalhar, nos esforçar para que a justiça reine sobre a Terra: temos que, nós mesmos, sermos justos, portadores da justiça"[2].   
   A igreja evangélica na antiga Alemanha Oriental, nos deu um belo exemplo. ainda nos anos do comunismo. Philip Yancey conta que, durante o ano de 1989, quatro igrejas em Leipzig estavam organizando reuniões de oração. No início poucos se reuniam, doze no máximo. Depois de cada reunião, grupos de cristãos saíam pela cidade segurando velas e faixas em marchas pacíficas. Apesar da repressão policial, as multidões se formaram.
   No dia 9 de outubro, em meio a uma ameaça de massacre pela polícia, 70 mil pessoas marcharam pacificamente pelo centro de Leipzig. Uma semana depois 500 mil apareceram. O presidente Erich Honecker renunciou. No início de novembro, quase um milhão de pessoas marcharam através de Berlim oriental. Uma revolução poderosa, mas pacífica, estava em curso. Dias depois, o muro de Berlim veio abaixo. Nenhum tiro foi dado; nenhuma vidraça quebrada. Um jornal relatou: “As orações podem ou não mover montanhas, mas certamente mobilizaram a população de Leipzig”. Semanas após, uma faixa apareceu numa rua da cidade: “Wir danken Dir, Kirche” (Nós te agradecemos, Igreja)[3].   
                   






[1] SITKOFF. Harvard. Peregrinação ao topo da montanha. Lisboa. Editorial Bizâncio, 2009. p.147.
[2] ELLUL. Jacques. Cristianismo revolucionário. Brasília. Ed. Palavra, 2012, p. 68.
[3] YANCEY. Philip. Descobrindo Deus nos lugares mais inesperados. São Paulo. Mundo Cristão, 2005, p. 175/176.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

DAVID BOTELHO: Abrindo o coração francamente. De novo!

David e Cleonice Botelho

Queridos amigos,

Nós não estamos conformados com o atual quadro missionário brasileiro, na realidade, estamos indignados. Vocês poderiam perguntar: “por que?” Por favor, leiam abaixo a resposta  para essa pergunta.
No final dos anos 80, havia um crescimento anual de 12.8% no envio de missionários, mas no meio desta década esse crescimento apresentou uma redução drástica para 3.5% ao ano, segundo dados da Sepal. Os resultados dessa redução brusca começam a refletir significativamente na maioria das agências missionárias.
Nas conversas com líderes dessas organizações o que ouvimos de um modo geral é que, nunca na história de missões, as agências missionárias receberam um número tão pequeno de candidatos. Isto leva muitos ao desânimo, pois o custo aumenta muito quando o treinamento é feito com poucos candidatos. Por isto, algumas agências já não fazem treinamento há algum tempo.
Contudo, entendemos que outros líderes que estão à frente de algumas associações acham um exagero, e somos vistos como alarmistas diante desse caos. Ora, o que temos procurado é mostrar apenas a realidade.
Nosso objetivo é trabalharmos juntos para tentar mudar esta realidade que temos diante de nós.
 
Economia brasileira ascendente ainda não é a resposta
Acreditamos piamente que precisamos de profetas para nos despertar e nos levar a amar a obra missionária transcultural, principalmente aos povos menos evangelizados da terra, ou seja, os que nunca ouviram a mensagem das Boas Novas, nem ao menos uma vez. Esta mensagem é o Evangelho do Reino que deverá e será pregado a todas as gentes, como proclamou nosso Senhor Jesus.
Sim, os que nunca ouviram o Evangelho do Reino precisam ouví-lo pelo menos uma vez. Oswald Smith, pastor da Igreja dos Povos em Toronto - Canadá no século passado, cuja igreja sustentava centenas de missionários perguntou e sua pergunta deve ecoar ainda hoje em nossos ouvidos e corações:
“Por que uma pessoa tem o direito de ouvir o Evangelho duas vezes, enquanto outras nunca ouviram sequer uma vez?”.
Como igreja no Brasil não podemos, de maneira nenhuma, nos queixar da falta de recursos financeiros. Em 2002 o salário mínimo correspondia a 75 dólares, e hoje ele corresponde a aproximadamente 280 dólares, um crescimento de 3,7 vezes. Nessa hipótese, proporcionalmente o envio de obreiros aos povos da Janela 10-40 poderia ter aumentado em mais de três vezes.
Em pouco mais de duas décadas o Brasil se tornou uma das maiores economias do mundo e a igreja evangélica cresceu cerca de quatro vezes em tamanho. E o número de missionários enviados?
 
