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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

 

A noite caiu e pouca luz ela recebia dentro da tenda fechada. Começou a sentir frio. Tentou ignorar. Imaginou que tudo não passava de um sonho e tentou mesmo dormir um pouco. De nada servia, os seus receios e os barulhos que se faziam sentir na floresta, impediam qualquer relaxamento a uma menina de tão tenra idade, abandonada num ambiente hostil, amordaçada, amarrada e quase despida.

Os soldados foram recebidos cordialmente pelo grupo de escuteiros que já conheciam. Claude fez as honras da casa e foi um anfitrião perfeito. François estudava cada movimento dele, cada gesto, cada gesticulação, cada mudança no seu tom de voz. Durante o jantar ganhou coragem para perguntar:

- E a menina que desapareceu? Já sabem de alguma coisa?

- Parece que a mãe se sentiu mal. Ela tinha ido à vila buscar o pão e telefonou para os pais, ficando a saber da má disposição da mãe. Na altura, voltou para o campo, mas à noite, os remorsos começaram a acumular-se e decidiu, voltar para casa. Saiu e telefonou hoje à tarde a avisar do sucedido.

- Então está tudo bem? – Quis ainda saber, com um prazer mórbido em ouvir tamanho chorrilho de mentiras.

- Está, está tudo bem.

O fogo-de-conselho começou. Os dois soldados estavam divertidíssimos com a atenção que as meninas lhes dedicavam e com as piadas leves dos scatchs levados a conselho. François manteve-se um pouco afastado com o Claude e ambos começaram a conversar sobre inúmeras frivolidades. Ele era um excelente conversador e Claude sentia falta de conversar sobre outros assuntos. Assuntos que não podia conversar com mais ninguém. Dalila era um assunto que Claude podia conversar com um estranho, com alguém, que nunca mais veria e Deus sabia, o quanto ele precisava de desabafar sobre o assunto. François, apercebendo-se disso, convidou-o a afastar-se e entraram na floresta. Sentaram-se na mesma clareira, onde eles tinham raptado o seu anjo de luz e ofereceu-lhe a garrafa que tinha enchido, horas antes. Claude aceitou, prontamente, sem pensar em qualquer consequência. A conversa depressa rumou para o assunto que ambos desejavam.

- As raparigas do vosso agrupamento são muito giras... – brincou o François.

- Giras e perigosas. Se um homem não tem cuidado, é fisgado por elas e quando se apercebe, já está tão apaixonado, que pode dar cabo da vida em três tempos. – Desabafou, bebendo mais um golo daquela pequena garrafa.

- É... é uma idade complicada. Já parecem adultas, comportam-se como adultas e no entanto, amedrontam-se como crianças. Já passei por isso, sei como é. – Bebeu também ele, incentivando o seu rival a beber mais.

- Sabe... – procurou as palavras mais certas – A menina que procurávamos hoje...

- Sim, estou a ouvir. – Disse satisfeito por finalmente falar no assunto que lhe interessava.

- Ela é muito mais que um simples elemento do agrupamento. Ela é muito mais que uma criança normal.

- Você disse que ela tinha treze anos, não foi?

- Sim... mas apenas por medida de segurança, na realidade ela faz quinze anos depois de amanhã.

- Também, não é assim tão mais velha. – Ele estava realmente surpreendido. Depois do que se passara naquela tarde, ele tinha ficado com a impressão errada, de que ela teria, pelo menos, uns dezassete anos. Ela fazia, cada vez, menos sentido. Sentiu-se mal, por estar a cativar uma mulher tão jovem.

- Mas tem uma alma antiquíssima e já viveu mais do que qualquer um de nós suportaria. Eu sei que vocês, militares, vêm coisas que não fazem qualquer sentido, mas ela...ela já as viveu. – Ele falava com um orgulho e com um brilho nos olhos que o irritavam – Viveu e sobreviveu, com notas altíssimas.

- Não me diga que vocês têm alguma coisa...

