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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Pois é! Como vos disse antes, vou ter de ir até Angola a trabalho. Apenas uma semana, cinco dias, mas mesmo assim, estou a sofrer algum tipo de síndrome que me deixa muito desconfortável.

Angola é o país que me viu nascer, que me viu dar os primeiros passos e que me ouviu dizer as primeiras palavras. É o país onde os meus avós maternos se conheceram e casaram, onde tiveram a minha mãe e onde a minha mãe e o meu pai se conheceram e casaram. É o pais que me deu as primeiras lições de vida, onde aprendi a disparar uma arma, onde descobri que tinha fobia de cobras, onde eu fugi de balas, vi gente morrer nas ruas numa guerra sem explicação, onde estive em filas de racionamento e onde eu vi o meu pai perder a vida 3 vezes. (Sei que parece estranho, mas vou explicar apenas este ponto: o meu pai teve 1 ataque cardíaco grave, aquando de umas das minhas visitas aos onze, ou doze anos e teve depois mais dois AVC's, que coincidiram sempre em alturas em que eu estava lá a viver ou de férias.)

Foi em Angola onde eu conduzi pela primeira vez, andei de bicicleta pela primeira vez, fui mordida por um cão, pela primeira e única vez, na casa do Cônsul dos Estados Unidos, que valeu um "Camaro" ao meu Pai (se calhar o meu pai fez de propósito!). Acompanhei o meu pai em tantos Ralis, nas estradas de terra batida a Norte de Luanda e em Cabinda! (Que saudades pai!) E foi em Angola onde eu quase morri pela primeira vez, aos 5 anos com Tifo (mas valeu a pena, mãe, a Ana não morreu sem uma amiga a apertar-lhe a mão, eu estava lá e isso tem de valer alguma coisa, mesmo o susto que tu e o pai tiveram).

Eu nunca me senti tão viva como em Angola! Aquela terra encarnada, o cheiro da humidade do ar, as luas vermelhas do tamanho do Mundo, a pesca nocturna nos cais de Luanda, as noites longas no Barracuda onde, depois do jantar os meus pais namoravam e por vezes discutiam algum assunto, enquanto eu e a minha irmã apanhávamos conchas na areia da praia, os pic-nics na Barra do Kwanza, os meus aniversários na praia do km 31.

Angola é a minha terra mãe, mas será que eu me vou identificar com ela depois de tantos anos de afastamento, depois da morte do meu pai, depois de eu já não ser aquela pessoa que fui?!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Desta vez não tenho saudades de uma pessoa, nem de um momento especial, mas sim tenho saudades de algo que fazia muito.

Eu bem sei que nem todos tiveram este tipo de experiência, mas eu vivi grande parte da minha infância, adolescência e juventude, num país diferente do meu pai e numa altura em que o e-mail, telemóveis e muito menos SMS (como eu odeio estas 3 letras), não existiam.

Recordo-me que para falar pessoalmente com o meu pai em Angola, era preciso marcar com antecedência uma chamada que mais tarde era retornada com hora marcada. Resumindo, a comunicação era lenta, dispendiosa e levava o seu tempo. Tal como as cartas que eu acabava por escrever ao meu pai.

A carta surgia como o meio de comunicação mais fácil e completo de falar com ele, de lhe contar as novidades e de lhe pedir favores. Sempre tive maior facilidade em expressar-me por escrito do que por telefone. Não que tenha dificuldades na expressão oral, não confundam, porque não tenho, mas odeio falar com uma pessoa quando não estou a ver os seus gestos, o seu olhar, a sua expressão física. Compreendo que me digam que nas cartas também não, mas as cartas têm algo que o telefone não tem, a impressão escrita.

Cada pessoa tem uma forma própria de se expressar, a sua letra altera quando está doente, triste, ou quer esconder alguma coisa. As palavras que utiliza são diferentes, o contexto e as figuras de estilo também são diferentes de estado para estado de espírito. E é disso que eu tenho saudades. Tenho saudades de ver a letra do meu pai e de tentar descobrir, como se de um quebra-cabeças se tratasse, o que estava por trás de cada uma daquelas palavras que ele imprimia com o seu próprio punho nas folhas cuidadosamente escolhidas para me enviar via aérea.

Sim, porque para além da letra e de tudo o mais que já foi enumerado em cima, ainda havia a linguagem dos detalhes. A folha escolhida para a carta, a caneta e a cor da tinta, o envelope, se vinha ou não perfumada, ou brindada com uma flor seca, ou outro presente que ele me quisesse dar.

Tenho saudades dos rascunhos que escrevia para lhe responder, num exercício que tinha como objectivo, tentar não me esquecer de nada que fosse importante, e era sempre tanta coisa, que por vezes as cartas tinham mais de 4 folhas A4 escritas de frente e de costas.

Pronto, tenho saudades e hoje deu-me para isto… Tenho saudades também de ti, pai!

Que Deus te guarde.

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