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terça-feira, 1 de setembro de 2015

12x25


«prefeitos que passavam à parede, vindos do seu refeitório, a palitar os dentes. Inquieto um pouco, ofereci o meu olhar solitário a quem o aceitasse. Mas ninguém o aceitou. Aplicados, serrotando com a faca o naco de pão sobre a mesa, os mais velhos tratavam apenas de comer. Só o Gaudêncio, com quem eu ainda não falara, me pareceu reconhecer-me no seu olhar humilde e fraternal. Deus! Como éramos ambos feios! Porque a primeira distinção que eu fazia (e depois verifiquei que também faziam os prefeitos) era essa, precisamente, de alunos feios  e bonitos.
Decerto porque a maioria vinha da raça da gleba. 
Vergílio FerreiraManhã Submersa (1954), Mem Martins, Publicações Europa-América, 1971, p. 25, ls. 1-12.











terça-feira, 11 de agosto de 2015

ver de baixo

3. Ao segundo dia de seminário, o estranhamento e o sofrimento persistem. As impressões visuais e auditivas inscrevem-se na memória do narrador, para sempre: «[...] perto do Seminário, ressoavam as pancadas de um tanoeiro que nunca mais esqueci.» 
O espaço, os objectos, os vultos são, aos olhos daquela criança, exponencialmente ampliados em face da própria pequenez da infância; os condiscípulos, rudes e toscos, como um espelho que o reflecte: 

«Decerto porque a maioria vinha da raça da gleba. Empenados, talhados à podoa, recozidos das soalheiras através das gerações, trazíamos na face negra a nossa condenação. Havia-os baixos, cheirando a terra, com dois pulsos grossos como dois eixos de carro. Havia-os altos, ossudos, com o peito largo encovado. Uns tinham a bola grande do crânio integralmente rapada. Outros, com duras repas de cabelos a enchumaçar-lhes o pescoço, abriam o seu pasmo cavernoso e lento de bichos. De olhar assustado e ferino, de olhar morto de boi, infelizes e inocentes, eu olhava-os como irmãos do fundo do meu sofrer.»

O recolhimento, ao fim do dia, a criança desprotegida, a sós com o seu medo e a sua fragilidade, entrega-se à noite -- «Chorei quanto pude até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dadas.» -- único território de liberdade, que permite a António transportar-se para a memória dos seus entes e dos seus lugares. 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

(in)adaptação

2. O medo do desconhecido, quando António avista e entra, de noite, num grande edifício desconhecido: «Lentamente, o casarão foi rodando com a curva da estrada, espiando do alto da sua quietude lôbrega pelos cem olhos das janelas.» Sensacional. Depois, a azáfama da chegada e o triunfo do cansaço. O estranhamento reservava-se para a manhã do dia seguinte, o Pe. Tomás com o Benedicamus domino, após o toque de alvorada, as Orações da Manhã na capela, de joelhos, estragando o vinco das calças domingueiras, e com direito a correcções de postura por parte de um fantasmático Perfeito, seguidas de período de meditação, pelo "funesto" Pe. Lino. Mas o sentido do rapaz estava na aldeia, e não ali; seguiu-se missa para o seminário inteiro. Esfomeado e com alívio, mas desconfortado com a nova vivência,
 António seguiu para o refeitório, para o primeiro pequeno-almoço no seminário. Um parágrafo:

«Aberta de liberdade, a minha aldeia reverdecia, na força da Primavera, pelos giestais da montanha, , quando o gralhar ferino da sineta me acordou.»

quarta-feira, 1 de julho de 2015

como O Grito

«Tomei o comboio na estação de Castanheira, depois que o Calhau deixou de me abraçar.» Vergílio Ferreira, Manhã Submersa (1954)

