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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

4 ou 5 págs.: SIM, MAS A MÁQUINA A VAPOR É CAPAZ DE FAZER ISTO?

Folheando uma revista de consultório -- um consultório especial, como desde logo somos informados --, o narrador depara-se com uma curiosidade que lhe mudaria a vida, uma revelação, no sentido místico da coisa: "A sanduíche foi inventada pelo Conde de Sanduíche." Essa invenção, com efeitos momentosos no quotidiano da história da humanidade, e o seu inventor, tornaram-se-lhe obsessivos. De tal modo que empreendeu uma biografia do aristocrata britânico, apresentando-nos uma cronologia sucinta, com particular enfoque no processo criativo do que viria a desembocar na prosaica sandes. Essa cronologia é hilariante, como se calcula, e revela não apenas o humor culto e irónico de Allen -- os tiques pretensiosos de determinados tipos sociais de classe média alta e cultivada são constantemente trazidos ao leitor, como de resto acontece em muitos dos seus filmes --, mas demonstram também a enorme cultura do autor, que dela faz uso desabusado, para nosso deleite quase perverso.

início: «Desfolhava eu uma revista enquanto esperava que o meu beagle Joseph K. saísse da sua sessão habitual de cinquenta minutos às terças-feiras com um analista de Park Avenue -- um veterinário junguiano que, a cinquenta dólares a sessão, trabalha corajosamente para o convencer que a papada não é uma desvantagem social -- quando topei com uma frase que captou a minha atenção como se fosse um aviso de um cheque sem cobertura.»

um parágrafo: «1750: Na Primavera exibe e demonstra três fatias consecutivas de presunto empilhadas umas sobre as outras; isto desperta algum interesse, sobretudo em círculos intelectuais, mas o público em geral permanece indiferente. Três fatias de pão umas por cima das outras aumentam-lhe a reputação e, apesar de a maturidade do estilo não ser ainda evidente, é convidado por Voltaire.»

Woody Allen,  Para Acabar de Vez com a Cultura (ed. original, 1966), tradução de Jorge Leitão Ramos,  4.ª edição, Amadora, Livraria Bertrand, 1981, pp. 37-42.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

4 ou 5 págs.: A MINHA FILOSOFIA

Durante um mês de convalescença, o narrador empreende a leitura dos clássicos do pensamento ocidental, levando-o, por sua vez, em duas tardes, a desenvolver um corpus pessoal de divagações metafísicas, cuja publicação pretende seja póstuma. Generosamente, faculta ao leitor três esboços do edifício teórico que construiu: a "Crítica do Terror Puro", "A Dialéctica Escatológica como Meio de Enfrentar os Seixos" e "O Cosmos a Cinco Dólares por Dia", mais, generoso, "Duas parábolas" e uma mancheia de "Aforismos".
É de Woody Allen, e do realizador de "Manhattan" só se espera a irrisão dos lugares-comuns contemporâneos, do mais rasteiro à alta cultura dos maître-à-penser

incipit: «O desenvolvimento da minha filosofia aconteceu como segue: a minha mulher, tendo-me convidado para provar o seu primeiro soufflé, deixou cair uma colher dele no meu pé, fracturando vários ossinhos.»

um parágrafo: «O universo é apenas uma ideia passageira na mente de Deus -- um pensamento bonito e incómodo, sobretudo se se acabou de pagar a "entrada" para comprar uma casa.»

Woody Allen, «a minha filosofia», Para Acabar de Vez com a Cultura, tradução de Jorge Leitão ramos, 4.ª ed., Amadora, Livraria Bertrand, 1981, pp. 31-36. 

domingo, 10 de março de 2013

12x25

     Em Berchtesgaden, certo dia, Hitler virou-se para mim e disse: «Como é que fico de suíças?» Speer riu-se e Hitler sentiu-se insultado. «Estou a falar muito a sério, Herr Speer», disse. «Julgo que devo ficar bem de suíças.» Goering, esse palhaço servil, concordou imediatamente, dizendo: «O Führer de suíças -- que excelente ideia!» Speer discordou de novo. Ele era, de facto, o único com integridade suficiente para dizer ao Führer quando precisava de cortar o cabelo. «Dá demasiado nas vistas», continuou Speer. «Suíças é o tipo de coisas que eu associo a Churchill.» Hitler ficou exasperado. Queria saber se Churchill estava a pensar deixar crescer suíças e, se assim fosse, quantas e quando. Himmler, a quem estavam suposta-[mente]

Woody Allen, Para Acabar de Vez com a Cultura  (1966), trad. Jorge Leitão Ramos, 4.ª ed., Amadora, Livraria Bertrand, 1981, p. 25, ls. 1-12.