Os pastores e a leitura das Escrituras
A Sociedade Bíblica Ibero-Americana patrocinou uma pesquisa em profundidade durante seis meses, na cidade de São Paulo, com centenas de pastores e líderes evangélicos de várias denominações, que espontaneamente, participaram de entrevistas e responderam a um questionário específico.
Ao final da tabulação dessa pesquisa concluiu-se que 51% destes pastores e líderes ainda não haviam lido totalmente – ao menos uma vez – qualquer versão das Sagradas Escrituras.
Se a maioria dos pastores nunca leu uma vez sequer o manual de ensino, o guia sagrado, como pode entender e amar a obra missionária transcultural?
Como pode compreender a questão do recrutamento, treinamento e envio de missionários?
Como podem entender a importância de sustentar adequadamente aqueles que se prontificam a ir aos lugares mais inóspitos e esquecidos da terra?
Será que conhecem o Evangelho do Reino? Será que percebem que não poderão crer os milhões e milhões que nunca ouviram a Palavra do Senhor?
Compartilhamos olhando os números a nossa frente. São técnicos, racionais, práticos e criteriosos, porém são a “balança” para avaliarmos se estamos alcançando o alvo ou não.
 
É importante acertar o alvo?
O apóstolo Paulo, registrou no capítulo 15, verso 22, do livro de Romanos que entre Jerusalém e Albânia já não tinha mais trabalho para fazer, pois já tinham alcançado toda a região com o Evangelho. Por que? Porque haviam trabalhado arduamente para levar a Palavra do Senhor a todos os seus habitantes.
Isto nos faz lembrar de dois casos práticos:
“O marinheiro que não sabe para onde vai qualquer porto que aportar está bem.”
O outro sobre certo atirador que causava certa admiração aqueles que viam a precisão de seus tiros: todos acertavam o alvo.
Certo admirador quis surpreendê-lo. Levantou bem cedo e foi observar o atirador. E escondido viu que ele atirava nas árvores e depois circundava o local acertado para fazer parecer que havia acertado o alvo.
Quantas vezes agimos da mesma maneira e acreditamos que estamos acertando o alvo!
É que estamos exportando o modelo brasileiro de missões para toda a América Latina usando o exemplo de nossas igrejas e organizações missionárias. Infelizmente, de fato, não estamos alcançando o objetivo de levar as boas novas aos não alcançados, não completamos a tarefa. Exportar o quê? E o que dizer dos missionários enviados que sem treinamento levam apenas a religião cristã para os povos e, por desconhecerem, não pregam o Evangelho do Reino?
 
O desafio brasileiro
Somente no Brasil temos mais de 150 tribos indígenas sem nenhum obreiro.
Como podemos tomar conhecimento disto sem suspirar diante da realidade de que possuímos aproximadamente 300.000 igrejas evangélicas em nossa pátria?  Mais de 99% delas não possui sequer um missionário transcultural. E a esmagadora maioria não sustenta nem sequer um missionário para povo algum.
Somos a terceira maior igreja no mundo!
Convivemos com as notícias de um exemplo clássico brasileiro: o grave problema do infanticídio entre os povos indígenas. E daí? A maioria das igrejas indiferentemente nem perguntam.
Que alegria no meio deste deserto de indiferença poder ouvir pelo menos uma voz que tem se levantado para combater este grande mal.
Marcia Suzuki está à frente da ATINI que produziu o documentário Hakani mesmo tendo sofrido e ainda sofre uma grande oposição de vários políticos liberais que crêem que não se deve mudar tal quadro, porque entendem que infanticídio entre índios é assunto antropológico. Para Deus é assunto que a Cruz de Seu Filho resolveu. Jesus morreu por todos os povos indígenas e eles precisam saber disto. Será que a igreja brasileira não sabe?
Temos que interceder por uma abertura para que estes povos sejam alcançados. A FUNAI não tem permitido a entrada de obreiros. Devemos lembrar que não existem portas fechadas para o Senhor quando oramos especificamente.
Vou repetir: Mais de 99% das igrejas no Brasil não possui um missionário transcultural sequer. E a cada dia deparamo-nos com uma grande e crescente dificuldade de recrutar um missionário transcultural no meio evangélico. Quando um candidato se apresenta, o maior desafio torna-se a obtenção dos recursos, não só para o treinamento apropriado, mas, também, para o envio e acompanhamento no campo. Suas igrejas não se envolvem, e seus líderes apenas lamentam quando, não poucas vezes, perde esse membro, decepcionado pela falta de apoio para seu projeto missionário.
 
