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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

 

A noite caiu e pouca luz ela recebia dentro da tenda fechada. Começou a sentir frio. Tentou ignorar. Imaginou que tudo não passava de um sonho e tentou mesmo dormir um pouco. De nada servia, os seus receios e os barulhos que se faziam sentir na floresta, impediam qualquer relaxamento a uma menina de tão tenra idade, abandonada num ambiente hostil, amordaçada, amarrada e quase despida.

Os soldados foram recebidos cordialmente pelo grupo de escuteiros que já conheciam. Claude fez as honras da casa e foi um anfitrião perfeito. François estudava cada movimento dele, cada gesto, cada gesticulação, cada mudança no seu tom de voz. Durante o jantar ganhou coragem para perguntar:

- E a menina que desapareceu? Já sabem de alguma coisa?

- Parece que a mãe se sentiu mal. Ela tinha ido à vila buscar o pão e telefonou para os pais, ficando a saber da má disposição da mãe. Na altura, voltou para o campo, mas à noite, os remorsos começaram a acumular-se e decidiu, voltar para casa. Saiu e telefonou hoje à tarde a avisar do sucedido.

- Então está tudo bem? – Quis ainda saber, com um prazer mórbido em ouvir tamanho chorrilho de mentiras.

- Está, está tudo bem.

O fogo-de-conselho começou. Os dois soldados estavam divertidíssimos com a atenção que as meninas lhes dedicavam e com as piadas leves dos scatchs levados a conselho. François manteve-se um pouco afastado com o Claude e ambos começaram a conversar sobre inúmeras frivolidades. Ele era um excelente conversador e Claude sentia falta de conversar sobre outros assuntos. Assuntos que não podia conversar com mais ninguém. Dalila era um assunto que Claude podia conversar com um estranho, com alguém, que nunca mais veria e Deus sabia, o quanto ele precisava de desabafar sobre o assunto. François, apercebendo-se disso, convidou-o a afastar-se e entraram na floresta. Sentaram-se na mesma clareira, onde eles tinham raptado o seu anjo de luz e ofereceu-lhe a garrafa que tinha enchido, horas antes. Claude aceitou, prontamente, sem pensar em qualquer consequência. A conversa depressa rumou para o assunto que ambos desejavam.

- As raparigas do vosso agrupamento são muito giras... – brincou o François.

- Giras e perigosas. Se um homem não tem cuidado, é fisgado por elas e quando se apercebe, já está tão apaixonado, que pode dar cabo da vida em três tempos. – Desabafou, bebendo mais um golo daquela pequena garrafa.

- É... é uma idade complicada. Já parecem adultas, comportam-se como adultas e no entanto, amedrontam-se como crianças. Já passei por isso, sei como é. – Bebeu também ele, incentivando o seu rival a beber mais.

- Sabe... – procurou as palavras mais certas – A menina que procurávamos hoje...

- Sim, estou a ouvir. – Disse satisfeito por finalmente falar no assunto que lhe interessava.

- Ela é muito mais que um simples elemento do agrupamento. Ela é muito mais que uma criança normal.

- Você disse que ela tinha treze anos, não foi?

- Sim... mas apenas por medida de segurança, na realidade ela faz quinze anos depois de amanhã.

- Também, não é assim tão mais velha. – Ele estava realmente surpreendido. Depois do que se passara naquela tarde, ele tinha ficado com a impressão errada, de que ela teria, pelo menos, uns dezassete anos. Ela fazia, cada vez, menos sentido. Sentiu-se mal, por estar a cativar uma mulher tão jovem.

- Mas tem uma alma antiquíssima e já viveu mais do que qualquer um de nós suportaria. Eu sei que vocês, militares, vêm coisas que não fazem qualquer sentido, mas ela...ela já as viveu. – Ele falava com um orgulho e com um brilho nos olhos que o irritavam – Viveu e sobreviveu, com notas altíssimas.

- Não me diga que vocês têm alguma coisa...

- É impossível resistir-lhe. Ela é linda, cativante, carinhosa, esperta, inteligente, jovem, cheia de vida. Ela é mais madura que muitas mulheres de vinte e oito anos, com quem saio às vezes, para manter as aparências e para aliviar o stress... se é que me entende? – agora estavam a falar a língua dele.

- Quer dizer que vocês os dois, nunca tiveram relações sexuais? – Claude acenou que não – Nunca? – Insistia François.

- Nunca! Ela é muito sensual, ardente e fogosa, mas sempre que as coisas começam a caminhar para a cópula, ela retrai-se e é sempre uma frustração. – François ri, pois reconhece cada palavra proferida por aquele homem - Não me interprete mal. Ela não é frígida nem nada que se assemelhe, nem sequer é leiga em assuntos sensuais, passamos longas horas num namoro óptimo, mas creio que ela ficou traumatizada quanto à penetração em si. – Bebeu mais um pouco.

- Como assim traumatizada? – Bebeu também, Claude já estava bem alcoolizado e tropeçava nas palavras como se estas fossem obstáculos de uma árdua corrida.

- Como lhe disse, ela é melhor preparada que qualquer outra mulher adulta e madura que conheço...

- Mas como assim? Ela tem apenas catorze anos! É pouco mais que uma criança, nem sequer é uma jovem mulher.

- É que ela já passou muito nesta vida. – Ele quase pode ver uma lágrima saltar dos olhos de Claude, e observa como mal controla a sua mão quando agarra na garrafa, para apagar os pensamentos. O problema, como o é para qualquer tipo de fuga, é que o resultado é geralmente o contrário: quanto mais bebia, mais se recordava, mais queria falar, mais queria explicar.

- O que pode ela ter vivido, que lhe desse assim tanta maturidade, em tão pouco tempo?

- Ela veio do Gabão. Os pais dela eram lá fazendeiros. Tinham uma propriedade enorme, com terrenos de perder de vista e plantavam quase tudo, quanto aquele solo dava. Quando ela tinha apenas onze anos, ou seja, há três anos atrás, durante os motins e as revoltas, um bando de… - gaguejou antes de dizer a palavra, procurando o substantivo, ou o adjectivo correcto, talvez com medo de ofender alguém, ou apenas como resultado do álcool ingerido. - … de negros, liderados por uns quantos mercenários franceses, americanos e alemães, decidiram atacar tudo quanto era propriedade de brancos, roubando tudo quanto era possível: ouro, dinheiro, pratas… - engoliu em seco, olhando para a garrafa, mas sem engolir nenhum líquido desta vez – Levaram tudo que valesse dinheiro no mercado negro. Não havia qualquer luta política, nada, apenas simples ladrões a aproveitarem-se da situação confusa que o país vivia.

- Eu sei! Estive lá nessa altura. Também eu fui destacado para as forças da ONU, para manter a paz.

- Então sabes do que estou a falar. – Arrematou com um suspiro de alívio, por não ter que explicar algo que lhe era difícil de compreender.

- Mas continua, o que lhe aconteceu? – Perguntou ele, cada vez mais intrigado com o caminho que a história levava.

- Bem, como muitos outros desgraçados, a família dela também foi assaltada. O grupo roubou tudo o que tinha para roubar, mesmo perante a grande resistência que o pai dela ofereceu. Depois ataram a mãe dela e a ela a uma das vedações da quinta, obrigaram o pai a ajoelhar-se e a humilhar-se perante as duas mulheres da casa. – Bebeu mais um golo e pensou de novo nas palavras - Despiram-no e obrigaram-no a ver os campos das colheitas e todas as máquinas a arderem… - de novo uma pausa, como se à força de ele ter ouvido, da boca inocente dela, aquele relato, o tivesse feito viver a experiência – Na realidade, viu arder o trabalho de toda uma vida e cortaram-lhe a cabeça depois, com uma simples catana de mato.

- Mataram o pai à frente dela? – Claude acenou que sim – Tinha ela onze anos?!

- Sim, onze anos apenas. – François prostrou-se, assassinarem o nosso pai à frente dos nossos olhos, não é coisa que passe despercebida e sem qualquer mácula. – Mas isso não foi tudo. – Ele acenou para que continuasse e ofereceu a garrafa de novo, depois de dar um longo trago – Em seguida, pegaram na mãe, despiram-na e começaram a bater-lhe. Quando ela já não conseguia levantar-se do chão, tiraram à vez, a ordem pela qual a usariam.

- Santo Deus! – Disparou enojado com a imagem que realizou na sua mente.

- Mas isso foi o erro deles.

- Como assim?

- A Dalila, conseguiu soltar-se das cordas que a atavam e aproveitando-se da distracção dos assaltantes, ela pegou na catana do homem que estava em cima da mãe, o mesmo que matara o pai, e com ela, cortou-lhe a cabeça. Cheia de sangue e assustadíssima pelo que tinha acabado de fazer vira-se para os outros três homens e ameaça-os com a catana. Luta que nem uma louca, movendo-se por todos os lados e lançando aquela pesada arma a tudo o que se mexesse, atingindo quem quer que fosse que se aproximasse dela ou da mãe.

- Minha Nossa Senhora!

- É verdade, meu amigo. Parece mentira e tirado de um filme, mas não é. Foi assim que tudo se passou.

- Mas como é que ela sobreviveu a tudo isso?

- Bem! Os mercenários ao verem que os seus homens estavam a ser feridos por uma simples rapariguinha, acabaram por dar ordens para que as deixassem em paz. Afinal, já tinham o que queriam. Um deles, um americano, chegou mesmo a afirmar, que se uma miúda daquelas era capaz de lutar com tanta força, merecia viver muito mais que qualquer um deles.

- Valha-nos ao menos o peso da consciência de alguns deles. – Afirmou aliviado, como se ele ainda não soubesse que ela tinha sobrevivido. – E depois?

- Bem, aqui é que a história começa a ganhar contornos hollywodescos.

- Bem, eu gosto de um filme de acção. – Claude sorri.

