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domingo, 19 de fevereiro de 2017

microleituras

Missiva extraordinária, com tudo o que tem de excessivo e profundamente sentido, emanado da personalidade trágica de Mouzinho de Albuquerque (1855-1902). Um estilo literário intenso, determinado e austero de quem estava, pelos princípios e pela formação, impedido de contemporizar. Mouzinho, que não se revia no seu tempo, «época de dissolução», culpava as elites pela desintegração do Portugal imperial. É visível uma proximidade do cesarismo de Oliveira Martins, fantasiosa teoria de enlace entre o rei e o povo, ainda não estragado pela venalidade da burguesia e alguma aristocracia. D. Carlos disse-lhe: «Faze dele um homem e lembra-te que há-de ser rei»; e Mouzinho quis fazer de Luís Filipe um rei-soldado, exército em que concentravam todas as altas virtudes pátrias de autoridade, disciplina e sacrifício. De como essa simbiose inconstitucional teria possibilidade de concretizar-se foi algo que o suicídio do aio e o regicídio, aliás torpe, não permitiram aferir.
Uma palavra para a edição miseranda, sem uma nota de contextualização, folheto provavelmente impresso para propagandear as glórias do império e do regime, por ocasião da Exposição do Mundo Português.

incipit: «Meu Senhor / Quando Vossa Alteza chegou à idade em que a superintendência da sua educação tinha que ser entregue a um homem Houve por bem El-Rei nomear-me Aio do Príncipe Real.»

ficha:
Autor: Mouzinho de Albuquerque
título: Carta de Mouzinho de de Albuquerque a Sua Alteza o Príncipe Real D. Luís de Bragança
edição: Agência Geral das Colónias
local: Lisboa
ano: 1940
impressão: Editorial Ática
págs.:12
tiragem: 5000

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

breve reflexão sobre uma passagem martiniana de Carlos Malheiro Dias

Entre a doce inconsciência de peraltas e sécias da guerra que lá vem e comezainas da criadagem (com a expressiva personagem do cocheiro Xavier (ou Mestre) Estoqueta), prefiro dar atenção a um eco de Oliveira Martins na prosa de Carlos Malheiro Dias: 

«E o nobre Ataíde, com essa familiaridade com que sempre os fidalgos portugueses se aconchegaram ao povo, agradecia aos bolieiros e eguariços, erguendo da cabeça o chapéu de bico largo.»

Esta pretensa comunhão entre nobreza e povo, passando por cima da burguesia, foi tema muito explorado por Oliveira Martins e outros no seu encalço. A verdade é que este wishful thinking, como agora se diz, prende-se, sociologicamente, com o triunfo da burguesia (argentária, sem princípio nem passado) e correspondente decadência da aristocracia, que em muitos casos se tentou consorciar com os arrivistas. Fazer disso uma base para uma teoria política que desembocaria no cesarismo, como o fez Oliveira Martins, é uma fantasia sem ponta de plausibilidade.

Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu (1902), cap. II

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Oliveira Martins escreve a Luciano Cordeiro [1888]

Meu querido Luciano

Vibrei certamente, vibrei todo o dia hontem, lendo a sua primorosa obra. V. fez um milagre. Não queria escrever-lhe agradecendo-lhe o seu livro, antes de o ler, e não o li logo porque o tinha emprestado ao Moniz Barreto para elle escrever o artigo que lhe pedi e V. já leu, de certo.
O Reporter cumpriu o seu dever.
O livro das Cartas que V. fez é verdeiramente definitivo; não há mais nada a dizer.
V. esgotou a erudição e a crítica: não ha que rebuscar nem que observar mais.
Está definido o caso pathologico (?) e determinado o concurso de circumstancias que se deu.
Receba pois V., meu querido Luciano, os meus mais cordeaes parabens e creia-me sempre -- Seu velho amigo, de uma amisade sempre moça.


in Soror Mariana Alcoforado -- Cartas de Amor ao Cavalheiro de Chamilly, Porto, Editora Ausência, 2002.