Cooperação x Competição
Por outro lado, quando deveríamos ver as agências missionárias se unindo para lutar contra o inimigo comum, temos visto várias agências desesperadas competindo por obreiros e buscando os mesmos em outras organizações que deveriam ser parceiras. Algumas agências denominacionais conservadoras estão buscando obreiros pentecostais treinados devido à grande carência de obreiros preparados.
 
Modismos brasileiros
Como brasileiros apreciamos os modismos tais como: músicas e danças contemplativas, teologia da prosperidade, quebra de maldição hereditária, celebridades gospel e outros movimentos, implantados em nossas igrejas. Estes modismos têm drenado todos os recursos econômicos, tempo e pessoas. Pouquíssimo tem sobrado para a obra missionária. Fato é que infelizmente estes movimentos nunca vêm acompanhados de uma visão de alcançar os menos evangelizados da terra com a Palavra do Senhor. Como poderia se tudo é voltado para nosso próprio conforto, sucesso, riqueza e bem estar?
A realidade pobre é que a média de investimento por crente na obra missionária transcultural é de apenas R$ 1.30 por ano. 
Todas estas tremendas aberrações precisam parar. Precisamos urgentemente de um avivamento missionário que inflame nossas vidas e sopre para longe a apatia, indiferença, comodismo, egoísmo, avareza e incredulidade. Que expulse esta letargia espiritual.
O remanescente precisa se contrapor com uma nova atitude! Como os nobres bereanos que eram pensadores, questionadores, que checavam os ensinos paulinos com as Sagradas Escrituras. Por isto foram elogiados pelo doutor Lucas, escritor de Atos. De fato, foram elogiados pelo próprio Espírito Santo. É preciso analisar pela Palavra se toda esta teologia, prática de igreja, etc realmente confere com as Escrituras. No coração de Deus pulsa alcançar os perdidos em toda a Terra. E que igreja é esta que diz que prega e crê na Palavra, porém não a pratica. Principalmente no que diz respeito a fazer discípulos de todas as nações.
 
Preletores dos Congressos missionários
Há um elitismo quando alguns acadêmicos são os escolhidos para trazerem as reflexões em nossos congressos. Alguns deles são pastores, mas as igrejas que pastoreiam não têm um programa missionário transcultural. Outros chegam a criticar alguns projetos missionários sem ter nenhuma experiência missionária.  São apenas teóricos alienados da realidade missionária.
São poucos os congressos missionários pentecostais que falam dos desafios missionários e grande parte dos preletores não tem idéia dos desafios dos povos muçulmanos, budistas, hindus, tribais e do grande desafio das milhares de línguas que nada têm da Palavra de Deus, além da importância do treinamento específico, da logística e estratégia necessárias e do cuidado missionário.
Convém lembrar que os verdadeiros avivamentos sempre eram acompanhados por uma grande visão missionária.
 
