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domingo, 11 de junho de 2017

Camilo Castelo Branco, Raul Brandão, Sérgio Luís de Carvalho

Quem conhece as três narrativas, sabe que coisas momentosas e formidandas se anunciam. Todas já contidas em cada começo.

1866 - Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte:» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição
1931 - «Já não posso com estes tipos.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir
1991 - «"Em nome de Deus, amen.» Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Álvaro do Carvalhal, Raul Brandão, Ana Margarida de Carvalho

Entre o estilo jocoso do Álvaro do Carvalhal e o tom épico de Ana Margarida de Carvalho, a escrita essencial do Raul Brandão, como só ele.

Em tempo: Título preferido: Que Importa (...), um verso de José Afonso.

1866 - «Disse a crítica pela boca de Boileau: / Rien n'est beau que le vraie, / e não tardou que as fábulas, arabescos exóticos e exageros, oriundos principalmente de tempos heróicos, perdessem toda a soberania dantes exercida na ampla esfera das boas-letras.» Álvaro do Carvalhal, Os Canibais

1906 - «Vem o Inverno e os montes pedregosos, as árvores despidas, a natureza inteira envolve-se numa grande nuvem húmida que tudo abala e penetra.» Raul Brandão, Os Pobres

2013 - «Tersa gente esta, de almas baldias, vontades torcidas pelo frio que aperta, amolecidas pelo sol que expande.» Ana Margarida de Carvalho, Que Importa a Fúria do Mar 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Raul Brandão, Filomena Cabral, Dulce Maria Cardoso

A morte como obsessão, ponto de partida e de chegada. O início de um livro único, o Húmus, de Raul Brandão. Quanto a Em Demanda da Europa, de Filomena Cabral, deveremos preparar-nos para uma dissertação? O mesmo não se dirá, do início de O Retorno, de Dulce Maria Cardoso: qualquer coisa é expectável. Valerá a pena prosseguir?
O título: todos são bons, mas Húmus, sem artigo, transporta-nos para a essência mesma da obra.

1903: «[13 de Novembro.] Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste...» Raul Brandão, Húmus

1997: «Preparemo-nos, descalcemos as sandálias, lavemos o rosto, despojemo-nos, teremos de assistir, de coração limpo, a toda a encenação, participando no final, se estivermos todos de acordo.» Filomena Cabral, Em Demanda da Europa

2012: «Mas na Europa há cerejas.» Dulce Maria Cardoso, O Retorno

domingo, 21 de maio de 2017

Abel Botelho, Raul Brandão, Nuno Bragança

Qualquer dos três incipit é bom: Abel Botelho  faz com que queiramos saber de imediato de que  justeza se trata; Raul Brandão já nos sobressaltou antes de chegarmos ao segundo ponto de exclamação; por sua vez, Nuno Bragança deixa-nos logo com um sorriso, até porque já se sabe que a forma como ele pega nas palavras nunca mais nos dará descanso até ao fim do livro

1898: «[15 de Fevereiro de 1893.] É justo.» Abel Botelho, O Livro de Alda

1903: «-- Ai que ma levam!, ai que ma levam!» Raul Brandão, A Farsa

1970: «Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços.» Nuno Bragança, A Noite e o Riso 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Eugénio de Andrade sobre Raul Brandão

A prosaé do que mais gosto da poesia de Eugénio de Andrade. Nunca mais me esqueci de uma brevíssima passagem de um texto evocativo de Raul Brandão: «Era um poeta -- às palavras estava condenado»...  (VV. AA., Raul Brandão -- Homenagem no Seu Centenário , Guimarães, 1967) .(15 de Junho de 2005)

quarta-feira, 21 de maio de 2014

...ou a emoção está em nós

«Nunca Londres ou a floresta americana me incutiram mistério que valesse os dos quatro palmos do meu quintal. Nunca caça às feras no canavial indiano foi mais fértil em emoção e aventura que a armadilha aos pássaros na poça do Monte, com o Manuel Barbeiro.»

Raul Brandão, Memórias I (1919)

domingo, 18 de maio de 2014

4 ou 5 págs.: O REI IMAGINÁRIO

Um monólogo que nos apresenta a figura grotesca do Teles, um ex-magistrado destituído de funções por corrupção, tal foi o resultado do vício do jogo. Oriundo de boas famílias, a mulher morre-lhe de desgosto e uma das duas filhas, da tísica, enquanto a outra se torna prostituta ("Desgraça acarreta desgraça.") Mas é na degradação que o Teles se encontra, é aí que ele se confronta com a sua verdade mais íntima. Fantasista, sonha-se rei absoluto, elocubrando vinganças sobre todos com quanto se cruzou na via para a desgraça; lúcido, apercebe-se de que os códigos legislativos nunca poderão fazer justiça à alma  de um homem.

início: «No calabouço do Governo Civil.»
excerto: «Que distância há entre o homem e o homem? entre o homem correcto, o homem e todos os dias e o homem capaz de praticar um crime?... Que mixórdia! e que canalha eu sou quando deparo com o fundo de mim mesmo!... Mas não me julguem infeliz. Não sou infeliz. Devo confessar que depois que sou desgraçado é que me sinto mais feliz. Encontrei-me.»