- É impossível resistir-lhe. Ela é linda, cativante, carinhosa, esperta, inteligente, jovem, cheia de vida. Ela é mais madura que muitas mulheres de vinte e oito anos, com quem saio às vezes, para manter as aparências e para aliviar o stress... se é que me entende? – agora estavam a falar a língua dele.

- Quer dizer que vocês os dois, nunca tiveram relações sexuais? – Claude acenou que não – Nunca? – Insistia François.

- Nunca! Ela é muito sensual, ardente e fogosa, mas sempre que as coisas começam a caminhar para a cópula, ela retrai-se e é sempre uma frustração. – François ri, pois reconhece cada palavra proferida por aquele homem - Não me interprete mal. Ela não é frígida nem nada que se assemelhe, nem sequer é leiga em assuntos sensuais, passamos longas horas num namoro óptimo, mas creio que ela ficou traumatizada quanto à penetração em si. – Bebeu mais um pouco.

- Como assim traumatizada? – Bebeu também, Claude já estava bem alcoolizado e tropeçava nas palavras como se estas fossem obstáculos de uma árdua corrida.

- Como lhe disse, ela é melhor preparada que qualquer outra mulher adulta e madura que conheço...

- Mas como assim? Ela tem apenas catorze anos! É pouco mais que uma criança, nem sequer é uma jovem mulher.

- É que ela já passou muito nesta vida. – Ele quase pode ver uma lágrima saltar dos olhos de Claude, e observa como mal controla a sua mão quando agarra na garrafa, para apagar os pensamentos. O problema, como o é para qualquer tipo de fuga, é que o resultado é geralmente o contrário: quanto mais bebia, mais se recordava, mais queria falar, mais queria explicar.

- O que pode ela ter vivido, que lhe desse assim tanta maturidade, em tão pouco tempo?

- Ela veio do Gabão. Os pais dela eram lá fazendeiros. Tinham uma propriedade enorme, com terrenos de perder de vista e plantavam quase tudo, quanto aquele solo dava. Quando ela tinha apenas onze anos, ou seja, há três anos atrás, durante os motins e as revoltas, um bando de… - gaguejou antes de dizer a palavra, procurando o substantivo, ou o adjectivo correcto, talvez com medo de ofender alguém, ou apenas como resultado do álcool ingerido. - … de negros, liderados por uns quantos mercenários franceses, americanos e alemães, decidiram atacar tudo quanto era propriedade de brancos, roubando tudo quanto era possível: ouro, dinheiro, pratas… - engoliu em seco, olhando para a garrafa, mas sem engolir nenhum líquido desta vez – Levaram tudo que valesse dinheiro no mercado negro. Não havia qualquer luta política, nada, apenas simples ladrões a aproveitarem-se da situação confusa que o país vivia.

- Eu sei! Estive lá nessa altura. Também eu fui destacado para as forças da ONU, para manter a paz.

- Então sabes do que estou a falar. – Arrematou com um suspiro de alívio, por não ter que explicar algo que lhe era difícil de compreender.

- Mas continua, o que lhe aconteceu? – Perguntou ele, cada vez mais intrigado com o caminho que a história levava.

- Bem, como muitos outros desgraçados, a família dela também foi assaltada. O grupo roubou tudo o que tinha para roubar, mesmo perante a grande resistência que o pai dela ofereceu. Depois ataram a mãe dela e a ela a uma das vedações da quinta, obrigaram o pai a ajoelhar-se e a humilhar-se perante as duas mulheres da casa. – Bebeu mais um golo e pensou de novo nas palavras - Despiram-no e obrigaram-no a ver os campos das colheitas e todas as máquinas a arderem… - de novo uma pausa, como se à força de ele ter ouvido, da boca inocente dela, aquele relato, o tivesse feito viver a experiência – Na realidade, viu arder o trabalho de toda uma vida e cortaram-lhe a cabeça depois, com uma simples catana de mato.

- Mataram o pai à frente dela? – Claude acenou que sim – Tinha ela onze anos?!