Indiferença de alguns
A indiferença é tão grande que há muitos casos de missionários que compartilham nas igrejas seu trabalho e visão. São levantadas ofertas para o sustento dos missionários e estas não são entregues a eles ou somente uma pequena parte lhes é entregue. Mentira. Furto descarado. Misericórdia, Senhor Jesus!
O mesmo ocorreu no tempo de Neemias quando os quinhões deixaram de ser dado aos obreiros da casa do Senhor e cada um deles fugiu para os seus campos.
Então a voz de Neemias ecoou: - “porque se abandonou a obra de Deus?”.
Como resultado da voz profética do líder, a nação de Israel foi desafiada a trazer de volta os dízimos dos cereais. Então os celeiros se encheram e como resultado os obreiros voltaram para trabalhar na casa do Senhor.
Há um pensamento, quase generalizado, onde se estereotipa o missionário como um “ET” que deve ir para o campo sem o apoio ou a retaguarda. É como o caso de Urias que foi enviado por Davi para o “Front da batalha”. Sim, Davi que estava em pecado! Davi pediu para tirar a retaguarda de Urias e o resultado foi a morte de um inocente.
Se algo não for feito a tempo para levantar os recursos dos obreiros deste século 21 veremos a morte da visão missionária transcultural nesta nação, como tem ocorrido em vários países do hemisfério norte.
Estamos cometendo o pecado da omissão. Não é isto que Tiago disse? Aquele que sabe fazer o bem e não o faz está pecando?
 
Exemplo do remanescente a ser imitado
A Segunda Igreja Batista de Itapeva – Mauá – periferia de São Paulo, com aproximadamente 160 membros investe no sustento de três missionários. Enviou recentemente seis candidatos para o treinamento do Projeto Uniasia, inclusive o próprio filho do pastor.
O coração desse pastor ainda continua apaixonado pelo Senhor e pela extensão de Sua obra até os confins da terra.
Se cada igreja no Brasil enviar somente um obreiro para treinamento para ser enviado aos povos não alcançados iremos ver uma revolução missionária no mundo.
 
O que devemos fazer para reverter à situação?
Algo precisa ser feito. E de um modo diferente conforme disse Einstein: “É loucura esperar resultados diferentes se continuamos fazendo a mesma coisa”.
O que dizer de empresas e negócios que poderão ser levantados para gerarem recursos para a Obra? O que dizer de levantar homens de negócios para abrirem empresas em alguns destes países não alcançados para empregarem missionários brasileiros competentes que possam gerar seu sustento enquanto fazem discípulos nestas nações?
Isto nos faz lembrar da famosa frase de Martin Luther King Jr, pastor batista americano que viveu que nos anos 60 e foi preso mais de 120 vezes. Ele via os negros sofrendo um preconceito racial terrível onde não podiam estudar nas mesmas escolas, andar nos mesmos ônibus, comprarem nas mesmas lojas e freqüentarem os restaurantes dos brancos.
Ele disse: “Esperar que Deus faça tudo enquanto nós não fazemos nada. Isto não é fé é superstição”.
 
Somente unidos poderemos mudar o quadro
Entendemos que é hora de unir as forças. Criar uma sinergia entre as igrejas missionárias e as organizações missionárias.
Há algumas décadas atrás a extinta revista Cruzeiro possuía uma página, sobre a direção de Péricles, onde o personagem era o “Amigo da Onça”.
Nessa página havia um quadro que mostrava dois cavalos no meio de um curral, amarrados um ao outro com uma corda bem curta. Nos cantos havia grama, mas cada um queria comer no seu canto, e eram limitados pelo tamanho da corda.
No quadro seguinte mostrava os dois lado a lado comendo juntos num dos cantos e no último quadro, também lado a lado, os dois comendo no outro canto.
A moral da história é que a unidade permite que ambos possam comer.
Associamos isto com o quadro atual. Devemos nos unir para mobilizar, recrutar, treinar, enviar, sustentar e acompanhar o remanescente. Juntos podemos despertar os que estão inertes, omissos e indiferentes a causa de alcançar os esquecidos e negligenciados pela igreja no mundo.
O Senhor nos entregou a tarefa de fazer discípulos de todos os povos. Desde o momento que Ele disse isto já se passaram dois milênios. E muita terra ainda há para se conquistar.
 
O grande desafio global:
- Há 24.000 povos no mundo e ainda faltam 6800 para serem alcançados.
- Há 6.909 línguas no mundo e 2.432 delas não têm nem uma porção da Bíblia.
- 85.000 pessoas morrem a cada dia sem nunca terem ouvido nada de Cristo.
- 500 milhões de chineses  nunca ouviram nem o nome de Cristo.
- Das 600 mil cidades e vilas da Índia 500 mil delas não possui sequer um obreiro cristão.
- Há somente um missionário para atender a 380 mil muçulmanos.
 
