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domingo, 19 de junho de 2016

microleituras

Cartas de Camilo, apresentação de Vasco Graça Moura, edição de José da Cruz Santos, gravuras de Alberto Péssimo, direcção gráfica de Armando Alves -- tudo para ser uma grande edição, e é-o.
E o é, pelo humor sardónico de Camilo, que, em quatro cartas, datadas de 1886, trata, com o destinatário delas, Adelino António das Neves e Melo, Filho, ex-comissário de polícia em Coimbra, e velho amigo, que este lhe arranje um burro, para passeio (recomendação médica).
O título, certamente de Graça Moura, é um achado, à altura da verve camiliana, sempre maldosa. Mas como no melhor pano cai a nódoa, a edição a respeito de questões editoriais essenciais, mesmo atendendo a este tipo de publicação, em que o objecto-livro é (boa) finalidade. A saber: trata-se de uma primeira transcrição?; e por quem?. Se não, de onde foram extraídas?... 

excerto duma carta:

«Meu presado Am.º
[...]
Os meus medicos, suspeitosos de que as m.as pernas vão paralysar, mandam-me dar passeios a cavallo. /  Eu tenho um, como recordação de bons tempos; mas já não me atrevo a montal-o. Aconselharam-me a equitação em burro, pacifico, sem manhas, nem erothismos mto violentos. É impossivel encontrar no Minho um burro em taes condiçoens; por que, alguns q ainda existem, são abbades. Mandaram-me procural-o no campo de Coimbra, onde permanece ainda a raça do burro espirituoso e meio academico da Mealhada e dos Fornos. [...]»


ficha:
Autor: Camilo Castelo Branco
título: Um Animal de Quatro Cartas
prefácio: Vasco Graça Moura
ilustrações: Alberto Péssimo
edição: Edições Asa
local: Porto
ano: 2000
impressão: Edilções Asa, Rio Tinto
págs.:
tiragem: 1350
págs.: 26

quinta-feira, 17 de abril de 2014

leituras de 2014 - #20 DISCURSOS VÁRIOS POLÍTICOS


Publicado em 1624, ainda sob a dinastia dos Felipes, os Discursos Vários Políticos do chantre da Sé de Évora Manuel Severim de Faria (1583-1655) são um exemplo brilhante de estilo acutilante e erudição larga da literatura portuguesa de ideias do século XVII. 
O livro é composto por quatro discursos (ensaios), entremeados pelas biografias de João de Barros, Luís de Camões e Diogo do Couto.
«Do muito que importará para a conservação e aumento da monarquia de Espanha, assistir sua majestade com sua Corte em Lisboa.» é um notável sublinhado do valor estratégico da capital portuguesa como cabeça do império dos Habsburgos; 
«Das partes que há-de haver na linguagem para ser perfeita, e como a Portuguesa tem todas e algumas com eminência de outras línguas.» é um saboroso ensaio e louvor ao nosso idioma, à sua riqueza e à preeminência que, segundo o autor, granjeia sobre as outras línguas novilatinas;
O Discurso  seguinte, «Com que condições seja Louvável o Exercício da Caça.» é um breve e divertido apanhado de prós e contras da actividade venatória, concluindo Severim que a caça é lícita se tiver a justificá-la a necessidade; e mesmo enquanto recreio do senhores poderá continuar a sê-lo, se praticada com moderação;
O Discurso Quarto, «Sobre a origem, e grande antiguidade das vestes, que usa por hábito Eclesiástico o Clero de Portugal», realça a velha ligação da Igreja portuguesa a Roma, mais apertadamente observada no trajo e no cerimonial do que acontecia ao tempo na própria Itália. 
Com excepção do discurso sobre a caça, todos estes textos têm, directa ou indirectamente, um escopo de exaltação patriótica -- como, aliás, bem viu Vasco Graça Moura na sua tão curta quanto sólida "Apresentação". Exaltação prudente, embora clara, com louvores ao monarca reinante e, por mais de uma vez, as melhores (e justas) palavras para o grande monarca da dinastia, Felipe II, o Prudente, a quem nunca deixa de, portuguesmente, designar por "D. Felipe I". Portugal é pois claramente tratado como país claramente distinto na Espanha, embora governado por um mesmo soberano.   5*****

Ficha
Autor: Manuel Severim de Faria
título: Discursos Vários Políticos
colecção: «Os Grandes Clássicos da Literatura Portuguesa»
direcção: Vasco Graça Moura
editora: Planeta deAgostini
local: Lisboa
ano: 2005
impressão: Cayfosa, Barcelona
págs.: 191

sexta-feira, 22 de março de 2013

O QUE É GRAVE

Quando não se fala inglês
ouvir falar de um bom romance policial inglês
que não foi traduzido para alemão.

Ver, quando faz calor, uma cerveja
que não se pode pagar.

Ter um novo pensamento
que não se pode embrulhar num verso de Hölderlin
como fazem os professores.

Em viagem, à noite, ouvir bater as ondas
e dizer para si que elas sempre o fazem.

Muito grave: ser convidado,
quando lá em casa há mais sossego,
o café é melhor
e não é preciso conversar.

O mais grave de tudo:
não morrer no Verão,
quando tudo é claro
e a terra é leve para a enxada.

50 Poemas de Gottfried Benn, versão de Vasco Graça Moura, Lisboa, Relógio d'Água, 1998.