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terça-feira, 11 de agosto de 2015

ver de baixo

3. Ao segundo dia de seminário, o estranhamento e o sofrimento persistem. As impressões visuais e auditivas inscrevem-se na memória do narrador, para sempre: «[...] perto do Seminário, ressoavam as pancadas de um tanoeiro que nunca mais esqueci.» 
O espaço, os objectos, os vultos são, aos olhos daquela criança, exponencialmente ampliados em face da própria pequenez da infância; os condiscípulos, rudes e toscos, como um espelho que o reflecte: 

«Decerto porque a maioria vinha da raça da gleba. Empenados, talhados à podoa, recozidos das soalheiras através das gerações, trazíamos na face negra a nossa condenação. Havia-os baixos, cheirando a terra, com dois pulsos grossos como dois eixos de carro. Havia-os altos, ossudos, com o peito largo encovado. Uns tinham a bola grande do crânio integralmente rapada. Outros, com duras repas de cabelos a enchumaçar-lhes o pescoço, abriam o seu pasmo cavernoso e lento de bichos. De olhar assustado e ferino, de olhar morto de boi, infelizes e inocentes, eu olhava-os como irmãos do fundo do meu sofrer.»

O recolhimento, ao fim do dia, a criança desprotegida, a sós com o seu medo e a sua fragilidade, entrega-se à noite -- «Chorei quanto pude até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dadas.» -- único território de liberdade, que permite a António transportar-se para a memória dos seus entes e dos seus lugares. 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

(in)adaptação

2. O medo do desconhecido, quando António avista e entra, de noite, num grande edifício desconhecido: «Lentamente, o casarão foi rodando com a curva da estrada, espiando do alto da sua quietude lôbrega pelos cem olhos das janelas.» Sensacional. Depois, a azáfama da chegada e o triunfo do cansaço. O estranhamento reservava-se para a manhã do dia seguinte, o Pe. Tomás com o Benedicamus domino, após o toque de alvorada, as Orações da Manhã na capela, de joelhos, estragando o vinco das calças domingueiras, e com direito a correcções de postura por parte de um fantasmático Perfeito, seguidas de período de meditação, pelo "funesto" Pe. Lino. Mas o sentido do rapaz estava na aldeia, e não ali; seguiu-se missa para o seminário inteiro. Esfomeado e com alívio, mas desconfortado com a nova vivência,
 António seguiu para o refeitório, para o primeiro pequeno-almoço no seminário. Um parágrafo:

«Aberta de liberdade, a minha aldeia reverdecia, na força da Primavera, pelos giestais da montanha, , quando o gralhar ferino da sineta me acordou.»

quarta-feira, 1 de julho de 2015

como O Grito

«Tomei o comboio na estação de Castanheira, depois que o Calhau deixou de me abraçar.» Vergílio Ferreira, Manhã Submersa (1954)

Relato da subtracção à terra, às raízes, em direcção ao desconhecido, ao seminário, num misto de excitação e apreensão por parte do pequeno António Santos Lopes, o António 'Borralho', alcunha que será embaraço diante dos novos colegas que vão entrando no comboio, entre Castanheira (Melo?, Gouveia?) e a Torre Branca (Fundão).
Comboio, que representa, ainda no apeadeiro, da terra, o irremediável do não-retorno: 
«Fechei a porta, apanhei ainda o último adeus do Calhau e sentei-me para chorar quanto quisesse. Em verdade, eu não gostaria de chorar. Mas, espoliado abruptamente da minha infância, aturdido de solidão, sentia-me quase quase bem dentro do choro.»
Há dois aspectos, para além da elaboração sobre o trauma infantil, que me interessaram: a solidão e a montanha.
Solidão que o protagonista sente rodeado de gente, na despedida da mãe, no meio dos outros seminaristas em viagem, no destino que lhe está reservado; a montanha ( a Serra da Estrela) elo de ligação à terra perdida, «a sua liberdade espacial, [...] o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria morta.»
Solidão, ainda, diante do intimidante edifício do seminário, a sua morada nos anos que se seguiriam, num desespero munchiano: 
«Quieto um momento, no longo pavor da noite, olhei do fundo da minha solidão a mole enorme do edifício e arranquei para a minha aldeia distante um grito de dor tão profundo que só eu o ouvi.»

sexta-feira, 12 de junho de 2015

o princípio em 1954: «Para o fim do 'Vagão «J»' diz Vergílio Ferreira que talvez eu, António Borralho (A. Santos Lopes, de lei) viesse um dia a escrever a nossa história.»

Como ainda não li o Vagão «J», não sei se a história a que o Borralho se refere diz também respeito à pré-adolescência comum no seminário, a tal manhã submersa, embora o protagonista-narrador que previsivelmente tomará a vez e a voz do autor, alertar, logo de sequida.que esse nossa  se trata da sua gente.
É curioso: muito pouco me ficou deste livro, ao contrário de cenas do filme de Lauro António; talvez por isso mesmo: as imagens do filme foram-me tão fortes, que a posterior leitura não as conseguiu apagar.
Gosto muito da capa de Dorindo de Carvalho. oportunamente falarei dela.