"Na vida, não nos apresentamos a ninguém que possa confundir-nos e odiamos quem nos confunde."
(Epiteto)
"Na vida, não nos apresentamos a ninguém que possa confundir-nos e odiamos quem nos confunde."
(Epiteto)
Descalça, com os pés envoltos em meias de algodão, deslocava-me em bicos de pé, pelo corredor. Já passava e muito da minha hora de dormir, mas mesmo assim, adormecer tinha sido algo impossível de fazer naquela noite.
Ia estrear na RTP (o único canal de televisão naquela altura) com pompa e circunstâncias, uma curta metragem/videoclip do Michael Jackson e como haviam avisado que poderia ser impressionável, a minha mãe proibiu-nos de ver. As intenções eram as melhores, bem sei, mas eu adorava o Michael. Para mim, praticante de dança jazz e ballet, ele era o máximo, o suprasumo e apenas por isso, já seria difícil respeitar a vontade da minha mãe, mas ela havia feito algo muito pior: havia proibido. Proibir de fazer algo, para alguém como eu, é um convite aberto para que o faça, sem pensar nas consequências.
Dito e feito! Pé ante-pé, percorri o corredor com a esperança de que no outro lado, na sala da televisão, a minha mãe tivesse adormecido no sofá, como sempre acontecia e que eu, escondida no esconso entre a cozinha e a sala, conseguisse ver o teledisco. Sentei-me o mais confortável que consegui e aguardei, quase sem respirar com esperança que a minha presença não fosse denunciada. Esperei o que me pareceu uma eternidade de tempo e quando estava quase a começar, suspirei. Respirei bem fundo e exalei o ar com um sonoro “Ahhh” de alívio. Depressa dei conta do que fizera e tapei a boca com as duas mãos, como se isso anulasse o meu gesto anterior.
- Não achas que ficas mais confortável no sofá? – soa a voz meiga e algo ensonada da minha mãe.
Levanto-me com a sensação das pernas estarem dormentes, salto para cima do sofá e aninho-me junto dela.
- Eu sabia que não me irias obedecer! – continua com um beijo nos meus cabelos – Quero ver como é que acordas amanhã para a escola.
- Oh mãe, eu sei! Mas é o Michael… – ela riu-se e a curta metragem começou.
Vi tudo sem pestanejar e acabei a vibrar com a coreografia final e a tentar imitar os passos, e não dormi durante três dias, com a sensação de que um morto vivo podia sair do meu colchão ou pelas paredes do meu quarto, mas valeu a pena. Se valeu!
Afinal… era o Michael!
Eu fui sempre uma daquelas alunas que não se importava com a escola. A escola sempre me foi simples e muito pouco desafiante. Não me interpretem mal, não era má aluna, muito pelo contrário: achava tudo demasiado fácil e por isso mesmo, fazia coisas que me dificultavam a vida: Não sabia quando existiam testes, assim eram sempre uma surpresa e tinha que ter a melhor nota, sem ter aparecido nas aulas ou estudado e ficava sempre no grupo que sobrava nos trabalhos para média, pois raramente estava nas aulas em que eram atribuídos (apesar disto ter começado a correr contra os meus desígnios, pois como acabava por fazer os trabalhos quase sozinha e tinha sempre excelentes notas, os meus colegas do liceu, começaram a disputar-me na atribuição dos grupos, mesmo sem estar presente).
Sempre fui uma pessoa que inicia coisas, adoro inícios e tenho uma alergia muito especial a fins. Sempre que algo está prestes a começar eu fico excitada, empenho-me a fundo, dou o melhor que tenho (mas guardo sempre um pouco para os momentos em que adrenalina descarrega, mas isso é outra história) e assim era, com cada ano lectivo. Nos últimos dias de Verão, começava a preparar os cadernos, lia os manuais e os livros que sabia que ia dar em Português, adiantava matéria e imaginava tarefas e trabalhos em grupo que sabia de antemão que iriam ser feitos em determinadas disciplinas e ficava muito empolgada. Jurava que não ia faltar a uma aula, a um dia que fosse, que ia estudar para todos os testes e ia ser muito participativa. Conseguia fazer três trimestres em três semanas, sozinha, eu com os meus livros e depois, começavam as aulas e alistava-me em tudo quanto era grupo extracurricular: a Iris estava no grupo de teatro, no grupo de Alemão, fazia parte dos fundadores do Ecoclube (este tal como o teatro, levava muito a sério), do Clube de Fotografia, fazia parte das listagens para as associações de estudantes e invariavelmente tornava-me uma vogal das mesmas, fazia parte da rádio da escola e um sem fim de outras actividades para as quais me pediam ajuda e eu nunca dizia que não.