- Um dos outros mercenários… - mais um pouco de veneno pela goela abaixo - … um que se tinha juntado ao grupo há pouco tempo, já estava com grandes problemas de consciência, pelas atitudes que o grupo tomava. – Limpa um pouco de whisky que lhe escorregava pelos cantos dos lábios, com a manga da camisa - Aquela cena toda acabou por lhe dar a certeza de que ele não pertencia ali. – Uma nova pausa, esta um pouco mais prolongada, como se estivesse a preparar um grande final, ou reviravolta. - Passado umas dez horas depois de tudo aquilo ter acontecido, ele abandonou-os e voltou à fazenda, na esperança de poder ajudar aquelas duas mulheres, como forma de remissão de pecados. Quando lá chegou, já a menina tinha começado a cavar um buraco, para enterrar os diversos corpos que estavam mortos por toda a propriedade e já tinha enterrado o pai ao lado da campa dos avós. A mãe estava a dormir, em completo estado de choque, deitada no chão do salão, tapada com um lençol de seda e com uma almofada por baixo da cabeça. – Atira um galho pequeno com que brincava, contra uma pedra. - As forças dela só lhe permitiram fazer aquilo.

- E já tinha sido um esforço hercúleo. – Ele vibrava com cada descrição daquela história. Aqueles eram os acontecimentos que tinham feito da sua amada, aquilo que ele tanto apreciava.

- Pois já. – Bebeu mais um pouco – Consegue agora perceber? Eu não estou a ter um caso com uma criança, eu estou a namorar com uma mulher feita. – François sorriu, conseguia compreender o que ele afirmava, mas tinha dúvidas.

- E o mercenário?

- Bem. O Jack, que hoje é padrasto dela, ao vê-la cavar aquela enorme cova, com uma pá que lhe parecia a ele, maior que ela, compadeceu-se e decidiu ali, naquele momento, que faria tudo, para diminuir a dor daquela família. – Jack, então ela chamava pelo padrasto.

- Então esse mercenário é hoje o pai dela?

- Mas ao princípio não era essa a sua intenção. – Comenta sarcasticamente.

- Como assim?

- Esse americano ajudou-a a queimar os corpos de todos os mortos na fazenda. Ela nunca lhe falou, até porque não conhecia nenhuma palavra em inglês. Ela apenas agradecia desconfiada a sua ajuda. Pediu que a seguisse até a casa e mostrou-lhe a mãe deitada no chão, num estado lastimoso, cheia de cortes na cara e no corpo todo, ensanguentada e desmaiada. – François observava cada movimento de olho, cada contracção muscular, cada pequeno movimento de pele, dos lábios. Percebia quando é que Claude estava enojado, excitado, ou simplesmente indignado. Reparou que coisas que o deixavam apavorado como sangue, o deixavam a ele indiferente. - Ele pegou nela ao colo e levou-a para o quarto. Tratou da mãe dela o melhor que pode, ela esperou por ele, exausta no grande salão, com a espingarda do pai na mão. Quando ele voltou à sala ela apontou-lhe a arma e disparou contra ele, acertando, no entanto, na vitrine esvaziada.

- Rapariga de fibra.

- É, fibra não lhe falta. Ele desarmou-a e disse que estava ali para a ajudar no que fosse necessário, durante o tempo que ela precisasse dos seus serviços, como um simples criado. Felizmente, ele sabia um pouco de francês. – Riram-se.

- E ela?

- Ela aceitou. Desmaiando logo em seguida.

- Coitada, depois de tudo o que passara! – Pensa um pouco em todo aquele cenário e conclui. – Já tinha ouvido em picos de adrenalina, mas o que se passou com ela,passou tudo aquilo que já havia ouvido. Parece que ela tem alma de sobrevivente, de guerreira, que é algo escrito no seu DNA. – Bebe ele um pouco do que ainda havia e deixa Claude continuar.

- Quando ela acordou, ela passou a mãozinha dela pelo rosto dele, como se quisesse dizer-lhe que precisava da protecção dele, para que ele tomasse conta dela. – O mesmo gesto de súplica que ela lhe fizera, recordou-se ele no mesmo instante. – E ele tratou dela, mas por mais que tentasse não conseguia ver nela, um único traço infantil. Depois de tudo o que ele vira aquela criança fazer, ele respeitava-a como uma adulta, como um ser que sabe cuidar de si, totalmente independente. Nos dias que se seguiram, acabaram por se fazer grandes amigos. Tratavam da mãe, (que apenas acordou um mês depois), das colheitas que se salvaram dos fogos, dos animais que sobraram e reconstruíram grande parte da fazenda. Uma noite, ela pediu-lhe que a ensinasse a lutar e ele compreendendo-a perfeitamente, assim o fez.

- Agora entendo... – Descaiu-se.

- Como assim? – Perguntou Claude confuso.

- Agora entendo porque dizes que ela é muito mais que uma criança. – Disfarçou.

- Pois é. O problema foi quando, ao longo dos treinos intensivos, o corpito dela começou a desabrochar e a desenvolver-se precocemente. Aquele ex-soldado, sem acesso a qualquer outra mulher e interagindo diariamente com ela, começou a querer mais, do que aquela relação de amigos.

- E a mãe?

- A mãe ficou muito traumatizada com a morte do marido e durante o ano que se seguiu, nunca se levantou da cama, ou proferiu qualquer palavra. Depois, de uma hora para a outra, levantou-se e preparou o pequeno-almoço para os três, como se o Jack fosse já membro da família.

- Não tinha sido para menos. – Ele envergonhava-se do que os homens eram capazes de fazer, principalmente, ex-soldados, homens treinados fortes e bem formados. Aquilo não fazia qualquer sentido para ele. Como eram eles capazes de tal barbárie?

- Mas antes, o Jack e a Dalila viveram sós, entregues a si mesmo. Treinavam todos os dias depois das tarefas diárias e não era um treino simples, mas sim, um treino capaz de vergar muito homem, tal como ele tinha recebido nos marines. Luta corpo-a-corpo, armas, qualquer tipo de armas, artes marciais, enfim, o serviço militar completo.

- E foi durante o treino que ele tentou ser mais que um amigo?

- E não conseguiu. Não que ela não se sentisse atraída por ele, acho que ainda hoje eles sentem uma forte atracção um pelo outro, basta reparar nos olhares que trocam, mas sempre que estavam a chegar a vias de facto, ela escapava dos seus braços tal qual uma enguia, exactamente o mesmo que ela faz comigo.

- Acho que está relacionado com o que aconteceu com a mãe. – Tentou arranjar uma explicação, para tanta resistência a um acto que surge naturalmente após os preliminares que ela gostava. – E ele não insistiu?

- Ele chegou a usar a violência e a força física, mas sempre que ela se rendia, repetia aquele gesto que tinha feito ainda meio inconsciente, de quando se conheceram e ele perdia toda a coragem para continuar. Ele não queria de forma alguma ser como os outros. Quando a mãe dela acordou para a vida, acabaram por se casar e desde então ele tem sido um pai exemplar para ela.

- Então és um homem de sorte. Ela é uma mulher excepcional. – Os olhos de Claude humedeceram – O que foi? Não te sentes um homem com sorte? Tens uma mulher maravilhosa como namorada e sempre que precisas de algo mais, procuras uma mulher mais velha e com menos complexos.

- Não é assim tão fácil. – Ele sabia que não – Existe uma mulher, com quem eu me encontro com maior regularidade, que engravidou. Eu ainda não contei nada à Dalila, mesmo eu, só soube um dia antes deste acampamento.

- O que pretendes fazer? – Ele ria-se por dentro.

- Acho que terei que casar com ela. A Dalila é especial e eu nunca amarei nenhuma outra mulher como a amo a ela, mas eu vou ser pai e não desgosto da ideia de me casar já. Tenho trinta e três anos e começo a não ter muito tempo para desperdiçar.

- Compreendo-te, meu amigo. - Disse com a confiança de quem nada tem a temer. Ele estava feliz, sabia tudo o que tinha que saber sobre a sua prisioneira, já compreendia tudo o que se passara e sabia também, que o namorado dela, não era rival para ele. – Há quanto tempo voltou ela de África?

- Há seis meses. O padrasto dela achou que se ela não se afastasse muito da vida do campo e fora de portas, ela não esqueceria o treino que ele lhe tinha dado e inscreveu-a nos escuteiros. Uma semana depois, já nós estávamos nos braços um do outro. Era-me impossível resistir-lhe. – Ele conhecia bem aquele sentimento, também a ele era impossível resistir-lhe, como se ela emanasse uma força magnética que atraía os homens até a si, tal como as sereias faziam aos navegadores. – Pena ela só ter catorze anos. Pena. – Acabou por beber o resto do líquido que estava na garrafa e o François teve que o ajudar a equilibrar-se, para que ele voltasse para a tenda.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

 

David-Boreanaz-agf02O outro soldado veio chamá-lo. Estava na hora. Ele diz que já vai. Troca as calças que está a usar, aquelas estavam rasgadas. Não veste uma camisa, optando por um pulôver azul-escuro com meia gola e fecho no ombro. Ficava-lhe muito bem. Ela sabia que no agrupamento, haveria muitas amigas suas que ficariam a suspirar por ele, naquela noite. Porque seria que ela sentia um misto de ciúme e raiva? Poderia ela estar a apaixonar-se? Seria o amor à primeira vista, uma realidade, na qual ela nunca acreditou? Ambos guardaram os seus pensamentos. O que se passara durante a tarde tinha sido sério, muito sério e os dois, tinham plena consciência disso.

