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quarta-feira, 27 de abril de 2016

microleituras

Sobre a Censura e a auto-censura. O artiguinho saltou-me há vinte anos, impressionado com a leitura das «Mensagens» de Ferreira de Castro na sessão do MUD (1946) e na campanha de Norton de Matos (1949):  O medo das pessoas falarem livremente umas com as outras, não fossem ser presas, despedidas, interrogadas, torturadas. O país do medo. E, no tempo de Salazar, Ferreira de Castro escrevia isto para ser lido em público:

«[...] Os Portugueses, na sua maioria, vivem numa permanente desconfiança [...] Eles vêem em todo o compatriota que não conhecem um possível inimigo -- um homem que lhes pode fazer mal. Eles desconfiam de tudo, até dos mendigos, algumas vezes até dos parentes. até da sua própria sombra. Mesmo os homens mais pacíficos, pais de família cuja principal preocupação poderem alimentar os filhos, vivem neste ambiente de suspeição, que produz, tantas vezes, imerecidos juízos sobre pessoas que, afinal, são outras tantas vítimas do medo.»
(«Mensagem de Ferreira de Castro», Campanha Eleitoral da Oposição. Depoimento. 3.ª série, Lisboa, 1949)

O mesmo ano, contra a mediocridade instaurada pelo medo, com os surrealistas a erguerem-se. E, por falar em surrealistas, cruzo na temática do medo, poemas de Alexandre O'Neill, Natália Correia, mas também de Manuel da Fonseca e Manuel Alegre. E foi o que me veio à memória, quando pensava no que escrever sobre esta separata. Lembrei-me do parazer em pegar nos textos, aqui e ali, misturá-los, cozinhá-los. Sempre gostei de fazê-lo. E não apenas com a literatura, mas também com a pintura, a música...

incipit - «Uma ideia que tem feito carreira com sucesso é a da inexistência de grande obras reveladas após o 25 de Abril, dessas que aguardaram publicação durante anos nas gavteas dos seus autores.»

Ficha
Autor: Ricardo António Alves
título: Ferreira de Castro: Um Escritor no País do Medo
separata: Taíra - Revue du Centre de Recherche et d'Etudes Lusophones et Intertropicales #9
edição: Université Stendhal
local: Grenoble
ano: 1997
págs. 10

domingo, 31 de maio de 2015

o princípio em 1960: «Por cima da estrada real, nem a sombra de uma nuvem põe um remendo no buraco do céu.»

É este o início do, creio que único, romance de Antunes da Silva, Suão, de 1960. Um bom começo. Do vento, sabe-se que transporta uma vaga de calor sufocante que transtorna as pessoas, mesmo os que o conhecem bem, como sucede com os alentejanos.
O título é excepcional: uma palavra apenas com um feixe de implicações; tal como esplêndida é a capa da minha edição -- da autoria de Octávio Clérigo --, a primeira, saída no óptima colecção de bolso da velha Portugália Editora.
Lembro-me de que gostei da primeira vez que o li, sem que atingisse a poética depurada dos romances de Manuel da Fonseca, provavelmente o maior escritor alentejano do século XX.
Enquanto não me aborrecer, vou andar às voltas com ele e com outros.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

leituras de 2014 - #54 NENHUM OLHAR

Um romance sobre a vivência trágica da vida, escuro por vezes obscuro.
Trata-se do primeiro romance de Peixoto (de 2000), e podemos detectar algumas influências, uma reais outras talvez sugestão minha. Quanto às reais, é inegável que o estilo de José Saramago aqui se faz muito sentir; subjectivamente, ouvi os ecos de algum José Régio, das narrativas alentejanas, e Manuel da Fonseca, alguns contos seus.   4****

ficha
Autor: José Luís Peixoto
título: Nenhum Olhar
colecção: «Língua Comum»
editora: Quetzal
local: Lisboa
ano: 2014
impressão: Bloco Gráfico, Maia
págs.: 221