A oração específica pode mudar o quadro
É claro que a resposta está na oração por obreiros para os povos não alcançados e pelas nações, pois Ele é o dono dos obreiros e das nações.
A Bíblia nos ensina a rogar ao Senhor da Seara por obreiros e a pedir nações por herança.
Temos orado por homens. Entre os não alcançados há duas mulheres missionárias para um homem missionário. É cômico pensar que os homens possam estar orando assim: - Eis me aqui, envia minha irmã.
Somente um grande avivamento espiritual e uma volta a Palavra de Deus é que fará com que pastores e igrejas peguem a visão missionária mundial.
Nós temos produzido literatura e vídeos para municiar os intercessores a orar com sabedoria por obreiros, recursos e oração para os lugares menos alcançados da terra. Acabamos de disponibilizar cinco documentários de muçulmanos que tiveram sonhos e visões com Jesus e se converteram. Eles não só encorajam os crentes, mas também são usados para evangelizar, pois ao final de cada documentário há um convite para tomar uma decisão ao lado de Cristo – ver o site: www.agoraleia.com
 
O nosso desafio vem da Ásia
No final de 2008 recebemos um desafio no Congresso Brasileiro de Missões realizado em Águas de Lindóia. Ao orarmos sobre este desafio entendemos que era clamor vindo do Senhor. Respondemos com o “sim” para levantar em 2.010 um contingente de 120 jovens para serem treinados para a Ásia.
Avaliando a atual realidade brasileira e para alcançarmos o objetivo do projeto Uniasia, nos prontificamos a receber os candidatos com apenas um terço do sustento necessário. Para cobrir os dois terços restantes, nos comprometemos a levantar juntos esses recursos em mobilizações. 
Louvamos a Deus pela parceria ampla que foi feita com um grupo da Ásia. É uma região com a maior população do planeta, com a maioria dos povos menos alcançados pelo Evangelho, com a maior quantidade de línguas sem sequer um versículo da Bíblia traduzido. É o centro dos três maiores blocos religiosos, depois do cristianismo: islamismo, budismo e hinduísmo.
No final do ano passado, enviamos para aquela região a equipe de logística e estratégia, composta de oito pessoas... Um pequeno, mas decisivo começo.
Neste início de ano recebemos 40 jovens de diversos estados e denominações diferentes. Alguns deles com cursos universitários e cursos bíblicos: um deles com curso bíblico, cursando o quinto semestre de direito, o quarto semestre de pedagogia, além de que tinha um emprego - primeiro lugar no concurso nacional do IBGE. Ele viu neste projeto uma oportunidade para ser um tradutor bíblico.
Ainda continuamos mobilizando arduamente em diversos estados brasileiros para levantar mais obreiros para a Ásia...
Recebemos os candidatos com um Salário Mínimo (R$ 510,00) mensalmente e estamos trabalhando juntos com os candidatos, pastores e internacionalmente, para levantar os outros dois salários durante o treinamento.
O projeto é de sete anos. Os candidatos passam dois anos na América Latina e país de língua inglesa. Os cinco anos restantes em universidades da Ásia.
O Uniasia proporcionará ao candidato a oportunidade de ter uma formação bíblica, Missiológica, transcultural, além de formação universitária no exterior e aprendizado da língua inglesa, espanhola e de uma língua asiática e a graduação universitária na Ásia.
Queremos convidá-lo agora para se unir conosco e ajudar a mudar este quadro nacional e global,  na esperança de vermos o nome de Jesus ser conhecido, enaltecido, glorificado e adorado entre todos os povos, línguas, raças e tribos da terra.
Clamando por misericórdia, sabedoria e Graça do Senhor para fazer a vontade do Mestre.

