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sexta-feira, 20 de março de 2009

 

Era dia 20 de Março de 2009. Um cheiro doce pairava no ar, como se as flores quisessem tornar-se visíveis, mesmo na escuridão.

Nessa mesma noite, onde uma brisa suave soprava em todas as direcções, como se até o vento não quisesse que os cheiros se dissipassem, andava pela floresta um outro ser. Devido à pouca luz, era impossível decifrar se se tratava de um ser vivo, ou algo etéreo, não corpóreo. Vestia algo branco, de tecido leve, que surgia quase azul devido à luz da lua crescente. Os seus pés alvos por há muito tempo não serem beijados pelo sol, pisavam a caruma enquanto rodopiavam no meio das árvores e os cabelos, longos e escuros, desenhavam no ar espirais perfeitas. A sua pele, sim suponhamos que era pele, tinha o tom do alabastro e tremia do frio da noite alta. Ela esperava algo, aguardava por algo, rodopiava e olhava, inspirava e olhava. Dançava ao som do vento e esperava. Gradualmente, num crescendo frenesim, aumentou a frequência dos movimentos: rodopiava mais depressa, saltava mais alto, dançava freneticamente ao som do coração que batia, cada vez mais depressa, devido à antecipação. Rodou e girou, saltou e pulou, dançou e abraçou o ar que a rodeava com tanta intensidade que acabou por cair exausta.

A caruma húmida do orvalho da noite, molhou as suas finas vestes. Sentada no chão, as suas mãos formaram uma concha e agarram algumas folhas, relva e trevos e num gesto de bailarina, lançou esse pequeno tesouro ao ar. Observou embevecida os círculos que o vento desenhava com aqueles elementos. Na sua face um sorriso começou a forma-se e deixou-se cair  sem resistência para trás, no tapete macio do bosque, ficando a olhar para as poucas estrelas que ainda estavam no céu. Respirou fundo, a alça do vestido descaiu mostrando um pouco mais do seu seio suave. Não se importou, pois ninguém a observava enquanto esperava. Ela continuava a esperar que algo muito importante aparecesse.

Já quase não se via a lua, o ar começava a aquecer e a noite deu lugar a um lusco-fusco confuso. Um pássaro matutino piou e ela soube então, sentiu dentro de si, que já chegara e, nesse mesmo instante, nesse mesmo segundo em que respirou de novo, sorriu e disse numa voz cristalina:

“Bem Vindo Sr. Equinócio! Vá descansado, que eu cuido da Primavera.”

sexta-feira, 21 de março de 2008

Quando acordei deparei-me com um lindo dia azul. Um daqueles dias, que nos faz recordar os contos de fadas, de florestas encantadas, de paisagens bucólicas e não pude evitar de me recordar um texto que li há alguns anos. Por isso decidi partilhar com vocês.

A Primavera

Ai, que lumes e perfumes! Ai, como riem os prados! Ai, que alvoradas se ouvem! (Romance popular) No meu entredormir matinal, irrita-me uma endiabrada gritaria do rapazio. Finalmente, sem poder dormir mais, levanto-me, desesperado, da cama. Então ao olhar pela janela aberta, vejo que quem faz barulho são os pássaros. Saio para o horto e dou graças a Deus por este dia Azul. Concerto livre de bicos, fresco e sem fim! A andorinha ondula, caprichosa, o seu gorjeio no poço; o melro assobia sobre a laranja caída; de fogo, o verdilhão palra no sobreiro; o chamariz ri longa e finamente no alto do eucalipto; e, no pinheiro grande, os pardais discutem desaforadamente. Que manhã! O sol põe na Terra a sua alegria de prata e de ouro; borboletas de cem cores brincam por toda a parte, entre as flores, dentro de casa, na fonte. O campo abre-se em estalidos, encrepitações, num fervedouro de vida nova e sã. É como se estivéssemos dentro de um grande favo de luz que fosse o interior de uma imensa e cálida rosa acesa.

Juan Ramon Jimenez - "A Primavera", do livro "Platero e Eu".

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