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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

 

2696299Ele estava-lhe grato pela ajuda que ela tinha prestado, mas preocupava-se com o que estava a acontecer. Teria sido uma coisa mútua? Estariam os dois a passar pelo mesmo fenómeno? Estaria também ela, a apaixonar-se por ele? Algo acontecia, ambos sentiam, mas seria o mesmo para os dois? Ela recompôs-se. Não era só a emoção que a fazia desfalecer, ela já nada comia há alguns dias. O stress que ela tinha vindo a sofrer por parte das pressões de Claude, fizeram-na perder o apetite, quase por completo e agora...bem agora, nem sequer é preciso explicar.

Eles olham-se profundamente. Ela penetra na floresta verdejante que são os olhos dele. Pensa como ele cheira ao que os seus olhos são. Ele cheira a musgo, a rocha, a eucalipto, o mesmo que ela via nos seus olhos. Ele, por sua vez, observa as estrelas brilharem no céu escuro da noite, que são os olhos dela e também ela cheira a rosa em noite de luar. Ambos entram num lugar em que tudo pode acontecer, onde tudo é compreendido e perdoado, mas nenhum deles se sente à vontade com isso. Não agora. É muito cedo para perceberem e acabam por sair de lá, mais depressa do que lá chegaram. Ela desmaia e ele leva-a para a tenda, com a mesma devoção, com que tinha feito na primeira noite, quando a salvou das mãos dos seus companheiros.

Ela acorda com o seu cheiro forte de homem, mas não abre os olhos. Ele, sentado na cama, abraça-a com os seus braços e mantém-na junto de si, como se de um bebé se tratasse. A tarde estava abafada e parecia Verão de novo. Nenhum dos dois consegue explicar o que sente. Ela abre os olhos. Ele nunca vira nada tão brilhante. Os seus lábios tremem, numa vontade incontrolável de se beijarem, mas não o fazem. Ambos estão habituados a controlarem os seus impulsos.

- Porque é que foste ter comigo ontem à noite? – pergunta-lhe baixinho, como convinha ao momento que partilhavam.

- Senti-me culpada. Você tinha um papel a interpretar e não o conseguiu por causa de mim. – ele era lindo e ela teve a plena certeza disso, naquele momento. Ele até podia passar despercebido aos olhos de outras mulheres, mas para ela, ele era tudo o que ela sempre tinha esperado.

- Que idade tens? – ela não se esquece que ainda é prisioneira dele e não lhe responde – Porque é que me ajudaste?

- A minha mãe já sofreu muito e não precisa de sofrer ainda mais. Eu prefiro que ela pense que eu estou com o Claude, do que se angustie pela incerteza do meu paradeiro. – ela pensou um pouco – Pela primeira vez, uma mentira parece-me mais apropriada, que a verdade. Eu não o fiz por si, fi-lo por ela.

Essa era a verdade, ela não o tinha feito por ele, apenas pelo bem estar da mãe, que ela amava acima de tudo na sua vida. Algo se passava entre os dois, mas tudo parecia mais claro e lógico na mente dele, do que na dela. Ele já sabia que a amava, ele ainda não o chamava amor, mas sabia que era algo mais complexo do que nas paixões a que estava habituado. Ela, ainda nada percebia. A única razão para as suas acções era a sobrevivência, a sua sobrevivência.

Ele deitou-a e saiu. Voltou, pouco depois, com uma caneca de chá com açúcar. Ele sabia muito bem o que ela tinha. Ela bebeu em golos pequenos, tal qual uma princesa. Só agora ele se apercebia que ela vinha de uma classe social elevada. Os modos dela, a maneira de andar, a forma como prende o cabelo à cabeça, o tratamento cerimonial e a linguagem cuidada. A casa em Côte D’Azur. Ela era muito diferente dele. Vinham de mundos completamente diferentes.

- Sabes que não tens como escapar, não sabes?