Ele olha-a, está constantemente a olhar para ela, a decorar cada traço, a observar cada movimento da luz no seu rosto, cada partícula de luz que se separa na sua pele, saltando de vergonha de não ser tão perfeita como ela e perdendo-se no ar, para sempre, transformando-se em algo que ela pode usar a seu favor, energia pura. Ela parecia-lhe um anjo de luz, um ser de energia, algo que foi feito para nunca ser maculado. E a ele? A ele, cabia-lhe a tarefa de domar essa energia, de a tornar sua, de a proteger, de fazer tudo, para que ela sofra o menos possível, nestes dias que se aproximam e que ele não pode alterar. Ela evita olhá-lo, não quer de forma alguma irritá-lo ainda mais. Ela está arrependida do seu comportamento. Ela não queria ter sido obrigada a magoá-lo, ela simpatizava com ele. Por outro lado, ela pensava em tudo o que iria acontecer durante aquela noite.

Ele iria estar com o seu namorado, iriam falar dela, concerteza. Ela repara que ele enche uma garrafa de bolso, com wisky e que a guarda em um dos muitos bolsos das calças. Claude sempre fora fraco para a bebida, não seria necessário muito para que lhe dissesse tudo, tudo o que ele quisesse saber. E Claude sabia de tudo sobre a vida dela. Aquele homem, aquele namorado, era o seu grande amigo, um dos poucos que ela guardava. Claude sabia de tudo, porque ela lhe contava tudo. Coisas que nem a mãe, a mãe que ela tanto ama e protege, se recorda, coisas que nem ela, sabe muito bem porque lhe contou, coisas nas quais, até ela tem dificuldade em acreditar que aconteceram, mas que existiram e que ainda a assombram constantemente.

Ele penteia-se mais uma vez, coloca um pouco de after-shave, bebe um pouco da garrafa de whisky, que estava sobre a mesa e concentra-se. Percorre mentalmente, tudo o que precisa fazer, dizer e ouvir. Auto motiva-se para a missão que o aguarda. Os outros voltam a chamá-lo de fora da tenda e ele grita, com aquele timbre de voz que lhe é tão familiar, que já vai. Aproxima-se dela. Senta-se na sua cama, acaricia-lhe a cara e beija-a. Ela também o beija e voltam a olhar-se. Eles olham-se como se nunca mais se fossem ver de novo, como se fizessem amor e estivessem num mundo só seu, num mundo criado, unicamente, para eles.

Ele sai. Ela ouve o restolhar dos seus passos. O som fica cada vez mais distante. Deixa de ouvir. Na tenda não ficou nenhuma luz e lá fora deixaram apenas uma fogueira. Sente medo. Sente muito medo. Está só, amarrada, despida, sem nenhuma forma de defesa contra qualquer perigo que lhe possa surgir.

Ele aproxima-se do acampamento que tanto observou na última semana. Lá espera-lhe o namorado daquela rapariga, daquela vítima de um bem maior, por quem se apaixonou. Lá estão as respostas às suas dúvidas. Quanto mais se aproximava, mais o seu coração acelerava. A verdade é que parecia um adolescente que vai conhecer os pais da sua namorada nova. Mas não era assim. Ele não tinha mais quinze anos e a sua namorada, era sua refém. Eram todos, vítimas de um destino impiedoso, que os unira de uma forma pouco ortodoxa, pode-se mesmo dizer dolorosa, mas que os juntara para sempre.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

1955058 - O que pretendes? O que é que queres? – tenta acalmá-la.

- Quero ir-me embora. Deixe-me ir embora, por favor – o dia começava a escurecer.

- Eu não te posso deixar ir. – ele tentava manter-se calmo, mas já tinha perdido toda a paciência que tinha – Dá-me a faca.

- Não se aproxime. – ameaça ela, tomando uma posição de luta com faca. A técnica dela era irrepreensível. Ele aproxima-se, com cuidado, rodeando-a, estudando os seus movimentos. Ela acompanha-o. – Deixe-me ir embora. – Implora mais uma vez.

Ela estava assustada, ele mexia com ela de uma forma que não percebia e aquilo aterrorizava-a. Era suposto ela odiá-lo e desejar a sua morte, mas os seus sentimentos eram exactamente os opostos: ela não lhe queria mal e ela simpatizava com ele. Ele ameaça atacá-la e ela afasta-se assustada. Ele ri-se. Ela era demasiado nova, para ser um adversário à altura. Ele ataca, mas desta vez a sério, ela defende o golpe, sem sequer pestanejar e ameaça, por sua vez, com a faca. Agora é ele quem se afasta num pulo, evitando por um triz, a lâmina afiada da sua própria arma.

Ele aceita o desafio, faz estalar o pescoço e avança. Ambos iniciam uma estranha dança, onde estudam os movimentos um do outro e tentam aproveitar a primeira distracção do adversário, para ganharem vantagem. Ele acerta-lhe, no queixo, com um soco, tentando ganhar de imediato o pulso da mão direita, para fazer uma chave que a desarmasse, mas ela dá um mortal para trás e bate-lhe com os pés, durante a acrobacia. Ela percebe que ele a vai atacar com toda a força e ela sabe que a sua única solução, é usar a faca. Ele é demasiado forte para que ela se atreva sequer a lutar, de igual para igual, com ele. Assim que ele se aproxima, ela baixa-se e, num movimento rotativo, passa a lâmina afiada através das calças e sente a carne ceder a um golpe que ela espera ligeiro, na perna esquerda daquele homem. Ele cai, contorcendo-se com dores, mas ela não se compadece. Com movimentos rápidos e contínuos, ela pega na camisa do seu adversário, veste-a e dirige-se para fora da tenda, mas detém-se quando ouve aquele estalido tão familiar, que uma arma dá, quando fica pronta para disparar. Ela até que gostava daquele som. Ela gostava sempre daquele som quando treinava, só que desta vez, aquilo terminava com a ilusão de sair dali e voltar à sua vida normal.

- Deixe-me ir, por favor. – pede sem sequer se voltar.

- Volta aqui. Chega aqui. – ordena-lhe com a voz trémula e repleta de dor.

Ela engole o choro e cumpre a ordem. Ela não pode fugir de uma bala e tem a certeza que ele tem boa pontaria. Ele não desvia a arma, nem por um instante, enquanto se levanta com grande custo. A sua perna sangra imenso e ela fica com o coração apertado. Não o queria magoar tanto, apenas queria fugir. Ele encosta-lhe a arma gélida à sua têmpora e ela chora. Retira-lhe a faca que ela mantém na mão. Nada mais há a fazer. Ele engole a dor e demora-se a decidir o que vai fazer a seguir. Ele quase desfalece enquanto pensa, mas apoia-se nela. A arma nunca se mexe do lugar.

- Leva-me até a cama e ajuda-me a sentar. – Volta a ordenar.

Ela obedece, a situação dele comove-a, agora que vê o sangue. Ele nem precisa de lhe pedir, pois ela despacha-se a ir buscar uma caixa de primeiros-socorros e trata-lhe da ferida que ela própria lhe abriu. Ela faz um bom trabalho, mas ele continua com dores. Dirige-se ele próprio à caixa e tira uma pequena seringa que contém um líquido branco. Ela supõe que seja morfina. Afasta o olhar quando ele se injecta. Pensa em aproveitar o momento para fugir, mas apenas alguns segundos de indecisão, uns míseros segundos de dúvida, são os suficientes para o ouvir libertar um som seco de alívio e ouvir as suas botas baterem no chão, num ritmo descompassado, pois coxeia na sua direcção. Empurra-a para a cama que lhe pertence e amarra-a. Ele não torna a falar-lhe. Está envergonhado, por ter sido derrotado, ludibriado por aquela criatura tão pequena e frágil. Ela também não diz nenhuma palavra. Não emite um som, uma lamúria.

Descansa por fim, por algumas horas na sua cama. Ele tem que ir jantar com o Claude e sente-se fraco demais para isso. Ele está cabisbaixo, pelo que aconteceu e neste momento, perdeu toda aquela confiança, que tinha ganho quando o vira ao princípio da tarde. Contudo, ao longo das horas que passavam, ele ia readquirindo alguma presença de espírito e começava a pensar que tudo aquilo era natural e que apenas tornava o prémio final, mais apetecido. Tirou o maço de cigarros de um dos muitos bolsos que as suas calças tinham, mas estava vazio. Levantou-se. Já se sentia melhor para o fazer. A perna ainda tremeu por uns instantes, mas dois passos depois, mal se notava que coxeava. Tirou um maço novo de uma das mochilas e logo acendeu mais um daqueles rolinhos brancos, pardalentos e fedorentos. Se ele tinha vícios, fumar era um deles. Olha de soslaio para ela. É mais forte do que ele. Ele bem queria não olhar, ignorá-la, pelos menos até voltar do fogo-de-conselho, mas não resiste. Ela também o observa. Como seria mais fácil, se alguém lhes dissesse, que eles estavam destinados um ao outro. Mas todo o destino é assim mesmo: confuso, obscuro, intrincado, no entanto, já resolvido, atribuído e indissolúvel. Apesar de tudo, os sinais estavam lá, eram claros a todos os bons observadores. A sua parecença física, o acaso das datas, do encontro, das suas histórias, que logo, logo, ambos conhecerão, dos seus gostos, dos seus hábitos, dos seus desejos.

domingo, 29 de novembro de 2009

1948756 Ele tira a camisa. O seu corpo liso e brilhante, quase sem pelos, agrada-lhe. Ele gostava de estar assim, de tronco nu. Era a forma mais confortável para ele. Observa os mapas do outro lado da tenda. Era como se os territórios tivessem sido delineados: a parte esquerda era dela e a direita, dele. Ela pousa a caneca de chá. Mal lhe havia tocado, mas já se sentia melhor. Levantou-se devagar. Aliás, todos os seus gestos eram sempre suaves, femininos, lentos, naturais, o que o surpreendia ainda mais, quando ela lutava com ele. A força que ela tinha e a rapidez dos golpes, eram resultado de muitos anos de treino. Ele não entendia, como tal poderia ser possível. Quando ela chegou ao meio da tenda, ele falou.

