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quarta-feira, 23 de março de 2016

Maria Archer, «A última amante» - A PRIMEIRA VÍTIMA DO DIABO #4

«Os setenta anos do meu amigo José Gomes são duma elegância aprumada de eterno rapaz.» (incipit)

1 parágrafo:
«Uma garota.. Dezasseis, dezassete anos... Eu não seria o primeiro, evidentemente, mas ela ainda ressumava o viço da flor em botão, a graça do objecto por estrear... Cheirava a novo, a fresco, a vida no começo, a vitalidade sem gasto... Eu olhava e embebedava-me dessa graça, dessa frescura, desse lustro de novo, eu olhava-a e sentia-me rapaz, eu entontecia e esquecia que havia, entre nós, meio século de vida a separar-nos... Não a largava... Esperava por ela às horas da saída, na rua, parado, parado pelos portais, pelas esquinas, ridículo, velho ridículo, a julgar que fazia a mesma vista dos rapazes que esperam a saída das raparigas...» (1954)

Maria Archer, «Os meus olhos abertos» - A PRIMEIRA VÍTIMA DO DIABO #3

«O juiz olha para mim de frente, fita-me nos olhos, quer apanhar-me a alma.» (incipit)

1 parágrafo:
«Elas não viram o nosso lar por dentro. Uma prisão. O pai, caixeiro de praça, à noite porteiro dum teatro, só ia a casa para comer e dormir mas deixava-nos ordens e ai de nós se não as cumpríssemos! A nossa vida regulava-se pelo terror. Às vezes, inopinadamente, entrava-nos pela porta em passos leves de ladrão, surpreendia-nos nos afazeres, corria os aposentos de ponta a ponta, abrindo tudo, vistoriando os armários, procurando debaixo das camas. Demorava-se uns minutos, olhando-nos ferozmente, em algoz, rebuscando não sei o quê, talvez os amantes escondidos, talvez as amigas que nos proibia de receber. Depois saía, remoendo palavras duras, e insatisfeito, rancoroso, apesar de não ter encontrado rabo por onde pegar-nos. Creio que o seu secreto desejo seria apanhar-nos em falta, uma grande falta, deboches, paródias, que justificassem as suas suspeitas e lhe permitissem castigar-nos na medida da fúria em que se debatia.» (1954)

segunda-feira, 21 de março de 2016

Maria Archer, «A terra chama os seus homens» - A PRIMEIRA VÍTIMA DO DIABO #2

«Moreira é o Eden do Minho.» (incipit)
1 parágrafo:
«A aldeia serrana modara sobre a antiga Bety, a da Califórnia, uma camponesa rude, enxovalhada, de pele curtida pelos temporais e corpo seco como as raízes. Mas a alma da rapariga que viera da Califórnia não se deformara nem se amolgara. Era uma alma de rapariga livre, sequiosa de vida, curiosa de tudo, que não se conformava com a aldeia, com o horizonte fechado pelas serras, com as gentes fossilizadas na serra, e se escapava, pela aventura, o risco, a fantasia em que se joga a vida, à mesquinhez do quotidiano vizinho da morte.»

sábado, 19 de março de 2016

Maria Archer, «A mais velha e a mais nova» - A PRIMEIRA VÍTIMA DO DIABO #1

Incipit - «Casada a filha, assente em residência definitiva, no palácio de Lisboa, Olga, a Olga de Castro Marim, sentiu-se só e imaginou-se só no solar do Corgo.»
um parágrafo - «No Corgo riam-se agora da Gaby, desforravam-se, zombando dela, da sua sobranceria na época em que habitava o solar. Marcavam-na de alcunhas torpes, escreviam-lhe cartas anónimas. A garotada assobiava-a mal a apanhava na rua, mesmo de carro. Ela via-os e ouvia-os, exasperava-se até à alucinação, desvairava da ânsia de atirar com o automóvel sobre a manada bravia que a insultava e lhe mimava acenos indecorosos. Por fim fizeram-lhe versos achincalhantes que a raparigada dos lavadoiros públicos cantava alto, na toada das músicas vulgarizadas na Rádio. A influência dos Castro-Marim já a não protegia e ela não tinha dinheiro, não dispunha da força do dinheiro, não podia favorecer ou prejudicar ninguém pelo poder do dinheiro, e a cobardia colectiva exultava no gozo de desforrar-se insultando impunemente.» 

"A cobardia colectiva", a facilidade, o gozo de rir-se de quem decaiu.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

leituras de 2014 #3 -- HÁ DOIS LADRÕES SEM CADASTRO

Conto extenso de Maria Archer, talvez a mais importante romancista portuguesa da primeira metade do século XX. Feminista, a condição da mulher subjaz sempre à sua obra artística.
No tempo em que as mulheres eram dependentes e passavam da alçada dos pais para as dos marido, quando se viam sós, por viuvez, como é o caso da protagonista, se não tivessem um pé-de-meia por herança, ficavam à mercê da caridade de terceiros, ou,  permitindo-lhes ainda a idade, tratariam de arranjar novo cônjuge, como estratégia de sobrevivência, preferivelmente com posses, títulos ou bens ao luar. Nem que o recurso fosse o logro, a ladra por cadastrar... Mas o título fala-nos em dois ladrões sem cadastro.   3***

Ficha:
Autor: Maria Archer
título: Há Dois Ladrões sem Cadastro 
colecção: "A Novela" #4
edição. Editora Argo
local: Lisboa
ano: 1940
impressão: Neogravura, Lisboa
págs.:42

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

asas

«Nas estações, nos povoados, acendiam-se as luzes. Ela olhava os focos luminosos surgirem da penumbra do anoitecer como se fossem lampadários postados para ela, só para ela, para iluminarem a sua ressurreição. Em que asas se erguia? Sentia-as na alma, «mas que tenho eu hoje?», tão viçosas e frescas que não ousava tocar-lhes.»

Maria Archer, Ida e Volta duma Caixa de Cigarros (1938)