- Sim, onze anos apenas. – François prostrou-se, assassinarem o nosso pai à frente dos nossos olhos, não é coisa que passe despercebida e sem qualquer mácula. – Mas isso não foi tudo. – Ele acenou para que continuasse e ofereceu a garrafa de novo, depois de dar um longo trago – Em seguida, pegaram na mãe, despiram-na e começaram a bater-lhe. Quando ela já não conseguia levantar-se do chão, tiraram à vez, a ordem pela qual a usariam.

- Santo Deus! – Disparou enojado com a imagem que realizou na sua mente.

- Mas isso foi o erro deles.

- Como assim?

- A Dalila, conseguiu soltar-se das cordas que a atavam e aproveitando-se da distracção dos assaltantes, ela pegou na catana do homem que estava em cima da mãe, o mesmo que matara o pai, e com ela, cortou-lhe a cabeça. Cheia de sangue e assustadíssima pelo que tinha acabado de fazer vira-se para os outros três homens e ameaça-os com a catana. Luta que nem uma louca, movendo-se por todos os lados e lançando aquela pesada arma a tudo o que se mexesse, atingindo quem quer que fosse que se aproximasse dela ou da mãe.

- Minha Nossa Senhora!

- É verdade, meu amigo. Parece mentira e tirado de um filme, mas não é. Foi assim que tudo se passou.

- Mas como é que ela sobreviveu a tudo isso?

- Bem! Os mercenários ao verem que os seus homens estavam a ser feridos por uma simples rapariguinha, acabaram por dar ordens para que as deixassem em paz. Afinal, já tinham o que queriam. Um deles, um americano, chegou mesmo a afirmar, que se uma miúda daquelas era capaz de lutar com tanta força, merecia viver muito mais que qualquer um deles.

- Valha-nos ao menos o peso da consciência de alguns deles. – Afirmou aliviado, como se ele ainda não soubesse que ela tinha sobrevivido. – E depois?

- Bem, aqui é que a história começa a ganhar contornos hollywodescos.

- Bem, eu gosto de um filme de acção. – Claude sorri.

- Um dos outros mercenários… - mais um pouco de veneno pela goela abaixo - … um que se tinha juntado ao grupo há pouco tempo, já estava com grandes problemas de consciência, pelas atitudes que o grupo tomava. – Limpa um pouco de whisky que lhe escorregava pelos cantos dos lábios, com a manga da camisa - Aquela cena toda acabou por lhe dar a certeza de que ele não pertencia ali. – Uma nova pausa, esta um pouco mais prolongada, como se estivesse a preparar um grande final, ou reviravolta. - Passado umas dez horas depois de tudo aquilo ter acontecido, ele abandonou-os e voltou à fazenda, na esperança de poder ajudar aquelas duas mulheres, como forma de remissão de pecados. Quando lá chegou, já a menina tinha começado a cavar um buraco, para enterrar os diversos corpos que estavam mortos por toda a propriedade e já tinha enterrado o pai ao lado da campa dos avós. A mãe estava a dormir, em completo estado de choque, deitada no chão do salão, tapada com um lençol de seda e com uma almofada por baixo da cabeça. – Atira um galho pequeno com que brincava, contra uma pedra. - As forças dela só lhe permitiram fazer aquilo.

- E já tinha sido um esforço hercúleo. – Ele vibrava com cada descrição daquela história. Aqueles eram os acontecimentos que tinham feito da sua amada, aquilo que ele tanto apreciava.

- Pois já. – Bebeu mais um pouco – Consegue agora perceber? Eu não estou a ter um caso com uma criança, eu estou a namorar com uma mulher feita. – François sorriu, conseguia compreender o que ele afirmava, mas tinha dúvidas.

- E o mercenário?

- Bem. O Jack, que hoje é padrasto dela, ao vê-la cavar aquela enorme cova, com uma pá que lhe parecia a ele, maior que ela, compadeceu-se e decidiu ali, naquele momento, que faria tudo, para diminuir a dor daquela família. – Jack, então ela chamava pelo padrasto.

- Então esse mercenário é hoje o pai dela?

- Mas ao princípio não era essa a sua intenção. – Comenta sarcasticamente.

- Como assim?