- Se eu fosse a ti, não dava nem mais um passo. Não te aproximes de mim. Hoje tenho menos paciência que ontem e estou prestes a explodir.

Ela deteve-se por uns instantes. Ela não tinha certeza porque é que ia ter com ele. Algo lhe dizia que devia reconforta-lo, mas não sabia porquê, não entendia porquê. Ela pensou um pouco, ponderou as suas opções e decidiu por fim avançar. Ele sentiu o seu coração saltar, quando ela passou a linha de separação. A sua respiração ficou mais rápida, a cada passo que ela dava, trazendo consigo, aquele contínuo cheiro a rosas. Ela deteve-se a menos de meio metro dele. Ele não lhe ligou. Ela tentou ler as fotografias por satélite e com alguma dificuldade, reconheceu a costa marítima de Marrocos. Fosse o que fosse, o seu destino era o Norte de África.

- Qual é a vossa missão? – pergunta a meia voz.

Ele vira-se. Ele não pensava na missão. Ele não pensava em nada que não fosse ela. Ela era a sua missão naquele momento e o desejo ardente, da noite anterior, tinha voltado. Ele beija-a, deixando-a praticamente sem ar. Ela sente-se desfalecer. Ele coloca a sua mão direita à volta do seu fino pescoço e apercebe-se como seria fácil tirar-lhe a vida naquele momento. Ele não o quer, mas pensa nisso, em como ele era pouco mais que uma máquina feita para matar. Aperta-o um pouco, enquanto a continua a beijar. Aquilo excita-o. Com a mão livre, arrebenta com os botões da camisa dela e deixa-a descair até aos seus pulsos. Isso prende-lhe mais os movimentos do que ela gostaria, mas ela mal consegue respirar, quanto mais lutar.

Ele afasta-se um pouco. Ele quer vê-la à luz do dia. Ela recupera o fôlego. Ele não entende, porque é que aquela violência com ela lhe dá tanto prazer. Nunca tal lhe havia acontecido. No entanto, ele espera que ela colabore e sente-se bem, quando ela não se mexe e continua parada, imóvel, à frente dele, mesmo agora, quando ele nem sequer a segura. Volta a beijá-la e ela corresponde. Ela liberta-se da camisa que lhe prende os braços e coloca as pequenas mãos à volta do pescoço, daquele estranho. Ele sente-se nas nuvens. Pega-a ao colo e ela abraça-o com as suas compridas e musculadas pernas. Fazem longas trocas de olhares, no intervalo dos intermináveis beijos. Eles não se cansam dos seus olhos. Têm tanto a dizer, tanto a descobrir, tanto a explorar.

Ele não esperava tanto. Ela queria mais, mas começava a entrar num jogo, do qual dificilmente poderia sair a meio e não tinha a certeza absoluta se o queria levar até ao fim. Ela apenas sabia, que gostava daqueles preliminares, daquele namoro, daquela excitação. Ela sabia ainda, que ele quereria ter tudo e que ela, tudo não queria dar. Mesmo assim, decidiu levar as coisas até ao limite do que lhe seria possível aceitar. Se ela o fizesse gostar de si, talvez as coisas pudessem vir a ser diferentes. Talvez assim, ele a viesse a proteger do destino, que ela pensa, que lhe está atribuído. Talvez assim, ela não tenha que morrer. Talvez!

Aquele jogo, que há muito havia passado de mera sedução, prolongou-se por longos minutos. Ele deitou-a na sua cama e despiu-a por completo. Ela estranhamente permitiu. Pena que não seria uma permissão total e quando ele, certo de que ela seria dele naquele momento, se preparava para a possuir, ela rouba-lhe a faca de mato e afasta-se para o meio da tenda. Desta vez, ele não entende mesmo, o que se passou. Será que ele a magoara de alguma forma? Ele teria precipitado o momento? O certo é que começava a ficar farto daquela brincadeira, farto das provocações dela, farto das suas indecisões. Levantou-se impaciente e dirigiu-se até a ela, mantendo uma distância razoável. Ele conhecia as suas aptidões de luta corpo-a-corpo. Sabia de ante-mão, que a venceria, mas não a queria magoar, nem muito menos magoar-se a si próprio.

- Desculpe-me! Não devia ter permitido que isto fosse tão longe. – Justifica-se ela.

- Dá-me a faca. Não te quero magoar. – Pede-lhe em forma de ordem.

- Eu também não o quero magoar. – Ela realmente, não o queria magoar, mas também não queria ficar ali, ela não tinha a certeza do que queria. – Não se aproxime, ou usarei a faca.

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

 

2696299Ele estava-lhe grato pela ajuda que ela tinha prestado, mas preocupava-se com o que estava a acontecer. Teria sido uma coisa mútua? Estariam os dois a passar pelo mesmo fenómeno? Estaria também ela, a apaixonar-se por ele? Algo acontecia, ambos sentiam, mas seria o mesmo para os dois? Ela recompôs-se. Não era só a emoção que a fazia desfalecer, ela já nada comia há alguns dias. O stress que ela tinha vindo a sofrer por parte das pressões de Claude, fizeram-na perder o apetite, quase por completo e agora...bem agora, nem sequer é preciso explicar.

Eles olham-se profundamente. Ela penetra na floresta verdejante que são os olhos dele. Pensa como ele cheira ao que os seus olhos são. Ele cheira a musgo, a rocha, a eucalipto, o mesmo que ela via nos seus olhos. Ele, por sua vez, observa as estrelas brilharem no céu escuro da noite, que são os olhos dela e também ela cheira a rosa em noite de luar. Ambos entram num lugar em que tudo pode acontecer, onde tudo é compreendido e perdoado, mas nenhum deles se sente à vontade com isso. Não agora. É muito cedo para perceberem e acabam por sair de lá, mais depressa do que lá chegaram. Ela desmaia e ele leva-a para a tenda, com a mesma devoção, com que tinha feito na primeira noite, quando a salvou das mãos dos seus companheiros.

Ela acorda com o seu cheiro forte de homem, mas não abre os olhos. Ele, sentado na cama, abraça-a com os seus braços e mantém-na junto de si, como se de um bebé se tratasse. A tarde estava abafada e parecia Verão de novo. Nenhum dos dois consegue explicar o que sente. Ela abre os olhos. Ele nunca vira nada tão brilhante. Os seus lábios tremem, numa vontade incontrolável de se beijarem, mas não o fazem. Ambos estão habituados a controlarem os seus impulsos.

- Porque é que foste ter comigo ontem à noite? – pergunta-lhe baixinho, como convinha ao momento que partilhavam.

- Senti-me culpada. Você tinha um papel a interpretar e não o conseguiu por causa de mim. – ele era lindo e ela teve a plena certeza disso, naquele momento. Ele até podia passar despercebido aos olhos de outras mulheres, mas para ela, ele era tudo o que ela sempre tinha esperado.

- Que idade tens? – ela não se esquece que ainda é prisioneira dele e não lhe responde – Porque é que me ajudaste?

- A minha mãe já sofreu muito e não precisa de sofrer ainda mais. Eu prefiro que ela pense que eu estou com o Claude, do que se angustie pela incerteza do meu paradeiro. – ela pensou um pouco – Pela primeira vez, uma mentira parece-me mais apropriada, que a verdade. Eu não o fiz por si, fi-lo por ela.

Essa era a verdade, ela não o tinha feito por ele, apenas pelo bem estar da mãe, que ela amava acima de tudo na sua vida. Algo se passava entre os dois, mas tudo parecia mais claro e lógico na mente dele, do que na dela. Ele já sabia que a amava, ele ainda não o chamava amor, mas sabia que era algo mais complexo do que nas paixões a que estava habituado. Ela, ainda nada percebia. A única razão para as suas acções era a sobrevivência, a sua sobrevivência.

Ele deitou-a e saiu. Voltou, pouco depois, com uma caneca de chá com açúcar. Ele sabia muito bem o que ela tinha. Ela bebeu em golos pequenos, tal qual uma princesa. Só agora ele se apercebia que ela vinha de uma classe social elevada. Os modos dela, a maneira de andar, a forma como prende o cabelo à cabeça, o tratamento cerimonial e a linguagem cuidada. A casa em Côte D’Azur. Ela era muito diferente dele. Vinham de mundos completamente diferentes.

- Sabes que não tens como escapar, não sabes?

Ele queria que ela se entregasse sem resistência, seria tudo muito mais fácil para ele. Ela acena que sim. Ela tem a consciência que não vai sair dali, começa mesmo a desconfiar, que provavelmente, não faz parte dos planos deles, que ela continue viva depois da missão, seja ela qual for. Mas ela não tem intenções de se subjugar. Ela cumprirá a sua parte naquela farsa, ela sobreviverá e cicatrizará todas as feridas do seu corpo e irá fazer tudo, mesmo tudo, para que a sua alma se mantenha ilesa. Alguém uma vez lhe disse: As feridas do corpo cicatrizam com o tempo, mas as da mente, duram o resto da vida. Ela levava essa máxima à letra e nunca deixava espaço, para se arrepender depois.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Paraíso infernal Tenho tido algum peso na consciência, porque havia começado um outro blog, que deveria conter uma das minhas histórias já terminadas, mas no entanto, tinha-o sob um pseudónimo e isso deixava-me algo inquieta, pois não gosto de coberturas, ou falsas personalidades. Eu sou quem eu sou, e isto é o que eu escrevo: quem gosta lê, quem não gosta não lê.

Finalmente, redecorei o blog e recomecei, capítulo a capitulo a dar a conhecer a viagem fantástica de um grupo de 9 pessoas muito especiais, que vivem as suas dúvidas, sentimentos e paixões, numa situação muito diferente à que estavam habituados. Uma situação limite, que os levará a fazer uma viagem interna, na qual irão conhecer outras personalidades que desconheciam.  Uma história repleta de sentimentos, aventura, perseguições, sexo, amores incompreendidos e uma profunda descoberta de quem somos.

