… Quando estava a fazer a minha caminhada do Rossio aos Anjos, na direcção do suplício que, bem ou mal, vai pagando as contas, um rapaz atira um piropo, que para mim era, totalmente, novo e que por instantes pensei mesmo ser um insulto:
- Estás bala, hoje!
Eu ouvi, mas não processei com a rapidez necessária, até que três passos mais à frente, (não sei quantos passos foram, mas três pareceram-me mais literários), dei-me conta do substantivo, que ele utilizou como qualificativo, para com a minha pessoa. Parei a marcha apressada e voltei atrás, retirei os auscultadores do mp3 dos meus ouvidos e reparei no aspecto assustado do rapaz, por eu me estar a dirigir a ele. Com toda a certeza, não deve ser habitual, as raparigas a quem ele solta piropos, voltarem atrás para falarem com ele, mas hei! Eu não sou uma rapariga qualquer! As suas faces roborizaram um pouco, quando eu finalmente, acabo por lhe perguntar:
- Bom dia!
- Bom dia! – sorri.
- O que quer dizer “bala”?! – despacho curiosa
- Quer dizer que podes matar um homem, mesmo só de raspão… – responde pouco convicto e eu:
-Ah, OK! Então acho que tenho que dizer obrigada, não é?! – ele sorri tímido, algo que contrasta com a desenvoltura com que havia soltado o exótico elogio segundos antes. - Tem um bom dia, então!
Ele desmancha-se a rir, talvez por nervosismo, ou então pelo facto insólito que teria para contar aos amigos e eu retomo o meu passo apressado para o escritório, com os auscultadores de novo nos ouvidos e com um sorriso de orelha a orelha. Sim porque não há nada melhor para fazer uma mulher sorrir, do que a comparar a uma Serial Killer.
Boa Semana!