Relato da subtracção à terra, às raízes, em direcção ao desconhecido, ao seminário, num misto de excitação e apreensão por parte do pequeno António Santos Lopes, o António 'Borralho', alcunha que será embaraço diante dos novos colegas que vão entrando no comboio, entre Castanheira (Melo?, Gouveia?) e a Torre Branca (Fundão).
Comboio, que representa, ainda no apeadeiro, da terra, o irremediável do não-retorno: 
«Fechei a porta, apanhei ainda o último adeus do Calhau e sentei-me para chorar quanto quisesse. Em verdade, eu não gostaria de chorar. Mas, espoliado abruptamente da minha infância, aturdido de solidão, sentia-me quase quase bem dentro do choro.»
Há dois aspectos, para além da elaboração sobre o trauma infantil, que me interessaram: a solidão e a montanha.
Solidão que o protagonista sente rodeado de gente, na despedida da mãe, no meio dos outros seminaristas em viagem, no destino que lhe está reservado; a montanha ( a Serra da Estrela) elo de ligação à terra perdida, «a sua liberdade espacial, [...] o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria morta.»
Solidão, ainda, diante do intimidante edifício do seminário, a sua morada nos anos que se seguiriam, num desespero munchiano: 
«Quieto um momento, no longo pavor da noite, olhei do fundo da minha solidão a mole enorme do edifício e arranquei para a minha aldeia distante um grito de dor tão profundo que só eu o ouvi.»

sexta-feira, 12 de junho de 2015

o princípio em 1954: «Para o fim do 'Vagão «J»' diz Vergílio Ferreira que talvez eu, António Borralho (A. Santos Lopes, de lei) viesse um dia a escrever a nossa história.»

Como ainda não li o Vagão «J», não sei se a história a que o Borralho se refere diz também respeito à pré-adolescência comum no seminário, a tal manhã submersa, embora o protagonista-narrador que previsivelmente tomará a vez e a voz do autor, alertar, logo de sequida.que esse nossa  se trata da sua gente.
É curioso: muito pouco me ficou deste livro, ao contrário de cenas do filme de Lauro António; talvez por isso mesmo: as imagens do filme foram-me tão fortes, que a posterior leitura não as conseguiu apagar.
Gosto muito da capa de Dorindo de Carvalho. oportunamente falarei dela.

terça-feira, 2 de junho de 2015

o princípio em 1914: «Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi, morto para a vida e para os sonhos: nada podendo fazer já esperar e coisa alguma desejando -- eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é, demonstrar a minha inocência.»

Ao contrário da poesia de Sá-Carneiro, que me comove e/ou entusiasma, a prosa de A Confissão de Lúcio (novela publicada em 1914), é-me quase insuportável, pelos ouropéis e arrebiques -- que, apesar de tudo, estão ausentes deste começo. O estilo envelheceu, envelheceu mal, e cansa-me. Por isso, quando li a novela, fi.-lo com sacrifício. Vou fazer agora mais uma tentativa de passear por ela, acompanhando o infortúnio de Lúcio, acusado de matar o poeta Ricardo de Loureiro (estes nomes, estes nomes!....). E então, o que pretensamente vamos ler será, como diz o narrador-protagonista «um documento», uma confissão, um memorial, um relatório -- expediente bastas vezes utilizado, lembro-me, de repente do Viver!, de Assis Esperança (1921), de O Intervalo, de Ferreira de Castro (póstumo, mas escrito cerca de 1936) e de Manhã Submersa, de Vergílio Ferreira (1954). 
Confesso, por minha vez, que me esforçarei.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