Espero que gostem, ou pelo menos, que não se sintam entediados enquanto lêem esta minha primeira tentativa de livro.

http://oparaisoinfernal.blogspot.com/

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

 

segredoO tempo passou e fizeram de novo a chamada. O namorado atendeu-a. Ela gostava da voz daquele amigo, que era mais do que isso.

- Claude?!

- Sim!

- Sou eu, Dalila. – começou a chorar, tudo começava a ser demais para ela e ela não sabia mentir.

- Estás bem?

- Estou.

- Porque é que fugiste? – ela não podia começar diálogos, se o fizesse, era provável que dissesse mais do que devia.

- Ouve-me bem. Sinto muito pela preocupação que eu te devo ter causado, mas eu estou bem, apenas precisava de estar sozinha depois do que se passou ontem à noite. – houve um pequeno silêncio. Ele não se recordava.

- O que é que se passou ontem à noite? É que a única coisa que me lembro foi de acordar com uma enorme dor de cabeça.

- Eu bati-te. Eu não estou preparada para isto. Eu preciso de pensar. – gagueja – Arranja uma desculpa por mim. Falamos melhor quando voltares. – ela sente uma tensão do outro lado da linha, ela sente que Claude sofre.

- Fica bem. Pensa em tudo o que tens a pensar. Falamos depois. Tudo se vai resolver. Tenho a certeza. – um silêncio antes da despedida, falta dizer mais alguma coisa, mas nenhum dos dois tem a certeza se será apropriado – Eu amo-te. Tu sabes disso, não sabes? – ela desata a chorar e acena que sim, ele ordena-lhe para que termine a ligação.

- Eu sei! Eu também... – mas ela mentia, ela nunca o amara, apenas gostava dele, nada mais. Nem mesmo se poderia chamar paixão àquilo que tinham, era muito menos que isso. Ela apenas gostava da atenção que Claude lhe dedicava.

- Adeus! – despede-se Claude. Ele faz-lhe novamente sinal para terminar com o telefonema, contudo, antes de lhe obedecer, ela surpreende o seu carcereiro, quando elimina um problema com o qual ele não contara

– Eu vou ficar uns dias na tua casa de férias em Côte d’Azur. Eu tenho as chaves, faz-me apenas dois favores.

- Sim! Aquilo que quiseres!

- Telefona aos meus pais e diz-lhes que convidaste algum pessoal para terminar as férias na tua casa e que querias muito que eu fosse. Eu não quero que eles se preocupem comigo. Eu depois telefono-lhes.

- E o segundo favor?

- Não apareças por lá, nos próximos dias. Quando eu estiver pronta eu telefono-te. – de novo o silêncio. Ele olhava-a espantado. Porque o ajudaria ela, naquele momento?

- Tudo o que quiseres! Eu amo-te, faça eu as besteiras que fizer, eu quero que saibas que eu amo-te. – ela engole o choro. Ele faz-lhe de novo sinal para acabar com a conversa.

- Tenho que ir. Faz o telefonema para os meus pais agora. Eu telefono-lhes ao final do dia.

- Considera feito. – de novo o silêncio, a necessidade de não terminar de falar, de fazer prolongar os momentos em que partilham o mesmo ar, em que estão em sintonia. – Telefona-me.

- Eu telefono-te. - Desligou e ele amparou-a, antes que caísse. Mentir era tudo, o que ela não sabia fazer, mas fê-lo na perfeição.

sábado, 12 de setembro de 2009

51713 - Quem lhe disse isso? Como é que pode saber disso, quando observa um grupo de miúdos a metros de distância, através de uns binóculos? – ele aproximou-se de novo. Senta-se na cama e beija-a. – A verdade é que você tirou à sorte e nem sequer, tem a certeza de que acertou, pois não?

- Que idade tens tu? Quantos anos tens? – ela abandonou o seu olhar e abanou a cabeça.

- Quando é que eu vou saber da missão e do que preciso fazer?

- A seu tempo. – disparou – Logo, logo, eu irei saber tudo sobre ti, mas agora é tempo de fazeres um telefonema. – soltou-a das cordas que a aprisionavam e levantou-se. Ela deixou-se ficar. – Queres um convite por escrito? - ironizou.

Ela acaba por se levantar contrafeita. Ele queria tanto que ela fosse mais cooperativa. Talvez se ela lhe tivesse mais respeito? Não, essa não era a solução. A solução era ela temê-lo. Agarra-a pelo braço com força e puxa-a até ele. De novo aquele cheiro que ambos gostavam e que ambos temiam. Ele sentia a respiração rápida dela, bem sobre o seu ombro direito. Era aí que ficava a sua boca, quando ambos estavam de pé. Afinal ela não era assim tão baixa. Talvez passasse do metro e setenta. O seu corpo era tão delgado. Ele amava-a, disso ele já não tinha dúvidas. Se era resultado de uma solidão de vinte e cinco anos, ele não sabia. O que ele sabia, era que ela teria que ser sua. Sua durante o rapto, sua durante a missão, sua depois da missão, sua para o resto da sua vida. Ele não a deixaria escapar. Nunca mais ela se veria livre dele, mas isso, era apenas do seu conhecimento. Ela nada sabia, ainda.

- Tu nunca mais me irás desobedecer! Nunca mais. – o braço começava a doer-lhe, mas ela não queria vergar-se sobre o seu jugo.

- Então prova-me que eu tenho que te obedecer. – ele não se conteve, aquilo era insubordinação, pura e crua. Ele não podia aceitar e bateu-lhe. Ela não cai por terra, ao contrário do que ele pretendia, mas sangrou do lábio inferior. Do mal, o menos. Ela sabia aguentar uma tareia. Ele tinha a certeza do treino militar, mas não compreendia.

- A não ser que queiras que isto continue, começa a obedecer-me. – ela ia argumentar, mas ele, mais uma vez, não deixa. – E sem argumentações, sem mas, nem porquês, apenas obedece. – ela fecha os olhos, engole em seco e deixa-se levar para fora da tenda – O telefone. Tragam-me o telefone. – o soldado mais velho, atira-lhe um telemóvel avançadíssimo. Estamos na era em que os telemóveis pesavam quinze quilos e andavam nos carros, mas o deles, não pesava mais do que cem gramas e era pouco maior que uma mão. – Qual é o número?

- Que número? – acaba por perguntar.

- O número para o qual os pais vos podem contactar. Vocês deviam ter algum tipo de contacto com o mundo exterior. Qual é o número? – ela abre o bolso da camisa e retira um número de telefone.

- É o número dele?

- Poucos de nós se podem dar ao luxo de ter um telefone portátil. – ele continua à espera da resposta certa - É de um telefone fixo, de uma mercearia que fica na vila. O filho do merceeiro virá até aqui e dir-lhes-á que alguém quer falar com eles. O contacto final é feito meia hora depois.

- Então faz agora o telefonema e pede para chamarem o teu amorzinho. – ela assim o fez.

- Que quer que eu lhe diga? – ela deixou de o olhar nos olhos. Ele não suportava isso. – Que quer que eu lhe diga? – perguntou de novo.

- Vais dizer-lhe que o que se passou ontem à noite foi demais para ti, que precisas de pensar e que não podias continuar a vê-lo, que precisas de ficar sozinha. Pede-lhe para que arranje uma desculpa por ti. – fazia sentido, ele sabia o que fazia – Não quero códigos. Não quero uma única palavra com duplo sentido. Se eles continuarem com a busca, quando ele voltar da vila, eu matá-lo-ei pessoalmente, esta noite. Compreendes? – ela acena que sim. Parecia que começava a perceber o seu papel.

- Não será necessário. – foi a resposta audível e correcta.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

alone Ele despediu-se dos visitantes e entrou na tenda, assim que teve a certeza que eles não voltariam atrás. Ela chorava. Ele não queria que ela sofresse, mas fazia parte das consequências, ele nada podia quanto a isso. Sentou-se na cama, perto dela. Limpou-lhe as lágrimas e beijou-lhe os olhos húmidos. Ela, de uma forma estranha, gostava dele, gostava do seu cheiro, do seu toque, das sensações que ele lhe provocava. Era algo que ela não compreendia, nem controlava. Era um desafio. Retirou-lhe a mordaça e depressa ouviu a sua voz suave. Ela nunca gritara.

- Ele vai voltar, quando não me acharem! – teve que se rir. Ela nunca desistia. – De que te ris?

- Eu vou tratar disso ainda esta tarde. Tu vais telefonar-lhe e resolver esse assunto. Não te preocupes, que ele também não.

- Desata-me. – ordenou-lhe. Ele olhou-a condescendentemente, mas não obedeceu. Dirigiu-se à tina onde ela se tinha lavado e fez a barba. Ela apenas observa. Nada mais pode fazer. Ele é lindo e ela admite-o. – Porque é que me escolheram a mim? Podia ter escolhido qualquer outra rapariga do meu agrupamento, porquê eu? – ele olha-a através do pequeno espelho. Ele podia responder a isso.

- Porque me pareceste a mais consistente, a mais forte, a mais apta. – ele não lhe disse o que ela queria ouvir e ele percebe-o. Faz um compasso de tempo, acaba praticamente de se barbear, antes de concluir o seu pensamento: – A mais bonita. – isso sim, era isso que ela queria ouvir, era o orgulho fútil da adolescente que ela ainda era. Contudo ela não se envaidece como, outra qualquer menina faria e questiona.

- Porquê uma criança? Porque não uma colega vossa?

- Apenas alguém como tu, teria o perfil necessário, para a nossa missão.

- Nunca tinha ouvido, que a nossa tropa, andava a raptar crianças... – ele não a deixou terminar.