David e Cleonice Botelho

Horizontes América Latina
Diretor
Para investir no Projeto Uniásia: Missão Horizontes - Bradesco: Agência 1020 e Conta 3111-9
Convite:
Neste final de Junho e Julho vamos ter vários professores de várias universidades do exterior vindo a Monte Verde para ministrarem seis matérias: Apologética Cristã para o Islã; Fundar Igrejas em Contexto Islâmico; Quem é Alá; Ministério aos Muçulmanos e Seus Desafios,e abrimos para interessados.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

COMBATE AO CRIME - Fim de corrupção policial é primeiro passo, diz diretor da Justiça Global



A Segurança Pública é a questão mais urgente a ser resolvida no Brasil, na avaliação do diretor da ONG Justiça Global e professor da Universidade de Harvard, James Cavallaro.

Para Cavallaro, o primeiro passo para baixar os índices de criminalidade é o combate à corrupção policial, que, segundo ele, é um tipo especialmente nocivo de corrupção porque "facilita o crime".
Ele falou à BBC Brasil como parte da série Brasil 2010, em que personalidades de diversas áreas elegem um aspecto que gostariam de ver diferente no país que será entregue pelo presidente que vencer as próximas eleições.

Leia a seguir alguns trechos da entrevista:

BBC Brasil - Se tivesse que escolher apenas um tema como prioridade para 2010, o que senhor escolheria?
James Cavallaro - A questão da segurança pública. Todo brasileiro pensa nisso, querendo se sentir mais tranqüilo na cidade, mas não necessariamente pensa nisso como uma questão de Direitos Humanos. Nós (que trabalhamos com direitos humanos) defendemos um Estado de direito, queremos bandido na cadeia cumprindo pena, mas não queremos bandido subornando agente penitenciário para entrar com o celular e organizar um assalto do lado de fora.

BBC Brasil - Por que a segurança pública?
Cavallaro - Poderia falar dos direitos das crianças, das mulheres, mas o que une esses problemas todos é a falta a vontade política de enfrentar os problemas difíceis. Quase sempre, prefere-se a opção fácil, o discurso fácil, a resposta simples - "Vamos botar mais policiais na rua, vamos ser mais firmes, vamos matar mais bandidos". Tem cinco séculos dessa visão e estamos onde estamos.

BBC Brasil - E por que é tão difícil resolver o problema?
Cavallaro - Porque tem custos políticos imediatos. Tradicionalmente no Brasil, o governo federal não assume responsabilidade pela segurança pública, deixa esse abacaxi com os Estados. Estão contratando mais policiais federais, o que eu acho positivo. Mas compare com outros países na região. No Brasil, você tem em São Paulo mais de 100 mil policiais, entre militares e civis. O número de policiais federais não chega a 10% do que tem em São Paulo! Isso é uma forma de ver que a segurança no Brasil é uma questão dos Estados. Em outros países latino-americanos a segurança é uma questão nacional.

BBC Brasil - E qual deveria ser o primeiro passo?
Cavallaro - A limpeza da corporações policiais, do poder penitenciário. O que existe (no Brasil) é uma polícia corrupta, um sistema penitenciário corrupto, infelizmente também um sistema judiciário corrupto. O resultado disso é que o sistema não é capaz de reprimir o crime.

BBC Brasil - Mas a corrupção policial é pior do que qualquer outro tipo de corrupção?
Cavallaro - A corrupção na polícia não é como a corrupção na administração pública. A corrupção política é nociva também, mas a corrupção policial é especialmente perigosa porque facilita a criminalidade. A conivência da polícia impede que haja um ataque frontal à criminalidade. As facções armadas sabem como comprar a polícia e compram. O resultado disso é que o sistema não é capaz de reprimir o crime.

BBC Brasil - Há quem diga que sem uma política social não é possível resolver a questão da segurança.
Cavallaro - Evidentemente existe um relação entre a pobreza e os índices de criminalidade. Mas se você analisa as estatísticas vai ver que existem países que têm pobreza mais aguda do que o Brasil e têm índices de criminalidade bem mais baixos. Por exemplo, a Bolívia. A pobreza é um fator. Outro fator é a facilidade do acesso às armas. Outro fator é a polícia, que é truculenta e corrupta - uma péssima combinação. O que me preocupa nesse discurso (de que o combate à violência exige políticas sociais) é que ela pode levar ao conformismo, como se nada pudesse ser feito até que a situação da pobreza melhore.

Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/index.shtml