Mas as aulas começavam, os toques começavam, todos nos metamorfoseávamos em carneiros, que mudavam de sala de aulas, em rebanho, de 55 em 55 minutos, ao toque de uma campainha, tal qual cães de Pavlov e eu perdia, toda e qualquer força de vontade e começava a faltar. Faltava dias seguidos, aparecia a uma ou duas aulas por dia, durante semanas (sim, porque biologia, português, filosofia e educação física, eram aulas às quais eu tentava não faltar, menos biologia, que o que se aprendia era tão fácil, que não precisava das aulas para ter excelentes notas, mas gostava da professora e da matéria e por isso fazia um esforço para aparecer, acreditem que era um esforço.
Aparecia em todos os grupos e assim os professores sabiam que eu estava viva e bem. Muitos conversavam comigo, com aquele tom paternal e diziam-me que deveria ir às aulas mais vezes, mas eu não conseguia, nem mesmo quando queria muito fazer-lhes a vontade.
Adorava a cara que o meu professor de Português fazia quando eu aparecia no clube de teatro, ao fim do dia, fresca que nem uma alface e depois dizia com o tom mais sério que conseguia manter:
- “Ao menos podias aparecer de vez em quando! Só e apenas para me dares a vã ilusão de que sou teu professor. Não fazias isso por este pobre homem?!” – e eu, que fingia estar muito preocupada com o ar sério dele, acenava com a cabeça que sim e depois desatávamos os dois a rir.
Se me perguntarem porque é que eu gostava tanto de português e porque é que passei a gostar tanto de teatro, eu sei exactamente o que responder: foi por causa do Professor António, meu professor de Português do 7º ao 10º ano, o que me convidou para fazer parte da peça Antigona, que mais tarde veio a dar nome ao grupo de teatro, por ter sido a primeira pessoa com que pude falar de Margarite Durás, Milan Kundera, Yukio Mishima, entre outros, por ter sido sempre mais meu amigo, que professor.
Aprendia muito mais fora de aulas do que dentro daquelas salas claustrofóbicas, castradoras, e por isso mesmo, fiquei conhecida no liceu, como a Baldas e mais tarde, na Universidade, representaram-me no Livro de final de curso com a cena do filme de Chuck Norris, com a minha caricatura a sair da água, vestida com a minha farda de escuteira, faca de mato nos dentes e com as letras a formarem: Desaparecida em Combate.
Nunca perdi um ano, nunca deixei uma disciplina para trás, tive sempre boas médias, mas fui sempre uma Baldas.
Como eu gostava de ter superpoderes, um dom especial e secreto que me fosse útil nestas horas. Como eu gostava de te abraçar nos meus braços e aquecer o teu coração com amor. Como eu gostava de te beijar e sugar de ti toda a amargura, angústia e temor. Como eu gostava de te falar e que as minhas palavras, a minha voz te servissem de consolo e remédio para a tua dor.
Como eu gostava de ser capaz de transferir toda a tua tristeza e juntá-la à minha, para que não sofresses nem mais um segundo, nem mais um fôlego. Como eu gostava de poder transformar tudo isso em coragem e esperança!
Como eu gostava! Oh, meus Deus, como gostava! Mas não posso! Não consigo! Não sei como!
Eu falo-te, mas não sirvo de consolo, eu abraço-te mas o teu coração gela com o desgosto, eu beijo-te e sinto a angústia, a revolta e a dor, darem voltas dentro de ti, da mesma forma como se revolvem dentro de mim.