- Nem comeces. É lógico que não andamos a raptar crianças por prazer. Nem eu raptei uma criança, apenas uma jovem, que pudesse passar por uma criança. Alguém que tem uma alma antiga e uma cabeça feita, pronta para o mundo. Eu não raptei uma criança. Eu raptei-te a ti! – ela estava confusa, se queriam a colaboração dela, porque é que não lhe pediam? Era tão mais simples. Mas ele tinha razão. Ela não era mais uma criança e também era verdade que estava pronta para enfrentar quase tudo, mas que sabia ele disso?

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

CAVERNA2 - Bons dias!

- Bom dia! – respondem em uníssono, os dois soldados. – Que fazem vocês por estas bandas?

- Já cá estão a algum tempo? – inquere a voz madura do namorado dela.

- A alguns dias. Estamos a treinar para uma missão especial. – responde o mais novo.

- E vocês? – pergunta o mais velho.

- Estamos a fazer um acampamento, nada de mais, apenas a aproveitar os últimos dias de férias de Verão dos miúdos. – ela vê-o a sorrir, com a segurança de quem sabe o que tem que fazer e gosta do trabalho que o espera. Ela observa-o, enquanto ele sai para ir ter com eles.

- Bom dia! Posso ajudá-los? – diz assim que sai da tenda. Ele observou os três intrusos com atenção e cuidado, há que estar preparado para qualquer eventualidade e nunca desprezar os seus inimigos. No entanto, não deixa de sorrir, novamente, quando se apercebe, que para além de mais novo, é também, mais bem-parecido, que o namorado da sua refém.

- Talvez! – responde-lhe o chefe da sua recente amada com cuidado.

- Tudo o que estiver ao meu alcance. – oferece. Aquele homem de trinta e poucos anos, aproxima-se dele e confessa.

- Um elemento do nosso agrupamento, desapareceu esta noite. Não sabemos o que se terá passado e andamos à sua procura, antes de tomarmos qualquer medida mais extrema. Você sabe como são estes adolescentes, não queremos passar por nenhuma vergonha.

- Não vimos ninguém, lamento. – responde o mais novo, ele confirma.

- Realmente não vimos nada fora do normal, mas que idade tem ela? Como é que ela é? – o namorado olha para os seus companheiros antes de formular uma resposta e responde de forma pouco segura.

- É uma menina comum, bonita, bem desenvolvida, cabelos pretos que lhe chegam até o meio das costas, olhos azuis lindíssimos. – ela chora – Tem doze anos, mas parece muito mais velha que isso. - ele apercebe-se que o namorado da sua prisioneira, havia mentido na idade. Fazia-a passar por mais nova, para que, no caso de a encontrarem, a tratarem como uma criança. Era esperto e ele tirava-lhe o chapéu. Porém, sabia perfeitamente que ela deveria ser mais velha que isso.

- Agora tenho a certeza que lamento não a ter visto. – gracejou, com vontade. O namorado não se riu. – Vocês vão ficar aqui muito tempo?

- Mais dois dias. Depois de amanhã, vamos-nos embora. – dois dias não era muito tempo, eles poderiam esperar esse tempo. – Vocês querem juntar-se a nós esta noite? Serão bem-vindos. Podem jantar connosco e assistir ao fogo-de-conselho. Sempre seria uma fuga à vossa rotina de treino. – os dois soldados olharam para o seu chefe, ansiosos. Eles não se importariam de se divertir um pouco. Fazia já um mês que não contactavam com mais ninguém. Por outro lado, ele próprio queria saber mais sobre o seu anjo e isso, era mais importante que tudo o resto.

- Claro! Será um enorme prazer. É muito simpático da vossa parte.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

aloneSentaram-se os três à mesa e esperaram ser servidos. Ela respirou fundo, procurando alguma calma e paz de espírito. Atirou com a comida para cima de cada uma das marmitas e aguardou, sentada numa rocha, que eles acabassem de devorar, o que havia cozinhado. Não sentia fome, no seu estômago estava apenas um nó. Ele observava-a constantemente. Ela já nem ligava. Quando se apercebeu que tinham acabado com tudo o que estava na panela, foi retirar a loiça para lavá-la. Ele sorria candidamente, de uma ou outra piada que os outros diziam.

Ele tinha uma aura de menino de ouro. Não lhe parecia assim tão velho, agora. Era até bem novo, para quem já ocupava uma posição de oficial. Tinha a certeza que ele não tinha mais de vinte e cinco anos e era, pelo menos, capitão. Ela não sabe como, mas apercebia-se sempre dessas coisas. Quando voltou para buscar a panela, o soldado mais velho sentou-a no seu colo e recomeçou com as brejeirices, que já tinha proferido, na noite anterior. Ela protestou, esbracejou e debateu-se. Ela bem procurava os olhos do seu raptor, mas ele não se apercebia do que se estava a passar, apenas prestava atenção a um som, que só ele ouvia. Num berro, manda-os calar. Eles obedeceram de imediato, deixando-a recompor-se. Todos aguardavam ansiosos, novas ordens.

- Eles vêm aí! Ajam com naturalidade. Eu já venho. – só passado um pouco é que ela se apercebe do que se trata, mas já era tarde de mais. Ele já lhe tinha tapado a boca, com as suas enormes mãos e arrastava-a para dentro da tenda. Ele olha-a por uns instantes e liberta a boca dela, os segundos suficientes para a poder beijar. Amordaça-a logo em seguida. Ela larga, finalmente uma lágrima. Ele deita-a gentilmente na cama em que ambos dormiram e amarra-a. – Quem me dera que não fosse preciso fazer isto! – confessa-lhe. Ela engole o choro quando ouve a voz do seu namorado secreto e o seu corpito estremece. Implora-lhe com os olhos, para que a deixe ir, mas ela não sabe, que ele já não o pode fazer. Mesmo que quisesse, agora já era tarde. Ele já a amava. Ela era demasiado nova para ter consciência disso. Estava determinado a conquistá-la. Ele iria tê-la, mas iria ser ela quem o iria permitir. Aquele papel de violador, a que ele se impusera a si próprio, na noite anterior, não se iria repetir. Pelo menos, assim ele o planeava. Seria muito mais fácil, se ela passasse a ser sua amante. Ele espera um pouco com ela, dentro da tenda e ouve, atento, o que se passa lá fora.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

abismo (2) Existe algo que os homens nunca compreenderam, mas que eu vou tentar explicar: as mulheres mudam o seu comportamento, conforme a forma como estão vestidas. Ela ontem estava nua, desprotegida, apenas podia contar com a sua pele, para a influenciar, mas hoje, ela tem uma farda vestida. É certo que é de escuteira, algo que inspira pouco ou nenhum respeito, mas de todas as formas, é uma farda e, portanto, ela age à altura do que veste. Eles são militares, movem-se e comunicam como tal e ela também sabe jogar esse jogo. Ela compreende muito bem esse orgulho que provém de se estar a cumprir uma missão, seja ela qual for. Ela também tem uma: sobreviver.

- Bem! Já que aqui estás, ao menos que te tornes útil. Vê se preparas algo comestível para almoçarmos. – ordenou-lhe, olhando-a frente a frente, olhos nos olhos. Ela sabia que não o podia enfrentar como fez na noite anterior, por isso, limitava-se a olhar o horizonte, tal como havia aprendido a fazer nas paradas. Ele era o superior hierárquico dos outros dois e ele nunca permitiria uma insubordinação vinda da parte dela, à frente dos outros. Ela tinha conhecimento disso e sabia que, aceitar isso como um facto, a salvaria de qualquer outro problema. Acatou a sua ordem, com uma submissão militar, que ainda o desconcertava.

Acabou por procurar, na cozinha improvisada, qualquer coisa para fazer para o almoço. Não pôde deixar de comparar aquela construção tão tosca, com aquelas que ela insistia em fazer nos seus acampamentos. Ela era uma líder de patrulha e era muito boa nisso. As suas construções de troncos e sisal eram elaboradas e admiradas por todos. Aquelas que eles tinham feito, não chegavam sequer aos pés, das dela. Ela não sabe porquê, mas sentiu-se orgulhosa por isso. Achou entretanto umas latas de feijão, tomate pelado e atum. Decidiu fazer uma feijoada de atum e quando já passava do meio-dia, chamou-os para almoçarem.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

abismo1 (1) - Não penses que eles te vão tratar melhor, do que te trataram a noite passada e nem penses que eu os vou impedir. – continuou a rir-se.

Ela apenas se limitou a beber o café e a tentar reconhecer o local onde estava. Não podia ser muito distante do acampamento onde estava o namorado e os seus amigos. Eles tinham montado campo numa falésia. O vento era uma constante. Para além da tenda onde pernoitara, existia uma caverna na montanha que era usada pelos outros dois soldados. Tinham uma mesa, um toldo e uma cozinha rudimentar. Ele observava, com uns binóculos, algo que se passava numa clareira mais abaixo. Ela reconheceu o seu acampamento, preparavam-se para a alvorada. Aquela posição mais elevada, permitia-lhes o anonimato, apesar de os soldados poderem observar perfeitamente, todas as actividades do seu acampamento.

- O teu namorado está muito calmo. Nem sequer foi o primeiro a acordar. Aparentemente, ele só vai dar pela tua falta quando aparecerem todos, para o hastear da bandeira. – ele queria irritá-la, mas não era só isso, ele queria mais. Ele queria que ela percebesse que o outro, valia muito menos, do que ela merecia. Eram os ciúmes a falar mais alto.

Ambos ficaram a observar o resto da rotina e ele tinha razão, o seu namorado, apenas deu sinal da sua ausência, quando as elementos da sua patrulha o foram avisar. Ele era aquele com quem ela estava preocupada na noite anterior. Aquele que agora, se fingia surpreendido pela sua ausência. Os chefes reuniram-se e tomaram as medidas necessárias para organizar uma patrulha de buscas. Ele riu-se perante a hipocrisia daquele chefe de agrupamento. Ela atirou o resto do café para as cinzas da fogueira da noite anterior e disse com uma calma aparente.