- Esse americano ajudou-a a queimar os corpos de todos os mortos na fazenda. Ela nunca lhe falou, até porque não conhecia nenhuma palavra em inglês. Ela apenas agradecia desconfiada a sua ajuda. Pediu que a seguisse até a casa e mostrou-lhe a mãe deitada no chão, num estado lastimoso, cheia de cortes na cara e no corpo todo, ensanguentada e desmaiada. – François observava cada movimento de olho, cada contracção muscular, cada pequeno movimento de pele, dos lábios. Percebia quando é que Claude estava enojado, excitado, ou simplesmente indignado. Reparou que coisas que o deixavam apavorado como sangue, o deixavam a ele indiferente. - Ele pegou nela ao colo e levou-a para o quarto. Tratou da mãe dela o melhor que pode, ela esperou por ele, exausta no grande salão, com a espingarda do pai na mão. Quando ele voltou à sala ela apontou-lhe a arma e disparou contra ele, acertando, no entanto, na vitrine esvaziada.

- Rapariga de fibra.

- É, fibra não lhe falta. Ele desarmou-a e disse que estava ali para a ajudar no que fosse necessário, durante o tempo que ela precisasse dos seus serviços, como um simples criado. Felizmente, ele sabia um pouco de francês. – Riram-se.

- E ela?

- Ela aceitou. Desmaiando logo em seguida.

- Coitada, depois de tudo o que passara! – Pensa um pouco em todo aquele cenário e conclui. – Já tinha ouvido em picos de adrenalina, mas o que se passou com ela,passou tudo aquilo que já havia ouvido. Parece que ela tem alma de sobrevivente, de guerreira, que é algo escrito no seu DNA. – Bebe ele um pouco do que ainda havia e deixa Claude continuar.

- Quando ela acordou, ela passou a mãozinha dela pelo rosto dele, como se quisesse dizer-lhe que precisava da protecção dele, para que ele tomasse conta dela. – O mesmo gesto de súplica que ela lhe fizera, recordou-se ele no mesmo instante. – E ele tratou dela, mas por mais que tentasse não conseguia ver nela, um único traço infantil. Depois de tudo o que ele vira aquela criança fazer, ele respeitava-a como uma adulta, como um ser que sabe cuidar de si, totalmente independente. Nos dias que se seguiram, acabaram por se fazer grandes amigos. Tratavam da mãe, (que apenas acordou um mês depois), das colheitas que se salvaram dos fogos, dos animais que sobraram e reconstruíram grande parte da fazenda. Uma noite, ela pediu-lhe que a ensinasse a lutar e ele compreendendo-a perfeitamente, assim o fez.

- Agora entendo... – Descaiu-se.

- Como assim? – Perguntou Claude confuso.

- Agora entendo porque dizes que ela é muito mais que uma criança. – Disfarçou.

- Pois é. O problema foi quando, ao longo dos treinos intensivos, o corpito dela começou a desabrochar e a desenvolver-se precocemente. Aquele ex-soldado, sem acesso a qualquer outra mulher e interagindo diariamente com ela, começou a querer mais, do que aquela relação de amigos.

- E a mãe?

- A mãe ficou muito traumatizada com a morte do marido e durante o ano que se seguiu, nunca se levantou da cama, ou proferiu qualquer palavra. Depois, de uma hora para a outra, levantou-se e preparou o pequeno-almoço para os três, como se o Jack fosse já membro da família.

- Não tinha sido para menos. – Ele envergonhava-se do que os homens eram capazes de fazer, principalmente, ex-soldados, homens treinados fortes e bem formados. Aquilo não fazia qualquer sentido para ele. Como eram eles capazes de tal barbárie?

- Mas antes, o Jack e a Dalila viveram sós, entregues a si mesmo. Treinavam todos os dias depois das tarefas diárias e não era um treino simples, mas sim, um treino capaz de vergar muito homem, tal como ele tinha recebido nos marines. Luta corpo-a-corpo, armas, qualquer tipo de armas, artes marciais, enfim, o serviço militar completo.

- E foi durante o treino que ele tentou ser mais que um amigo?