leituras de 2014 - #52 CARTAS DE AMOR À VISCONDESSA DA LUZ

Enquanto houver literatura portuguesa (ou a memória dela), Garrett será sempre um dos nomes cimeiríssimos. E, portanto, nem sequer estou a contemplar a sua dimensão histórica e política, que foi grande. Não é impunemente que se escreve uma obra-prima absoluta (Frei Luís de Sousa), a melhor poesia do romantismo português (Folhas Caídas) ou se inaugura o romance moderno em língua própria (Viagens na Minha Terra). É o primeiro escritor português da primeira metade do século XIX, e só uma pessoa pode com ele ombrear, principalmente graças a monumental e fundadora obra de historiador: Alexandre Herculano.
Vem isto a propósito das Cartas de Amor à Viscondessa da Luz. Sobre Eça de Queirós (outro gigante), Vergílio Ferreira disse qualquer coisa parecida com isto: dele tudo nos interessa, até a conta da lavandaria. Estas cartas são obra paraliterária, não foram escritas para publicação e reflectem um estado emocional alterado. Embora a epistolografia possa ostentar-se os galões de literatura de pleno direito -- vários foram os autores que viram as suas cartas equiparadas à obra mais séria, quando não suplantá-la: estou a lembrar-me de obras-primas como as Cartas do Cárcere, de Gramsci ou da maior parte das missivas do Eça, sempre ele --, não é isso que se passa com estas do punho garretiano.
Não que elas seja excessivamente anódinas, bem pelo contrário; não que a sua publicação não se justificasse. Há nelas muitos elementos úteis para estudo em várias áreas.
São cartas de tal modo pessoais, unívocas, íntimas e obsessivamente repetitivas, que valem por essa expressão extrema de amor ardente e transgressor, penetrando de tal forma na intimidade do escritor que valem por essa verdade desvelada. Felizmente, o Pessoa já nos dera o antídoto para as cartas de amor -- e além do mais, que diabo!, esta paixão deu-nos as Folhas Caídas... 22 cartas que se salvaram, dentre as centenas que foram escritas e trocadas. Um milagre, portanto. É a segunda vez que se publicam, depois da edição de José Bruno Carreiro, que assinalou, em 1954, o centenário da morte de Garrett, um trabalho impecável do investigador brasileiro Sérgio Nazar David.
Em duas palavras: Rosa Montúfar Infante, espanhola lindíssima, mulher do Visconde da Luz, militar e político de destaque, é amante de Almeida Garrett na segunda metade da década de 1840 até ao início do decénio seguinte. de Garrett temos a ideia do escritor quase-dândi, viril e sedutor com as mulheres, o eco do tribuno de voz bem colocada e palavra assertiva, do homem de acção que foi um dos bravos do Mindelo. ler-lhe os delíquios amorosos chega a ser perturbador e incómodo, passados 160 anos da sua morte, de tal modo ele é ainda nosso contemporâneo. As cartas são patéticas -- a paixão é patética (todas as paixões o são). A que leva o número XVIII, em que testemunhamos o seu desengano, a sua ingenuidade, o seu desgosto, essa, então, é dilacerante.
Assim sendo, não estando estas cartas de Garrett nos píncaros da epistolografia portuguesa, são de enorme relevância biográfica. E mais do que isso: iluminam alguns poemas de Folhas Caídas, de um modo que não se suspeitava. Só por isso a sua edição teve toda a razão de ser.   5*****

ficha:
Autor: Almeida Garrett
título: Cartas de Amor à Viscondessa da Luz
edição: Sérgio Nazar David
apresentação: Ofélia Paiva Monteiro
colecção: «Biblioteca Primeiras Pessoa»
editora: Edições Quasi
local: Vila Nova de Famalicão
ano: 2007
impressão: Papelmunde
págs.: 222


terça-feira, 11 de junho de 2013

o lugar do estranhamento

Ler Para Sempre (1983), de Vergílio Ferreira é tanto mais compensador quanto melhor pudermos saborear a mestria com que o autor domina a arte de escrever. São precisos muitos anos de escrita, de reescrita (e de vida, também) para que a mão surja tão miraculosamente adestrada, o tempo da narrativa tão sabiamente contido, a reflexão interior tão percucientemente formulada. Os temas recorrentes do fim e da infância são-nos dados nos capítulos iniciais, em que -- a par de  uma primeira referência a Sandra, que percebemos ser alguém determinante e de aparições fantasmáticas de velhas tias -- o protagonista que regressa à «casa», ao lugar do crescimento e de estranhamento inicial; ao tempo e ao espaço em que foi Paulinho, mas não feliz.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Para sempre.


Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta -- sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás de aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo. E a que foi acontecendo aos outros. É a História que se diz? Abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que aqui não vinhas. Sandra era da cidade, gostava da capital, detestava a vida da aldeia. Lá ficou.

Início de Para Sempre [1983], de Vergílio Ferreira, 11.ª ed., Venda Nova, Bertrand Editora, 1998.