Ele queria que ela se entregasse sem resistência, seria tudo muito mais fácil para ele. Ela acena que sim. Ela tem a consciência que não vai sair dali, começa mesmo a desconfiar, que provavelmente, não faz parte dos planos deles, que ela continue viva depois da missão, seja ela qual for. Mas ela não tem intenções de se subjugar. Ela cumprirá a sua parte naquela farsa, ela sobreviverá e cicatrizará todas as feridas do seu corpo e irá fazer tudo, mesmo tudo, para que a sua alma se mantenha ilesa. Alguém uma vez lhe disse: As feridas do corpo cicatrizam com o tempo, mas as da mente, duram o resto da vida. Ela levava essa máxima à letra e nunca deixava espaço, para se arrepender depois.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Estava uma solarenga manhã de Primavera e eu observava de longe e sem dar nas vistas, a azáfama da minha pequena sobrinha. Enquanto arrumava o quarto, fazia a cama e limpava o pó, a pequena menina de cabelos longos e dourados, parecia uma formiguinha, de um lado para o outro da varanda (o seu espaço de brinquedos); mexendo e remexendo, virando os cestos de cabeça para baixo e voltando a enchê-los com os mesmos objectos coloridos espalhados pelo chão, pela força da gravidade.
Era mais que óbvio que ela procurava algo, talvez um brinquedo com o qual sonhara, ou que alguma coisa a havia feito recordar. O certo é que estava decidida a encontrá-lo e continuava, numa busca metódica, na senda do objecto misterioso.
- Precisas de ajuda? - Pergunto solícita.
- Não tia! Obrigada! - A resposta foi tão seca e pronta que coloquei a hipótese,e também ela, não ter a certeza do que procurava.
Continuei com os meus afazeres, mas os meus ouvidos continuaram atentos à lufa-lufa ruidosa. Por vezes, ouvia-a suspirar, ou resmungar algo entre dentes e depois, quando estava prestes a chamá-la para irmos para a escola, o silêncio instalou-se.
Disse-me o meu instinto, que quando se trata de crianças, o silêncio nunca é bom sinal e preparava-me para ir ver o que se passava quando ouvi uma sonora gargalhada de satisfação, um Ah! Ah! de missão cumprida. Sorri ainda antes de ver o seu semblante angelical de enormes olhos pestanudos, avançar para mim, com uma confiança readquirida.
- Ainda demoramos muito, tia? - Perguntou ao esconder algo no bolso lateral da mochila laranja.
- É só vestires o casaco. - Sorri-lhe e ela obedeceu com o meu auxílio. - Podemos tomar um café, antes de irmos? - Sim, temos tempo. Respondi desconfiada. Fosse o que fosse que procurava, tinha utilização ao ar livre.
Descemos os três andares, apenas trocando olhares cúmplices e sorrisos. Ela, tagarela por excelência, não disse uma palavra durante o percurso feito de elevador. Assim que chegámos ao R/C, correu para a porta perguntando, enquanto abria:
- É um café, não é? - Acenei que sim, tentando conter a minha curiosidade.
- Não corras! - Disse antes de a porta do prédio bater com estrondo. "Já era hora de arranjarem a mola!" - Pensei, ao precipitar-me para a rua, pois ficar sem ver a minha bebé, era algo que não me deixava confortável.
Quando cheguei ao café, ainda a vi a correr para lá, já ela transportava, vitoriosa, a chávena para uma das mesas. Cumprimentei as pessoas que lá estavam e sentei-me para beber o líquido quente e energizante.
- Posso ir lá para fora? - Pergunta-me com os olhos brilhantes e expectantes.
- Mas não saias aqui da frente. - Recomendo e ela corre lá para fora com algo na mão, deixando a mochila em cima duma cadeira.
Olhei-a atenta, finalmente iria descobrir o segredo que me escondia. As suas mãos pequenas, seguraram em dois punhos amarelos, enquanto, com uma graça de serpente encantada, uma corda caiu no chão. Era um pouco grande, pelo que enrolou uma volta em cada mão e devagar, fez várias tentativas de rotação. Em menos de um minuto, a corda já passava por cima da sua cabeça e batia no chão, num movimento rotacional que seria perfeito, se não fosse, invariavelmente, interrompido pelos seus pés trapalhões, que se recusavam a sair do chão, quando a sua mente mandava.
Mudou de estratégia. Respirou fundo, deixou a corda quieta e pulou cinco vezes, apenas para verificar se não havia nenhuma pastilha elástica pegajosa, deixada por um qualquer duende brincalhão, que a estivesse a impedir de saltar, como se via a saltar na sua cabeça. Olhou mais uma vez, desconfiada, para a sola dos ténis e desviou-se, perto de um metro do local onde estava. A corda voltou a girar e desta vez, passou por completo, batendo 1, 2, 3 vezes no chão, antes de encontrar, de novo, os seus pés preguiçosos. Balbuciou qualquer coisa e recomeçou, desta vez, ais devagar. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, e de novo os pés.
- 1, 2, 3... - Ouvia-se a sua vózinha ofegante, mas muito concentrada. - 6, 7, 8, 9, 10... - A sua cara soltou-se e esboçou um sorriso de contentamento. - 13, 14... - Uma gargalhada. - 16, 17, 18... - Um gancho cai no chão. - 19, 20.
Pára cansada do esforço. Recupera o fôlego com inspirações rápidas. Tenho vontade de ir dar-lhe os parabéns, mas sei que nestas ocasiões, ficamos sempre atrapalhados, queremos mostrar a nossa façanha e nunca a conseguimos repetir. Sei perfeitamente, o quão frustrante essa sensação pode ser, por isso, deixei-me ficar sentada, lutando contra a minha vontade. Ainda podia dar mais quinze minutos e ela parecia tão feliz!
Em pouco tempo recomeça. Eu tiro o telemóvel da mala e começo a filmar.
- 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10... - E ri-se eufórica. - 13, 14, 15, 16... - Uma gargalhada, esta bem sonora. - 20, 21, 22, 23, 24... - Olha pelo vidro do café e confirma feliz que eu estou a ver. - 30, 31, 32, 33, 34, 35. - Parou. Correu para os meus braços, transpirada, desfraldada e despenteada. - Viste, Titi? Viste?! - Acenei que sim e dou-lhe um beijo na testa, ao mesmo tempo que lhe componho a roupa e o cabelo.

- Muito bem! Saltas muito bem! - Coloco-lhe a mochila às costas. - Ao princípio, não conseguia, mas agora é fácil. Antes era ainda bebé, era pequenina, tinha 4 anos. Mas agora já consigo. - Pois! O importante é não desistir. Quando não se consegue à primeira, respiramos fundo e voltamos a tentar, tantas vezes, quantas forem necessárias. Nunca se desiste. - Pois não tia! Eu não desisti.

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