Raul Brandão, «O rei imaginário», Teatro [1923], estudo introdutório de Luiz Francisco Rebello, Lisboa, Editorial Comunicação, 1986, pp. 119-123.

sábado, 15 de março de 2014

Se tivesse de recomeçar a vida...

«Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra.»

Raul Brandão, Memórias, vol. I (1919)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

uma vila encardida

«Uma vila encardida -- ruas desertas -- pátios de lajes soerguidas pelo único esforço da erva -- o castelo -- restos intactos de muralha que não têm serventia: uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos interstícios das pedras e delas extrai suco e vida.»

Raul Brandão, Húmus (1917)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

leituras de 2014 - #10 A LÃ E A NEVE



O fio da narrativa expõe-se numa penada: Horácio pastor de Manteigas, abrira os olhos para outras realidades que não a vida elementar que transcorria entre as faldas da Estrela e os redis nas aldeias, na sequência do serviço militar cumprido nos arredores de Lisboa, mais precisamente em Cascais. Decide, então, adiar o casamento com Idalina, previsto para ser celebrado após a tropa -- e mudar de vida. Quer tornar-se operário têxtil, ali mesmo, em Manteigas, ou na Covilhã, centro mais importante, única possibilidade que vê para fugir à pobreza que confina aquelas existências.
Após percalços vários, que tornam a narrativa coerente, segue-se a entrada num mundo diferente, em que a consciência de pertença a uma classe socialmente bem delimitada, o proletariado, irá mudar, paulatina mas radicalmente, a forma como o protagonista se vê a si próprio no mundo.
Publicado em 1947, A Lã e a Neve levanta múltiplas questões no âmbito histórico-cultural, das quais só enumero algumas, e brevemente.
1. A circunstância de A Lã e a Neve ser um romance neo-realista heterodoxo: Ferreira de Castro, visceralmente libertário, anarquista por formação, convicção e coração, não acolhe a doutrinação canónica marxista-leninista, largamente teorizada a partir de meados da década de 1930. A vanguarda da classe operária aqui não tem ligações ao Partido [Comunista Português]; antes é protagonizada por  abencerragens do sindicalismo anarquista e revolucionário que caracterizou o movimento proletário organizado durante a I República: o "Marreta" -- esperantista e vegetariano -- e os que lhe estão próximos.
2. Apesar de referenciado como livro subversivoA Lã e a Neve é um romance fortemente político, de oposição que não foi apreendido nem o seu autor ao que se saiba incomodado. Já por várias vezes me referi à particular circunstância política de 1947, de suavização da ditadura em face da vitória aliada na II Guerra Mundial. Por outro lado, o reconhecimento grande que Castro tinha no estrangeiro, muito em especial em França, terá sido, de certo modo dissuasor de medidas repressivas, dado o contorno de escândalo de que se revestiria. Finalmente, e escrevo isto pela primeira vez, não posso deixar de especular (embora a pertinência deste alvitre esteja por demonstrar), o caso curioso de a editora de Ferreira de Castro, a filha de Delfim Guimarães, Maria Leonor da Cunha Leão, ser casada com Francisco da Cunha Leão, um intelectual conotado com o regime e seu funcionário superior.
3. Deixando a história político-cultural, sublinho os recursos estilísticos do escritor, as suas poderosas descrições e a mestria ficcional, que confirmam as dos romances anteriores, e de que o episódio da tempestade de neve será, possivelmente, uma das mais extraordinárias aflorações em todo o romance. Acresce a espesssura psicológica das personagens -- também sem surpresa para quanto já estavam familiarizados com os seus romances.