- E não conseguiu. Não que ela não se sentisse atraída por ele, acho que ainda hoje eles sentem uma forte atracção um pelo outro, basta reparar nos olhares que trocam, mas sempre que estavam a chegar a vias de facto, ela escapava dos seus braços tal qual uma enguia, exactamente o mesmo que ela faz comigo.

- Acho que está relacionado com o que aconteceu com a mãe. – Tentou arranjar uma explicação, para tanta resistência a um acto que surge naturalmente após os preliminares que ela gostava. – E ele não insistiu?

- Ele chegou a usar a violência e a força física, mas sempre que ela se rendia, repetia aquele gesto que tinha feito ainda meio inconsciente, de quando se conheceram e ele perdia toda a coragem para continuar. Ele não queria de forma alguma ser como os outros. Quando a mãe dela acordou para a vida, acabaram por se casar e desde então ele tem sido um pai exemplar para ela.

- Então és um homem de sorte. Ela é uma mulher excepcional. – Os olhos de Claude humedeceram – O que foi? Não te sentes um homem com sorte? Tens uma mulher maravilhosa como namorada e sempre que precisas de algo mais, procuras uma mulher mais velha e com menos complexos.

- Não é assim tão fácil. – Ele sabia que não – Existe uma mulher, com quem eu me encontro com maior regularidade, que engravidou. Eu ainda não contei nada à Dalila, mesmo eu, só soube um dia antes deste acampamento.

- O que pretendes fazer? – Ele ria-se por dentro.

- Acho que terei que casar com ela. A Dalila é especial e eu nunca amarei nenhuma outra mulher como a amo a ela, mas eu vou ser pai e não desgosto da ideia de me casar já. Tenho trinta e três anos e começo a não ter muito tempo para desperdiçar.

- Compreendo-te, meu amigo. - Disse com a confiança de quem nada tem a temer. Ele estava feliz, sabia tudo o que tinha que saber sobre a sua prisioneira, já compreendia tudo o que se passara e sabia também, que o namorado dela, não era rival para ele. – Há quanto tempo voltou ela de África?

- Há seis meses. O padrasto dela achou que se ela não se afastasse muito da vida do campo e fora de portas, ela não esqueceria o treino que ele lhe tinha dado e inscreveu-a nos escuteiros. Uma semana depois, já nós estávamos nos braços um do outro. Era-me impossível resistir-lhe. – Ele conhecia bem aquele sentimento, também a ele era impossível resistir-lhe, como se ela emanasse uma força magnética que atraía os homens até a si, tal como as sereias faziam aos navegadores. – Pena ela só ter catorze anos. Pena. – Acabou por beber o resto do líquido que estava na garrafa e o François teve que o ajudar a equilibrar-se, para que ele voltasse para a tenda.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

 

Mulher_deitada Adoro a forma como me olhas, mesmo quando te ordeno que não o faças.

Adoro a forma como me tocas, mesmo quando imploro que pares.

Adoro o teu jeito meio ingénuo de ser, mesmo quando parece que gozo contigo.

Adoro que digas que me amas, mesmo que nunca o diga de volta.

Adoro a forma como deixas o meu corpo a tremer, em doces contracções, mesmo depois de eu te ter dito que não queria nada contigo.

Adoro sentir a tua barba por fazer roçar na minha pele despida, sentir o teu rosto no meio das minhas coxas, sentir o quente da tua respiração no meu pescoço, sentir os teus lábios cobrirem o meu corpo com beijos.

É verdade que tudo isto adoro, mas… Mas não te envaideças pois, por natureza, eu adoro adorar.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

 

2696299Ele estava-lhe grato pela ajuda que ela tinha prestado, mas preocupava-se com o que estava a acontecer. Teria sido uma coisa mútua? Estariam os dois a passar pelo mesmo fenómeno? Estaria também ela, a apaixonar-se por ele? Algo acontecia, ambos sentiam, mas seria o mesmo para os dois? Ela recompôs-se. Não era só a emoção que a fazia desfalecer, ela já nada comia há alguns dias. O stress que ela tinha vindo a sofrer por parte das pressões de Claude, fizeram-na perder o apetite, quase por completo e agora...bem agora, nem sequer é preciso explicar.