- Mas agora eles vão procurar-me e eles são bons batedores. Antes do meio-dia, já cá vão estar. – ele olhou-a incrédulo, aquela pequena, não parava de o espantar. Pareceu-lhe agora, ainda mais arrogante que a noite anterior e a verdade é que ela estava mesmo.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Passado poucos minutos, o outro soldado entrou na tenda. Ela não se recordava muito bem deste. Ele atirou-lhe a farda de escuteira, com a qual ela estava vestida, antes do seu rapto. Encheu uma bacia com a água que estava num jarrican perto da mesa e foi ter com ela. Ela encolheu-se e desviou o olhar. Ele apenas a agarrou por um braço e a arrastou até a mesa. Ela sentia-se desconfortável, assim, nua à luz do dia, frente a um homem que desconhecia.

- Lava-te e veste-te. O Chefe espera-te lá fora. Despacha-te. – ela olhou-o por uns instantes. Ele era maior que o seu parceiro na noite anterior, era muito mais alto e musculado, talvez um pouco gordo e tinha uma cara macilenta e cansada. Não era feio, mas não era alguém que ela procurasse numa festa. Ele entendeu aquele olhar como um pedido de privacidade e riu-se. – Nem penses que vais fazer de mim um pau mandado. Não sei o que foi que lhe fizeste ontem à noite, para que ele esteja assim, mas comigo não resulta. Despacha-te. Não te deixo sozinha nem por um instante.

Ela acabou por lavar o rosto. A água estava fria, mas ela lavou também a ferida provocada pelos dentes do seu raptor. O seu ombro estava todo negro e ainda deitava um pouco de sangue. As feridas da sua cara ardiam, mas ela suportava-o bem. Vestiu-se, ignorando por completo a presença daquele soldado. Tanto lhe fazia se ele a olhava, ou não. Era algo que ela não controlava, pelo que preferiu nem tentar. Quando ia a apertar o cinto nos seus calções repara que a bainha do canivete suíço e da faca de mato estavam vazias.

- Onde estão as minhas coisas? – perguntou num tom insolente.

- Como se nós te as fôssemos dar! – riu-se – Despacha-te. O chefe espera-te e tu és muito lenta. – e dito isto, agarra-a de novo pelo braço e empurra-a para fora da tenda. Ela tenta esbracejar e livrar-se do seu domínio, chega mesmo a bater-lhe e a cuspir-lhe, ao que ele responde com uma bofetada. Ela não se dá por vencida e apenas pára quando ele fala. – Aqui está, chefe.

O seu raptor estava à sua frente, com uma caneca de café na mão, estendida na sua direcção e ria-se divertido com a cena. Ela agarrou a caneca e bebeu em pequenos tragos, o líquido castanho e aromático que continha. Estava quente e isso fazia com que o seu corpo aquecesse um pouco. O Verão estava a acabar e naquela serra no Norte de França, o frio era quase Invernoso. Aquela farda sem um casaco, ou um pulôver, começava a não ser suficiente, para a manter quente. O soldado afastou-se juntando-se ao mais velho, deixando-os, de novo, sós.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

1818627 É a primeira vez dela. Ela nunca tinha dado prazer a um homem, nem mesmo desta forma tão ingénua e era a primeira vez, que ele teve que guiar uma rapariga numa situação como esta. Quando terminou, ele limpa aquela pequena mão, com lenço que tira das calças e, depois de se limpar a si mesmo, acende mais um cigarro. Ela deixa-se ficar, sem ainda perceber muito bem o que se passou. Ele está muito mais calmo agora e o seu peito, apenas se move ocasionalmente. Ele acaricia-lhe os longos cabelos com a mão esquerda e ambos mergulham num silêncio gélido, que apenas é quebrado, quando ele termina de fumar.

- Quem és tu? – pergunta angustiado. Ambos sentem que são mais do que deviam ser, mas nenhum compreende porquê. Ela não responde, apenas procura os seus lábios e beija-o. Ele sente o seu corpinho gelado, por ter estado tanto tempo, sentada naquele chão frio e molhado. Ele retribui o seu beijo e num abraço apertado, pega-a ao colo e leva-o para a outra cama. Ela é tão leve! O seu corpo é de uma insustentável leveza. Aconchega-a de novo naquele saco-cama militar. Olha-a, uma vez mais e ela volta a tocar-lhe na cara como fez, durante o seu desvario. Como foi ele capaz de a magoar daquela forma? Ela gosta do seu rosto, dos seus olhos. Ele levanta-se, tem que se levantar. Ele não pode sentir o que sente. Se o fizer, tudo estará perdido. Ele afasta-se em direcção ao exterior da tenda, mas ela fala. A suavidade da sua voz faz com que a sua pele se arrepie.

- Fique! Por favor, fique. – ele detém-se, mas não consegue perceber o que se passa naquela pequena cabeça. – Tenho medo. – ela não queria ficar sozinha. Tinha-se recordado do que se passara com os colegas dele e não queria que ele a deixasse só. Ela levanta o saco cama, em claro gesto de convite e aguarda pacientemente o calor daquele corpo, estranhamente familiar. Ele deita-se e ela abraça-o. Sabe que enquanto estiver com ele, durante aquela noite, estará a salvo. Adormecem.

O dia amanhece. Os dois companheiros de campanha daquele homem exausto, já se levantaram, cumpriram as suas funções diárias e começam a estranhar a demora do seu superior. O mais velho, decide entrar na tenda e acordá-lo.

- Acorda François. – ele grunhe – Acorda! – ele acaba por abrir os olhos. Ela acorda com ele. Ele senta-se, tentando acordar totalmente, mas a boa disposição do seu companheiro irrita-o. – Não me diga que ela lhe deu assim tanto trabalho. – olha-a desconfiado – É tão miudinha! – ri-se. Mas ele não pretende que aquilo continue. Algo aconteceu na noite anterior, que o fez mudar de ideias, quanto a direcção que aquela missão deve tomar.

- A partir de agora, eu não quero ouvir mais comentários desse tipo. – o outro homem, bem mais velho que ele, espanta-se, mas sabe qual é o seu lugar e responde formalmente ao seu superior.

- Assim seja, chefe. – ela recorda-se dele da noite anterior, recorda-se de como ele e outro que ela ouvia fora da tenda, a ataram a uma árvore, a despiram e quase a violaram debaixo da chuva da noite anterior. Lembra-se de que ele lhe batera tanto que acabou por perder os sentidos. Ela retrai-se e puxa o saco-cama para se tapar. Ele olha para o ar assustado dela e cai em si. Aproxima-se do subordinado.

- Devolve-lhe as roupas e dá-lhe o que comer. – diz enquanto passa o seu braço por cima do ombro daquele homem, que o tratava com uma intimidade paternal. – Vocês fizeram café? – pergunta-lhe, levando-o para fora da tenda. Assim ela teria tempo para se recompor. Ele pareceu-lhe ainda mais belo, agora que o sol iluminava a tenda e o verde dos seus olhos parecia ainda mais vivo. Ela parecia-lhe menos pequena, mas mais assustada. Ele queria protegê-la, mas ainda não tinha descoberto como.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

img.php Frustrado e cansado de tudo aquilo, ele ata-lhe as mãos, mas de nada lhe serve. Ela continua a surpreendê-lo e a fugir-lhe. Depressa se livra dos nós apressados. Uma imagem de enguia vem-lhe à cabeça, mas ele não se quer distrair, ele realmente a deseja e esbofeteia-a. Sente-se tão infeliz que acaba por descarregar toda a sua frustração, no rosto daquela jovem e só pára, quando se apercebe que ela mal consegue respirar e sente, como um gesto de derrota, a sua mão macia, acariciar-lhe o rosto áspero, da barba por fazer.

- Jack! – chama, com as poucas forças que lhe restam.

Ele tinha falhado. Ela podia ser facilmente dele, mas ele agora não a queria. Seria fácil demais, ela está quase inconsciente. Levanta-se e aperta as calças. Tapa-a com um saco cama. Acende um outro cigarro, apaga os candeeiros e deita-se na outra cama. Quem seria o Jack? O namorado dela? Não era esse o nome de que ele se recordava.

Ela apenas consegue ver a ponta avermelhada do seu cigarro. Ela recupera o fôlego. Não sabe porquê, mas sente-se culpada pela comiseração daquele homem. Sente a sua respiração, tenta adormecer, mas não consegue. Quase que aposta que ele está a chorar, sente o seu corpo estremecer de frio, mas ele permanece imóvel, barriga para cima, a acender cigarros, uns atrás dos outros. Levanta-se. Os seus olhos já se habituaram à semi-escuridão daquele lugar. Ele sente-a, mas não se importa. Ela retira um cobertor de uma das mochilas. Vai ter com ele, lentamente, sem barulho. O seu corpo dói-lhe, mas ela está habituada.

Ela tapa-o e aconchega-o. A sua ideia era voltar de novo para a sua cama, mas o cheiro dele atrai-a por demais. Senta-se no chão e pousa a sua cabeça no seu peito. Ela quer sentir a sua respiração. Ele não percebe o que se passa, mas gosta de a sentir. Ela não resiste e acaba por lhe beijar o peito. Ele não se mexe. Ela explora com as suas pequenas mãos, os seus volumosos músculos, acariciando-o ternamente. Algo os tinha unido e eles não o sabiam, ainda. A respiração dele torna-se mais pesada, mais ruidosa e rápida, mas ela não afasta a face do seu peito. Ela gosta de o ouvir respirar, é-lhe reconfortante, mas ele quer mais. Apaga o cigarro e agarra-lhe na mão. Ela assusta-se, mas não se move. Ambos aguardam um momento. Um pequeno impasse entre amantes. Era isso que eles eram por fim, mesmo que nenhum deles o quisesse admitir. Ele ensina-a o que deve fazer, guia aquela pequena mão para um local mais íntimo e privado, ao qual ela nunca se atreveria a tocar. Ela não se repugna com a ideia e ele ajuda-a, num gesto cadenciado e lento, a dar a si próprio, um pouco de prazer.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

beijo20na20praia1nv Estão ambos à mesma distância daquele objecto frio e cortante. Ambos correm para ele, mas ele é maior e pega primeiro, aquilo que nunca devia ter abandonado.

