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terça-feira, 26 de novembro de 2013

WORDS, WORDS...

Ao Guedes Teixeira

Contam que em pequenino costumava,
Ao ver-me num cristal reproduzido,
Beijar a própria boca, em que julgava
Ver a boca de alguém desconhecido

Cresci. Amei-a. E tão alheio andava,
No sonho por seus olhos promovido,
Que em vez de cartas que ela me enviava,
Eu lia o que trazia no sentido...

Rodou o tempo. Estou doente e velho...
Agora, se me acerco dum espelho...
Oh meus cabelos, noto que alvejais...

E as cartas dela, se as releio agora,
Só vejo por aquelas linhas fora
Palavras e palavras... Nada mais!

Augusto Gil, Versos  [1898], Lisboa, Ulmeiro, 1981.


sábado, 26 de outubro de 2013

VOLÚPIA

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
-- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...



Florbela Espanca, Charneca em Flor / Antologia Poética, org. Fernando Pinto do Amaral, Lisboa, Publicações Dom Quixote.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

ficheiro: ANTOLOGIA PORTUGUESA E BRASILEIRA

título: Antologia Portuguesa e Brasileira
antologiador: Evaristo Pontes dos Santos
autores: Gonçalves Dias, Tomás Ribeiro; Afonso Celso, Alberto de Oliveira, Antônio Carlos, Artur Azevedo, Augusto de Lima, Bernardino Lopes, Carmen Cinira, Castro Alves, Catulo da Paixão Cearense, Cruz e Sousa, Da Costa e Silva, Gonçalves Crespo, Gregório de Matos, Hermes Fontes, Iracema Nunes de Andrade, Jorge de Lima, Laurindo Rabelo, Lisette Villar de Lucena Tacla, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Manuel Botelho de Oliveira, Olavo Bilac, Olegário Mariano, D. Pedro II, Raimundo Corrêa, Raul de Leoni, Rita de Lara, Rui Barbosa; Afonso Lopes Vieira, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Antero de Quental, António Correia de Oliveira, António Nobre, António Sardinha, Padre António Vieira, Augusto Gil, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Luís de Camões, Cândido Guerreiro, Fernanda de Castro, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, D. Francisco Manuel de Melo, Guerra Junqueiro, João de Deus, José da Silva Dinis, José Duro, Júlio Dantas, Ramiro Guedes de Campos, Anónimo.   
género: Poesia
categorias: Literatura brasileira; Literatura portuguesa
local: Porto
edição: do antologiador
ano: 1974
impressão: Escola Tipográfica da Oficina de S. José, Porto
pags.: 236
capa: autor não identificado

sexta-feira, 22 de março de 2013

O QUE É GRAVE

Quando não se fala inglês
ouvir falar de um bom romance policial inglês
que não foi traduzido para alemão.

Ver, quando faz calor, uma cerveja
que não se pode pagar.

Ter um novo pensamento
que não se pode embrulhar num verso de Hölderlin
como fazem os professores.

Em viagem, à noite, ouvir bater as ondas
e dizer para si que elas sempre o fazem.

Muito grave: ser convidado,
quando lá em casa há mais sossego,
o café é melhor
e não é preciso conversar.

O mais grave de tudo:
não morrer no Verão,
quando tudo é claro
e a terra é leve para a enxada.

50 Poemas de Gottfried Benn, versão de Vasco Graça Moura, Lisboa, Relógio d'Água, 1998.




sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

TEMPOS

Isso é que era alegria:
Ter avós e os pais vivos
E a pensá-los eternos
No nosso amor de criança,
Isso é que era alegria!

Isso era a Eternidade:
Agora, a noite e o dia,
O Tempo! Ah, o Tempo
Que não adianta a morte
Nem o atrasa a idade.

Afonso Duarte, Obra Poética, Lisboa, Plátano Editora, 1974. 



quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

LES INGÉNUS


Les hauts talons luttaient avec les longues jupes,
En sorte que, selon le terrain et le vent,
Parfois luisaient des bas de jambes, trop souvent
Interceptés! -- et nous aimions ce jeu de dupes.

Parfois aussi le dard d'un insecte jaloux
Inquiétait le col des belles sous les branches,
Et c'était des éclairs soudains de nuques blanches,
Et ce régal comblait nos jeunes yeux de fous.

Le soir tombait, un soir équivoque d'automne:
Les belles, se pendant rêveuses à nos bras,
Dirent alors des mots si spécieux, tout bas,
Que notre âme depuis ce temps tremble et s'étonne.

Paul Verlaine, Poèmes Saturniens (1866)

Verlaine por Gustave Courbet

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

MODA

Eu queria te ver,
coxas de fora,
(como de fora vejo teus pelos do peito
pela camisa de seda),
a andares na rua.
entre assobios e apalpadelas,
o olhar disperso
como quem nada percebe.
e mostrando ao sentares,
subindo-te a roupa,
a cueca combinando com a gravata.

Leila Miccolis

in Heloisa Buarque de Hollanda. 26 Poetas Hoje [1976], 4.ª ed., Rio de Janeiro, Aeroplano Editora, 2004.