Poderia soltar mais uns milhares de caracteres a propósito deste livro. Para não abusar, direi apenas que um romance como A Lã e a Neve pertence à categoria daquelas obras de arte que nos definem como cultura e civilização, como portugueses; e que Ferreira de Castro é membro, um dos mais brilhantes e representativos, daquela família de escritores que tem no seio espíritos como os de Júlio Dinis e Eça de Queirós até Alves Redol, Manuel da Fonseca ou José Saramago, passando por Aquilino Ribeiro e Raul Brandão.   5*****

Ficha:
Autor: Ferreira de Castro
título: A Lã e a Neve
editora: Guimarães Edtiores
local: Lisboa
ano: 1990~
edição: 15.ª
ano: 1990 [data da primeira edição: 1947]
impressão: Oficinas gráficas de Guimarães Editores, Lisboa
págs.: 358

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

mas sempre salvos

«É a amiga mais íntima da Felícia. Juntas são temíveis. Nenhum doente lhes escapa. Esperam, espiam, compram os criados, intrigam e caem-lhes em cima, à hora da morte, pregando-lhes Deus, o inferno e as labaredas eternas. Alguns protestam. Debalde: as servas de Deus não desanimam, nem os largam. Rezam extensas ladainhas em livros encapados de negro, sentam-se dia e noite à cabeceira dos leitos, pregam, choram, chamam em altos gritos pela misericórdia infinita e subjugam-nos afinal, aterram-nos, matam-nos às vezes -- mas sempre salvos.»

Raul Brandão, A Farsa (1903)


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

um burgo de pedra e sonho

«Uma nuvem desce da serra: arrastam-se os rolos pelas encostas e depois as baforadas espessas abafam de todo a vila. E noite, cerração compacta névoa e granito formam um todo homogéneo para construírem um imenso e esfarrapado burgo de pedra e sonho. Pastas sobre pastas de nuvens álgidas, que a noite transforma em crepes, amontoam-se na escuridão. O granito revê água. E sob a chuva ininterrupta, sob as cordas incessantes, a vila, envolta na treva glacial, parece lavada em lágrimas...»
Raul Brandão, A Farsa (1903)

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

um parágrafo de Raul Brandão - HÚMUS #2

Vi não sei onde, num jardim abandonado -- Inverno e folhas secas -- entre buxos do tamanho de árvores, estátuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puíra-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem à pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulcro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos...

Húmus (1917)

terça-feira, 21 de maio de 2013

ternura e lágrimas


Dizer que o Húmus (1917) é um livro único e ser único Raul Brandão na nossa literatura é uma banalidade que, por sê-lo, não deixa de ser verdadeira. Todos os livros que li dele são enormes, à imagem da grande estatura e da densidade do seu autor.
«A vila», o microcosmos que é o mundo, a vida que se nos escapa por entre as mãos, enquanto vivemos ninharias, enquanto alguns de nós a vêem fugir como numa peneira e a maioria, tendo essa percepção instintiva e animal, nem pensa nisso, entregando a insignificância da sua passagem pela existência à ganância, à convenção, à emulação até à cova de um cemitério.
A vida é demasiado grande e nós incompatíveis com essa grandeza. «Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste...» E onde estão as Teles e as Sousas, que se odeiam, as Fonsecas e as Albergarias, Donas Engrácia e Biblioteca, Restituta e Procópia, o Elias de Melo e o Melias de Melo, podemos substituir os seus nomes pelos da maior parte de nós. «O nada a espera e a D. Procópia a abrir a boca com sono, como se não tivesse diante de si a eternidade para dormir». E ainda os outros, paisagem como o Gabiru ou adereços como a criada Joana, vivendo a vida dos outros, como se para outra coisa não tivesse vindo ao mundo: «Sempre a comparei à macieira do quintal: é inocente e útil e não ocupa lugar, e não vem Inverno que não dê ternura, nem Inverno sem produzir maçãs.»
O Raul Brandão é isto: ternura e lágrimas.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A época é de tragédia.

A época é de tragédia. O que domina é o oiro. Só existe um deus -- O Gozo. Inteiro descalabro nas consciências. Eu que quero? tu que queres? Gozar. Visto que depois da morte só o nada existe e a terra tudo traga -- um buraco e alguns punhados de desprezível cisco -- o mundo divide-se logicamente em dois largos campos: nos que, cépticos, sem preconceitos, frios como lâminas, secos como pedras, conquistam, mandam e dominam, com o código por consciência, e a quem tudo na terra é permitido -- calcar, mentir, triunfar enfim -- contanto que se fique dentro dos limites duma coisa honrosa a que por convenção se chama a honra, isto é fora da cadeia; e nos pobres, explorados e simples, ainda ignorantes, crendo numa vida eterna, que lhes pague a dor de virem ao mundo só para chorar, fartos de miséria e gritos, fartos de fome e desilusão, caminhando como um rebanho, gasto e suado, por este vale de lágrimas e de quem os outros se riem às escâncaras.

Início de O Padre (1901), de Raul Brandão, prefácio de José Manuel de Vasconcelos, Lisboa, Vega, s.d.