- É isto que queres? – diz, enquanto segura a faca, em frente dos seus lindos olhos. – Tu eras capaz de a usar, não eras? – ela retrai-se e ele perde toda a paciência que ainda lhe restava.

O que antes lhe parecia ser um ponto contra, é agora um ponto a favor. Ele gostou de saber por fim, das capacidades da sua presa. Era quase uma luta entre iguais e isso excitava-o. Agarrou no pescoço dela e levou-a até à cama. Atira-a, de novo, para cima dela e ela volta a bater com a cabeça, na estrutura metálica daquele leito. Ele afasta-lhe as pernas e ajoelha-se no meio. Passeia a faca por aquela pele tão macia e imaculada. Ela aterroriza-se.

Será que ela tinha sido traída pelas suas acções? Será que seria aquilo o seu fim? O seu corpo treme, está cansada, quer dormir, quer o aconchego da sua cama, dos seus lençóis, não se reconhece a si própria, não resiste, mas ele, controlado pelo seu orgulho ferido, encosta a faca àquele pescoço e morde-lhe o ombro esquerdo até fazer sangue. Gosta do sabor dela.

Definitivamente, ele já não está em si, alcançou um patamar de volúpia que desconhecia. Guarda a faca, no local certo. Já não precisa dela e desaperta as calças. Finalmente, aquela pureza que tanto o tem atraído durante toda a noite vai ser dele e ele congratula-se com isso. Ela olha-o profundamente, repara como os seus olhos têm a cor da copa das árvores, e quase que se entrega enfeitiçada, mas não consegue. Pouco antes daquela angústia toda terminar, ela resiste e foge para cima, tal como a água que escapa pelos nossos dedos quando a tentamos agarrar.

sábado, 2 de maio de 2009

- Mas isso nada muda entre nós. Eu vou continuar a ter o que quero, só tu é que irás sofrer mais.

- Não vou, não. – responde instintivamente.

Ele volta a aproximar-se dela, agarra-a pela cintura e aproxima-a do seu peito musculado. Ele gosta dela, gosta do peso dela, gosta de a sentir, de a cheirar, aquilo não lhe é penoso, ele quer, apenas não quer é que tenha que ser violento. Ele daria tudo, para que não tivesse que usar a força, mas ela, com um golpe rápido e imprevisível, no baixo-ventre, liberta-se dos seus braços. Ele bate-lhe de imediato, nunca iria permitir que o magoassem, mesmo que quem o fizesse fosse uma mulher como ela.

Ela cai por terra. Desta vez ele tinha usado, realmente, a sua força. Agarrou-a ainda antes de ela recuperar o fôlego e atirou-a para cima da cama, onde antes já a havia acariciado. Ela fica atordoada, com a pancada que deu com a cabeça e demora um pouco a encontrar de novo discernimento, mas pouco antes de se levantar, ela sente-o a tocá-la de novo. Ela tenta resistir fugindo, serpenteando, empurrando, mas começa a faltar-lhe as forças. Ele ajoelha-se em cima da cama, chega-a de novo ao seu corpo. Ela sente o seu cheiro acre a suor e, por pouco, não se permite a desistir e a entregar-se, incondicionalmente, àquele estranho.

As suas mãos continuam a percorrer todo aquele pequeno corpo. Ele insiste naqueles preliminares desnecessários, ele quer realmente que ela o aceite, que ela queira que aquilo aconteça, mas algo nela, algo que nem ela mesmo sabe explicar, impede-a de se entregar sem dar mais luta. Ela sabe de antemão que o desfecho será aquele, mas quer ficar com a consciência tranquila, antes de desistir. Olha à volta e vê a faca de mato, no chão. Era isso que faltava nas suas calças. Ela livra-se mais uma vez dos seus braços e rebola, para junto da faca, ganhando a vantagem da distância. Ele demora algum tempo a perceber o que se passa, mas se antes ainda tinha dúvidas, ele agora tinha a certeza absoluta de que ela tinha treino militar.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

- Ainda me vais resistir? – insiste enquanto lhe pega meigamente no queixo. Ela acena que sim e ele perde de novo a paciência. Bate-lhe no estômago, fazendo-a ajoelhar-se automaticamente, pela dor provocada. Depois mente, interpreta um papel que não é o seu, mas que ele vira ser interpretado várias vezes com sucesso. – É assim que vocês mulheres deveriam estar sempre: de joelhos, submissas. – mas ela estraga-lhe os planos e levanta-se mais depressa do que ele poderia imaginar e volta a enfrentá-lo com o seu olhar profundo e puro.

Mais do que nunca, ele teve a certeza de um treino militar, mas como? Ela tinha pouca idade, com um corpo plenamente desabrochado, mas era ainda uma criança. A verdade é que ela pouco ou nada se aflige com as suas agressões. Muito pelo contrário, estas apenas a têm tornado ainda mais arrogante e este olhar é prova disso mesmo. Mas afinal de contas, o que receava ele? Ela era apenas uma jovem mulher! Mas a verdade é que ele preferia não ter que a magoar, definitivamente, ele não se sentia à vontade com o papel que lhe tinha sido atribuído, ele era um amante, não um violador. 

Ela mexe com ele e, por instantes, ele quase preferia ter escolhido qualquer outra rapariga, daquele acampamento de escuteiros, qualquer outra rapariga, que não fosse esta, mas já era tarde de mais para isso. Ele afasta-se, tentando recompor-se e ela aproveita o momento para o baralhar ainda mais.

- Eles irão dar pela minha falta. Logo de manhã eles começarão a procurar-me e irão encontrar-me. Tenho a certeza que ele virá salvar-me. – ele riu-se. 

Ela estava a ser ingénua, ele conhecia a laia do homem com quem ela estava. Ele nunca iria colocar em causa a sua posição e reputação. Ele nunca admitiria, que estava com uma menor, no meio da noite, perdidos no mato. Ele sabia que ele voltaria para o acampamento e só no dia seguinte, quando outros dessem por falta dela, é que ele  faria qualquer coisa. Mas ele não temia isso e ela no fundo, sabia-o. 

– Porquê eu? – desta vez é ele quem não responde.
- Tu sabes que eu vou ter o que quero...a bem, ou... – hesitou – Tu é que sabes, tu é que escolhes.
- Então eu já escolhi. – ele levanta os olhos cheios de curiosidade e aguarda a resposta, como se ela fosse mudar alguma coisa – Não poderei ceder-lhe sem que primeiro, faça tudo o que estiver ao meu alcance, para o evitar. Nunca me perdoaria se o fizesse, seria muito pior para mim. As feridas do meu corpo saram, mas as da alma, ficam para sempre. – o seu corpo tremia gelado na sua nudez. – ele ri-se, mas de embaraço. 

Ele preferia muito mais que fosse outra a sua resposta. Será que ele não lhe agradava? Seria a primeira vez, mas também era a primeira vez que ele raptava uma mulher.

terça-feira, 14 de abril de 2009

beijo no pescoço.bmp Aquilo já não lhe dava mais prazer, ele não queria vê-la chorar, não era isso que ele pretendia. Na realidade, ele queria que ela gostasse dele, pelo menos durante o tempo que a relação entre ambos durasse, isso deixá-lo-ia mais à vontade no seu papel de estuprador. Ele não conhecia, até agora, outra forma de sexo, que não a consensual. – Agora despe-te! – ordenou, mas ela permaneceu tão imóvel, quanto a última vez e ele começava a perder a cabeça.

Ele olhou bem nos seus olhos, ele podia ver o seu medo, isso baralhava-o ainda mais. Quase que ele arriscava a afirmar que ela tinha tido treino militar. As posições que assumia, o que dizia, o que fazia, tudo parecia tirado de um manual de sobrevivência em caso de detenção, por parte do inimigo. Mas isso seria impossível, ela era pouco mais que uma criança. Por outro lado, era tão frágil, tão pequena, tão desprotegida. Ela despertava nele, emoções, com as quais, ele não sabia como lidar. Emoções que ele não podia dar-se ao luxo de ter.

- Despe a camisa, já! – ordenou-lhe, mas com tanto efeito, quanto o anterior. Talvez, e apenas arrisco a dizer que talvez, quanto muito, ela tenha demorado mais o seu pestanejar.

Ele, perde a pouca paciência que ainda guardava e esbofeteia-a, de novo. Ela não cai, como da outra vez, o que aumentou ainda mais a sua raiva, chegou mesmo a duvidar da sua força. Decide retirar, ele mesmo, aquela peça de vestuário, que tanta discórdia estava a causar, atirando-a para o chão. Ela não se mexe, apenas estremece ligeiramente.

- Porquê eu? – volta a insistir. O cheiro que o seu corpo exalava era tão doce que o intoxicava.

- Porque eu te escolhi. – confessa, apesar de saber, que tal resposta está longe de lhe oferecer qualquer conforto. Ela tem frio, mas treme de medo e ele sabe disso. Ele beija o seu pequeno e fino pescoço e sente um pequeno tremor nas suas próprias pernas. Ela apercebe-se e pensa que talvez seja um ponto a seu favor. Ou talvez não. – Afinal está mesmo frio! – acaba por se desculpar.

- Pois está! – concorda ela.

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