Eles olham-se profundamente. Ela penetra na floresta verdejante que são os olhos dele. Pensa como ele cheira ao que os seus olhos são. Ele cheira a musgo, a rocha, a eucalipto, o mesmo que ela via nos seus olhos. Ele, por sua vez, observa as estrelas brilharem no céu escuro da noite, que são os olhos dela e também ela cheira a rosa em noite de luar. Ambos entram num lugar em que tudo pode acontecer, onde tudo é compreendido e perdoado, mas nenhum deles se sente à vontade com isso. Não agora. É muito cedo para perceberem e acabam por sair de lá, mais depressa do que lá chegaram. Ela desmaia e ele leva-a para a tenda, com a mesma devoção, com que tinha feito na primeira noite, quando a salvou das mãos dos seus companheiros.

Ela acorda com o seu cheiro forte de homem, mas não abre os olhos. Ele, sentado na cama, abraça-a com os seus braços e mantém-na junto de si, como se de um bebé se tratasse. A tarde estava abafada e parecia Verão de novo. Nenhum dos dois consegue explicar o que sente. Ela abre os olhos. Ele nunca vira nada tão brilhante. Os seus lábios tremem, numa vontade incontrolável de se beijarem, mas não o fazem. Ambos estão habituados a controlarem os seus impulsos.

- Porque é que foste ter comigo ontem à noite? – pergunta-lhe baixinho, como convinha ao momento que partilhavam.

- Senti-me culpada. Você tinha um papel a interpretar e não o conseguiu por causa de mim. – ele era lindo e ela teve a plena certeza disso, naquele momento. Ele até podia passar despercebido aos olhos de outras mulheres, mas para ela, ele era tudo o que ela sempre tinha esperado.

- Que idade tens? – ela não se esquece que ainda é prisioneira dele e não lhe responde – Porque é que me ajudaste?

- A minha mãe já sofreu muito e não precisa de sofrer ainda mais. Eu prefiro que ela pense que eu estou com o Claude, do que se angustie pela incerteza do meu paradeiro. – ela pensou um pouco – Pela primeira vez, uma mentira parece-me mais apropriada, que a verdade. Eu não o fiz por si, fi-lo por ela.

Essa era a verdade, ela não o tinha feito por ele, apenas pelo bem estar da mãe, que ela amava acima de tudo na sua vida. Algo se passava entre os dois, mas tudo parecia mais claro e lógico na mente dele, do que na dela. Ele já sabia que a amava, ele ainda não o chamava amor, mas sabia que era algo mais complexo do que nas paixões a que estava habituado. Ela, ainda nada percebia. A única razão para as suas acções era a sobrevivência, a sua sobrevivência.

Ele deitou-a e saiu. Voltou, pouco depois, com uma caneca de chá com açúcar. Ele sabia muito bem o que ela tinha. Ela bebeu em golos pequenos, tal qual uma princesa. Só agora ele se apercebia que ela vinha de uma classe social elevada. Os modos dela, a maneira de andar, a forma como prende o cabelo à cabeça, o tratamento cerimonial e a linguagem cuidada. A casa em Côte D’Azur. Ela era muito diferente dele. Vinham de mundos completamente diferentes.

- Sabes que não tens como escapar, não sabes?

Ele queria que ela se entregasse sem resistência, seria tudo muito mais fácil para ele. Ela acena que sim. Ela tem a consciência que não vai sair dali, começa mesmo a desconfiar, que provavelmente, não faz parte dos planos deles, que ela continue viva depois da missão, seja ela qual for. Mas ela não tem intenções de se subjugar. Ela cumprirá a sua parte naquela farsa, ela sobreviverá e cicatrizará todas as feridas do seu corpo e irá fazer tudo, mesmo tudo, para que a sua alma se mantenha ilesa. Alguém uma vez lhe disse: As feridas do corpo cicatrizam com o tempo, mas as da mente, duram o resto da vida. Ela levava essa máxima à letra e nunca deixava espaço, para se arrepender depois.

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