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

leituras de 2014 - #10 A LÃ E A NEVE



O fio da narrativa expõe-se numa penada: Horácio pastor de Manteigas, abrira os olhos para outras realidades que não a vida elementar que transcorria entre as faldas da Estrela e os redis nas aldeias, na sequência do serviço militar cumprido nos arredores de Lisboa, mais precisamente em Cascais. Decide, então, adiar o casamento com Idalina, previsto para ser celebrado após a tropa -- e mudar de vida. Quer tornar-se operário têxtil, ali mesmo, em Manteigas, ou na Covilhã, centro mais importante, única possibilidade que vê para fugir à pobreza que confina aquelas existências.
Após percalços vários, que tornam a narrativa coerente, segue-se a entrada num mundo diferente, em que a consciência de pertença a uma classe socialmente bem delimitada, o proletariado, irá mudar, paulatina mas radicalmente, a forma como o protagonista se vê a si próprio no mundo.
Publicado em 1947, A Lã e a Neve levanta múltiplas questões no âmbito histórico-cultural, das quais só enumero algumas, e brevemente.
1. A circunstância de A Lã e a Neve ser um romance neo-realista heterodoxo: Ferreira de Castro, visceralmente libertário, anarquista por formação, convicção e coração, não acolhe a doutrinação canónica marxista-leninista, largamente teorizada a partir de meados da década de 1930. A vanguarda da classe operária aqui não tem ligações ao Partido [Comunista Português]; antes é protagonizada por  abencerragens do sindicalismo anarquista e revolucionário que caracterizou o movimento proletário organizado durante a I República: o "Marreta" -- esperantista e vegetariano -- e os que lhe estão próximos.
2. Apesar de referenciado como livro subversivoA Lã e a Neve é um romance fortemente político, de oposição que não foi apreendido nem o seu autor ao que se saiba incomodado. Já por várias vezes me referi à particular circunstância política de 1947, de suavização da ditadura em face da vitória aliada na II Guerra Mundial. Por outro lado, o reconhecimento grande que Castro tinha no estrangeiro, muito em especial em França, terá sido, de certo modo dissuasor de medidas repressivas, dado o contorno de escândalo de que se revestiria. Finalmente, e escrevo isto pela primeira vez, não posso deixar de especular (embora a pertinência deste alvitre esteja por demonstrar), o caso curioso de a editora de Ferreira de Castro, a filha de Delfim Guimarães, Maria Leonor da Cunha Leão, ser casada com Francisco da Cunha Leão, um intelectual conotado com o regime e seu funcionário superior.
3. Deixando a história político-cultural, sublinho os recursos estilísticos do escritor, as suas poderosas descrições e a mestria ficcional, que confirmam as dos romances anteriores, e de que o episódio da tempestade de neve será, possivelmente, uma das mais extraordinárias aflorações em todo o romance. Acresce a espesssura psicológica das personagens -- também sem surpresa para quanto já estavam familiarizados com os seus romances.

Poderia soltar mais uns milhares de caracteres a propósito deste livro. Para não abusar, direi apenas que um romance como A Lã e a Neve pertence à categoria daquelas obras de arte que nos definem como cultura e civilização, como portugueses; e que Ferreira de Castro é membro, um dos mais brilhantes e representativos, daquela família de escritores que tem no seio espíritos como os de Júlio Dinis e Eça de Queirós até Alves Redol, Manuel da Fonseca ou José Saramago, passando por Aquilino Ribeiro e Raul Brandão.   5*****

Ficha:
Autor: Ferreira de Castro
título: A Lã e a Neve
editora: Guimarães Edtiores
local: Lisboa
ano: 1990~
edição: 15.ª
ano: 1990 [data da primeira edição: 1947]
impressão: Oficinas gráficas de Guimarães Editores, Lisboa
págs.: 358

domingo, 21 de julho de 2013

do sentimento trágico da vida

Manuel da Fonseca é, sempre foi, o meu escritor de eleição da geração neo-realista de 40. Os romances, os contos, os poemas surgiram como se não fossem trabalho literário de um iniciante (como, ao tempo, notou João Pedro de Andrade). As suas personagens, os seus ambientes têm os contornos épicos e trágicos que lhes dá não apenas a desgraça da extrema pobreza alentejana, mas também um porte digno de muitos desses desvalidos, que lhes alimenta a propensão para a revolta. Revolta contra o que é mais forte do que eles, revolta, por vezes, nem sabem bem contra quê:
«Seca e breve como uma chicotada, a praga rompe dos lábios azedos da velha: /-- Raios partam este vento!/ Por instantes, as duas mulheres entreolham-se. A velha de punho no ar, a boca ainda aberta pelo grito. [...]» Seara de Vento (1958).