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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Cenário: Grupo de três amigos, depois de um jantar em casa, duas horas de risco, duas horas de um DVD, duas garrafas de vinho tinto, vodka e água tónica.
1 - Adorava ser um gato.
2 - Um gato para quê?
3 - Ela quer ser a catwoman... - risos.
1 - Porque adorava deitar-me ao sol todo o dia, à noite receber festinhas do dono e ronronar no seu colo enquanto vê um pouco de televisão.
3 - Sempre podes casar com alguém que te sustente. - Serve-se de mais vodka.
2 - Só um homem para dizer algo tão absurdo.
1 - Sim, só um homem. - indigna-se por não ter sido entendida.
3 - Não percebo tanata indignação. Não disse nada de novo.
2 - Não tem nada de novo, mas é ofensivo para uma mulher moderna, para além de que não foi nada disso que ela quiz dizer.
1 - Pois não!
3 - Ilucidem-me...
1 - É mais do que a ausência de um trabalho, emprego, de obrigação. Tem mais a haver com a liberdade, com a ligeireza com que os gatos passam por este mundo: a sua memória curta; o seu corpo ligeiro; os seus afectos convenientes; a independência é total.
2 - Até que ponto se pode considerar independência, se nunca tiver havido nada de que se dependesse?
3 - A mais não seja, é-se dependente do facto de se ser independente.
2 - Isso é o vodka a falar. - o 3 e a 1 riem-se. - E um gato doméstico apenas é independente, porque depende do dono para tudo o que podia comprometer a sua independência.
3 - Na realidade é como continuar criança eternamente.
2 - Mas uma criança recorda e todo o ser humano é dependente das suas memórias. Eu não entendo o conceito de se ser independente.
1 - E eu só quis, por alguns minutos e sobre a influência do sono, ser um gato.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Conhecem o ditado que diz: "A curiosidade matou o gato!"? Pois bem, se um gato eu fosse, já teria morrido muitas vezes. Recordo-me de uma em particular, (porque agora o cenário me é familiar), na qual estava eu a passar o Tejo, da margem Norte para a margem Sul, num barco para o Barreiro, num dia de Primavera, ou talvez não! Creio que seria Primavera. Eu vinha na proa e havia sol, mas não muito calor, suponho por isso, que fosse Primavera, ou talvez um daqueles Outonos bonitos em Portugal, que mais parecem Primaveras. Era então Primavera, ou Outono, se preferirem, pois não havia calor nem frio suficientes, para ser Verão ou Inverno.

Era essa época do ano e eu estava a filtrar os raios de sol (que eu gosto tanto), com a minha pele. Ao meu lado, um rapaz, talvez universitário, não sei, não me recordo, eu não tinha mais de doze anos e todos os rapazes mais velhos pareciam-me sempre universitários, estava a escrevinhar qualquer coisa, num caderno de capa preta, como tantos que eu iria ter pela minha vida fora. Creio que ia de visita à minha tia. Sim, disso tenho a certeza. A minha tia morava no Barreiro e essa era a única razão, pela qual eu apanharia aquele transporte: para a ir visitar. Talvez estivesse também com a minha irmã. Ela andava sempre comigo, por isso é mais do que provável que ela lá estivesse, mas não me lembro dela neste episódio e só por isso, não é importante.

Estava então na proa do barco, brisa na face, raios de sol na pele e o rapaz, provavelmente universitário, a escrevinhar qualquer coisa nas linhas de um caderno, cuja capa preta seria pouco mais grossa que o papel pautado.

Sei perfeitamente que a escrita é um acto privado, talvez o mais privado de todos e que invadir esse acto é um grave crime que atenta à privacidade. Já nessa altura o sabia. Sabia também, que mais tarde o produto dessa escrita, pode ou não ser partilhado, mas na altura do acto, quando o que se escreve ainda não é produto, mas sim confissões da mente, é algo que não deve ser invadido. Mas compreendam-me: era Primavera, ou Outono, num barco a atravessar as águas do rio Tejo, para o Barreiro, sol na cara, brisa no cabelo, rapaz, talvez universitário, ao lado e eu sem nada para fazer, a ouvir as gaivotas grasnar e as conversas sem interesse dos restantes viajantes sem rosto e aquela caneta, caneta azul, em plena batalha com aquele papel branco de linhas pretas, a produzir um som que agora conheço tão bem, a reproduzir algo privado, que não era de todo, da minha conta; provocava em mim, uma luta interna, na qual uma parte de mim dizia: "Olha!" e a outra dizia: "Não é nada contigo!"

Já não faltava muito para chegarmos e a caneta azul não parava e eu, eu lutava para não olhar, não olhar. O céu azul, os raios de sol, a brisa macia, as gaivotas barulhentas, as conversas surdas, o balançar do barco e a curiosidade a roer dentro de mim. Olhei! Sim, olhei, passei a barreira da privacidade e espreitei para além do ombro, para além das mãos do rapaz, (talvez universitário) e li as linhas que a sua mão ia deixando visíveis:

«..num barco, a caminho do Barreiro, eu escrevo, escrevo sem saber porquê, apenas porque tenho necessidade de transcrever o que penso. Uma miúda abelhuda olha para mim, para o meu caderno e lê o que eu escrevo...»

Não li mais. O sangue subiu-me à face, corei, afinal, a minha invasão havia sido apanhada e equivalia a eu espreitá-lo num duche, a ele, aquele rapaz, talvez universitário. Era como se os nossos olhares se tivessem cruzado e ele tivesse deixado cair a toalha, ou aberto a cortina da banheira.

Por isso agora, sempre que escrevo, como se tornou meu hábito a toda a hora e em qualquer lugar, e sempre que alguém espreita o que eu escrevo, recordo-me deste episódio e quase sinto o cheiro da maresia, a brisa mole nos cabelos e os raios de sol na pele.

Assim, como no velho ditado popular: "A curiosidade matou o gato!", também eu já poderia ter morrido muitas vezes, para isso bastava que em vez de humana, fosse um pequeno e doméstico felino.

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