Mana, minha querida e adorada irmã, carne da minha carne, sangue do meu sangue, eu quero devolver-te o bebé, que prematuramente perdeste, o meu sobrinho ou sobrinha, que ainda antes de nascer já era amado. Quero silenciar esse grito mudo que ecoa na tua alma, quero absorver todo esse negro que se pinta dentro de ti e torná-lo só meu. Eu quero mana, eu quero, juro-te que quero… mas não posso, não consigo, não sei como.
Apenas o tempo pode, mana. Apenas o tempo sabe!
Somente posso chorar contigo, gritar e revoltar-me e, por fim, carpir.
Vocês conhecem aqueles dias em que acordamos com um nó na garganta que não sai?! Vamos trabalhar e apetece-nos chorar ainda antes de vermos o primeiro colega, mas como não o podemos fazer, engolimos diversas vezes, como se pudéssemos engolir a vontade de chorar, empurrar bem para dentro do nosso corpo e escondê-la?!
Contudo o nó continua na garganta e quando estamos quase a chegar a casa, perdemos, cada vez mais, o controlo e as lágrimas começam a cair, ainda sem ruído e uma frase, começa a repetir-se na nossa mente.
Quando abrimos a porta de casa, já as lágrimas caiem cascata. Atiramos com as coisas para o chão, saltamos para a cama e começamos então a soltar o nó preso durante todo o dia; soluçamos, choramos, soluçamos e choramos.
Lembram-se da frase?! É nesta fase que ela começa a fazer sentido. Primeiro sai como um murmuro, uma, duas vezes. Depois, explode como um grito de afirmação: “Não é justo! Não é justo! Não é justo! Não é justo!” É como uma frase de bêbado, pois nesta fase já estamos embriagados com o nosso próprio choro e com a sensação de liberdade que ele nos proporciona.
Vem então o estágio seguinte, aquele em que já nos dói os músculos de tanto gritar, soluçar e chorar. Sentimos os olhos inchados e a arderem por causa do sal. No entanto, chorar está a saber tão bem, que continuamos, esfregamos os olhos, limpamos o nariz com a manga da camisa e, em pranto, vamos até a um espelho. Estamos mais horríveis do que é habitual e isso só reenforça a necessidade de continuar a chorar. Então encostamos as costas à parede mais próxima e, lentamente, deixamos-nos escorregar até estarmos completamente sentados no chão, num pranto incontrolável.
“Não é justo! Não é justo! Não é justo! Não é justo!” Retomamos a frase. Aliás a frase pode ser qualquer coisa desde: “Fiz o meu melhor!”, “Porquê eu?!”, “Porquê?”, “Eu sou melhor!”, até à famosa frase de choro, “Não mereço isto!”
Inevitavelmente, sempre que estamos no meio de um ataque destes, o telefone teima em tocar. Podemos passar dias sem que ninguém nos ligue, mas sempre que estamos a chorar, alguém se lembra de nós. Aí, tentamos a todo o custo controlar os gemidos e as lágrimas, respiramos fundo, limpamos o nariz (e continuamos a usar a manga para esse efeito) e atendemos (sim, porque temos sempre que atender o telefone, não vá ser mais urgente que a privacidade do nosso choro), com uma voz característica de quem estava a chorar.
Nós- Estou! – fungamos.
? – Que voz é essa?! – eu imagino sempre uma voz aguda, que são as que mais me irritam, vocês façam como entenderem – Estavas a chorar?
Nós – Não! – fungamos e soluçamos – Agora a chorar! 'Tá parva!
? – É que estás com uma voz estranha!
Nós – Estou um pouco constipada, é só isso! – fungamos, soluçamos e tentamos controlar a vontade de berrar, gritar e gemer. (Também podemos dizer que estávamos a dormir, ou que estamos com uma alergia)
? – Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá. – e nós sem ouvir nada.
Nós – Então ‘tá bem! - fungamos uma última vez – Depois digo qualquer coisa. – e desligamos o telefone.
“Não é justo! Não é justo! Não é justo! Não é justo!” - gritamos, até que adormecemos à frente da televisão, exaustos e com a alma lavada.
- Adaptado de algo que vi, li, ou ouvi, mas que não me recordo onde. -